Jornalista José Maria Rabelo morre aos 93 anos em Belo Horizonte

Ele sofreu falência múltipla de órgãos

Foto: Fernando RabeloJosé Maria Rabelo
José Maria Rabelo

 

O jornalista, escritor e editor José Maria Rabelo, fundador do jornal "Binômio", morreu aos 93 anos, em Belo Horizonte, na madrugada desta quarta-feira (29). Ele estava internado havia um mês no Hospital Felício Rocho, na Região Centro-Sul, e sofreu falência múltipla de órgãos.

Caracterizado pelo sarcasmo, pela contestação e pelo bom humor, "Binômio: Sombra e Água Fresca", criado em parceria com Euro Arantes, é considerado um dos precursores da imprensa alternativa no Brasil. O semanário foi publicado entre 1952 e 1964, ano do golpe militar.

O título do jornal era uma provocação ao então governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitscheck (1951 a 1955), que, à época, lançou o plano "Binômio: Energia e Transporte".

Por suas atividades no jornalismo e na política, Rabelo foi exilado durante a ditadura militar, na Bolívia, onde atuou nos principais jornais de La Paz; no Chile, onde criou uma rede de livrarias especializada em ciências sociais; e na França. Em Paris, dirigiu uma livraria de línguas espanhola e portuguesa.

Ao retornar para o Brasil, em 1979, assumiu a direção do semanário "O Pasquim" e da revista "Cadernos do Terceiro Mundo", segundo informações do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais.

Rabelo presidiu o Partido Democrático Trabalhista (PDT), em Minas Gerais, durante 18 anos, e foi vice-presidente do Banco do Estado do Rio de Janeiro, nos dois governos de Leonel Brizola (1983 a 1987 e 1991 a 1994).

Ele também é autor dos livros "Binômio – O jornal que virou Minas de cabeça para baixo", "Diáspora – Os longos caminho do exílio", "Residência Provisória (poemas)", "Belo Horizonte – Do arraial à metrópole - 300 anos de história" e "Cores e Luzes de Belo Horizonte".

Viúvo, Rabelo deixa seis filhos. O fotógrafo Fernando Rabelo lamentou a partida do pai nas redes sociais: "Obrigado, pai, pelos seus ensinamentos, que guiarão a minha vida. Te amaremos para sempre", escreveu.

A Casa do Jornalista de Minas Gerais também homenageou José Maria Rabelo: "Vá em paz, Zé Maria. Obrigada por toda coragem, lucidez, esperança e amor ao jornalismo. Um abraço especial dos jornalistas de Minas nos familiares e amigos. Força. Zé Maria Rabelo, presente!"

No facebook, o escritor Fernando Morais escreveu: "Muita gente pergunta por que mantenho até hoje, no livro “A Ilha” – que já está na 37ª edição, publicado em tudo quanto é canto do mundo –, a dedicatória a José Maria Rabelo. Primeiro, pelo óbvio: Zé Maria foi o jornalista mineiro que esmurrou o general Punaro Blay, fascista de carteirinha e comandante militar em Minas Gerais, quando o milico invadiu o jornal “Binômio”, aos berros, para reclamar de uma reportagem. A homenagem era também um reconhecimento ao trabalho que o Zé teve com a direção da Revolução Cubana para que eu pudesse colocar os pés na Ilha pela primeira vez, em 1974 – viagem da qual acabou nascendo o livro e que nunca terminou. Daí a imensa tristeza ao receber, de Minas, a notícia de que o Zé morreu, aos 93 anos de idade. Não morreu. Um jornalista e ativista com a história e a trajetória do Zé Maria não morre nunca."