O pé de "Siriguela Mané" caiu, meu coração chorou!

Por mais de 50 anos aquela árvore "testemunhou" o caminhar de uma família

Por Oscar de Barros, "Mané e Maiadeiro"

O nome de meu pai era João Manoel e ele teve e criou sua prole numa comunidade rural da Bocaina, a Malhada. Portanto, somos "Manés e Maiadeiros". Esta semana recebi no whats ap da família (Mané) as fotos a seguir. Meu coração doeu. Com as fotos a noticia fatidica: o pé de Siriguela havia caído. Em 2015 tornei público através do facebook um texto que agora volto a compartilhar aqui. É a Siriguela, "falando".

Foto: Arquivo pessoalSiriguela
Siriguela

Foto: Arquivo pessoalSiriguela
Siriguela

Eu fui plantada nos fundos da casa.

Assim, como que desprezada...jogada...num canto qualquer.

Seria apenas uma pequena sombra e algumas frutinhas na época certa. Mas resolvi que teria uma função bem maior que esta.

Foi no início dos anos 70.

E eu fui crescendo. E, fui observando o movimento da casa e dos seus moradores.

Ao amanhecer do dia, minha Dona vinha dar comida as galinhas no meu terreiro. Chamava pelos animais balançando a comida na cuia que trazia nas mãos:

- Ti, ti, ti, ti, ti, ti, ti.

Logo o terreiro estava repleto de galinhas, pintos, galo, capão e algum peru.

Ao final da tarde, era o meu Dono que chegava para alimentar os porcos do chiqueiro. Recolhia a mandioca guardada, com o facão deixava-a toda pinicada e, em seguida, servia aos animais presos e a alguns que estavam soltos.

Se alguma visita chegasse “por dentro da roça” era preciso passar aos meus pés para acabar de chegar em casa.

E os anos foram se passando.

Vi meu dono morrer, sua mulher e filhos chorarem parecendo que o mundo ia se acabar.

E, eu continuei ali nos fundos da casa.

Mas acharam que uma só era insuficiente e plantaram outra, esta num lugar mais nobre, em frente à casa. Mas nunca perdi minha majestade, nunca deixei de desempenhar meu papel de observadora e de serventia para a sombra, o alimento e guarida para os trabalhos.

Enfrentei secas inclementes como a de 1983. Sol muito, agua pouca!

Mas também vi o céu escurecer e transbordar agua por este lindo baixão.

O terreno é fértil, a terra é boa e nos finais de ano adoço a boca de todos com meu fruto.

Vi o autor destas linhas muito menino.

Um braço do meu tronco, ajeitei adequadamente para recebê-lo sentado.

Ele cresceu e seu filho subiu em meus galhos.

Mas não só ele!

Todos os netos (e agora, bisnetos) dos meus donos em mim subiram. Nenhum ficou sem brincar em minha sombra e engatinhar por meus braços. Nunca machuquei nenhum deles. Aos meus cuidados, todos só tiveram alegria.

Dos mais antigos, como o que agora cuida desta Malhada, aos mais novos que de longe veem.

Mas, me permitam... também fiquei triste. Depois da morte de meu Dono, uma de suas filhas veio aqui se despedir e foi para nunca mais voltar. Assim, como também a minha Dona. Primeiro, ela saiu de casa, mas vinha sempre cuidar da gente. Foi envelhecendo e ficando fraquinha, diminuiu suas vindas aqui, e quando vinha, já quase não saia de dentro de casa. Que saudades dela!

Mas entre um açoite de vento e outro lembro-me também das alegrias.

Fico a olhar este terreiro e me lembrar de quantas reuniões festivas ele já foi base. Aqui mesmo, embaixo de mim, sob a minha proteção, já reuni os filhos da casa, os netos da casa, os amigos da casa para uma matança qualquer para celebrar uma semana santa, um final de ano, ou um fim de semana qualquer. Ah! E quando eles se reúnem....quanta alegria!

E tem também aqueles momentos discretos que a gente não pode falar muito. Mas aqui ou acolá também protejo quem precisa rapidamente de uma necessidade básica. Ora mais, não estranhe. No sertão é assim!

Entra ano e sai ano, dia ou noite, sol ou chuva ....e eu aqui fincada nos fundos da casa vou observando esta família.

-Ah! Sabe de uma coisa? Eu não sou gente, sou apenas uma árvore! Mas me sinto uma verdadeira Mané. Sou uma siriguela Mané!

Foto: Arquivo PessoalSiriguela
Siriguela

Foto: Arquivo pessoalSiriguela
Siriguela

Foto: Arquivo pessoalSiriguela
Siriguela

Foto: Arquivo pessoalSiriguela
Siriguela

Foto: Arquivo pessoalSiriguela
Siriguela

Foto: Arquivo pessoalSiriguela
Siriguela

Foto: Arquivo pessoalSiriguela
Siriguela

Foto: Arquivo pessoalSiriguela
Siriguela

Foto: Arquivo pessoalSiriguela
Siriguela

Foto: Arquivo pessoalSiriguela
Siriguela

Foto: Arquivo pessoalSiriguela
Siriguela

Foto: Arquivo pessoalSiriguela
Siriguela

Foto: Arquivo pessoalSiriguela
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