BRICs: Mercados emergentes ou países emergentes?

BRICs: Mercados emergentes ou países emergentes?

Foto: GoogleBRICS
BRICS

 Escolhi o PIB ou Renda per capital como ponto de partida para análise dos processos e desafios do Desenvolvimento; e já comentei dados relativos ao Piauí e ao Brasil, em artigos anteriores: O Brasil, com um PIB per capita de US$ 11.727 (dados do Banco Mundial para 2015), situa-se no nível dos países em desenvolvimento, pois os países considerados ricos todos têm um PIB per capita próximo ou maior que US$ 20.000. Mas, na análise comparativa que fiz entre o PIB per capita do Brasil e dos demais países, já foram identificadas algumas situações que mostram os limites da consideração dessa única variável:


  • dez países europeus e países como a África do Sul e Irã têm menos de US$ 10.000 de PIB per capita – seriam eles subdesenvolvidos ou em desenvolvimento?

  • a Rússia tem o PIB per capita de US$ 12.736, um pouco acima do Brasil – estaria portanto na situação dos países em desenvolvimento.

  • A China com US$ 7.590 e a Índia com US$ 1.582 de PIB per capita podem simplesmente ser classificadas como subdesenvolvidas?

Está na hora pois de ampliar o horizonte da análise do Desenvolvimento. Nos últimos anos tem sido muito utilizada a categoria de “mercados emergentes” ou “países emergentes”. São aqueles que se situam entre os 20 maiores PIBs do mundo, têm um grande contingente populacional e por isso estão atraindo investimentos diretos externos, mesmo enfrentando crises de tempos em tempos. O Brasil liderou a formação do G20 com esses países. Nesse Grupo merece atenção especial a situação dos BRICs – aqui usando o acrônimo apenas para Brasil, Rússia, Índia e China; a África do Sul foi incluída por solidariedade à pátria de Mandela; seu lugar seria no G20. O que caracteriza esses quatro países é que eles estão simultaneamente em três listas dos 10 maiores: os 10 países do mundo com maior território, com maior população e com maior PIB; apenas os Estados Unidos estão na mesma situação. Não é, pois, “inocente” a posição dos Estados Unidos de desarticular os BRICs, contando hoje com o apoio equivocado do novo governo do Brasil. China, Rússia, Brasil e Índia enfrentam desafios comuns e desafios específicos para se tornarem não apenas países ricos, garantindo bem estar a suas populações mas também conquistando um lugar de destaque no comércio, nas finanças e na geopolítica global. São decisivamente emergentes! Emergentes como mercados ou emergentes como países, ou melhor, como Nações? Eis a questão. O caso da CHINA não deixa dúvidas, com 21% da população mundial (1,5 bilhão dos 7 bilhões de habitantes do nosso Planeta). Mas não se trata apenas do “quantitativo”; a China avança cada vez mais na “qualidade”: na pesquisa e inovação, na sofisticação dos produtos industrias-eletrônicos, na diversificação de sua economia, entrando agora até no campo da exploração espacial. Mantém um alto ritmo de crescimento anual do PIB, embora se reduzindo de 10% para 6% ao ano; sua taxa de investimento chegou a 40% do PIB e ainda se mantém em 30%. Só para ter uma ideia do que isso significa: o Brasil está com uma taxa de investimento abaixo de 20%. Isso só é possível porque a China, com uma economia ainda predominantemente estatal, adotou uma clara política de “prosperidade”. Quero chamar a atenção para esse ponto: a China tem um Projeto de Nação, que ganha mesmo conotação de Projeto de Grande Potência. Assim, a China não é apenas um imenso mercado emergente; é um País ou Nação emergente. A ÍNDIA tem algumas características semelhantes às da China: 19% da população mundial, modernização da economia e mantém um ritmo razoável de investimento e crescimento do PIB. O Estado continua tendo um protagonismo no processo econômico. Tem um Projeto de Nação e vem trabalhando esse Projeto num regime democrático. Enfrenta desafios imensos, pela combinação da desigualdade social com a diversidade cultural (étnico-linguística-religiosa). Provavelmente não chegará ao PIB per capita de US$ 20.000 tão rapidamente quanto a China. Mas, com certeza, não é apenas um mercado emergente; é um País ou uma Nação emergente! A RÚSSIA é um caso à parte nos BRIC; tem 150 milhões der habitantes, após a dissolução da União Soviética, mas continua como o país com a maior área territorial do mundo (17.098.246 km2, mais do dobro do Brasil). Foi uma grande potência mundial e seu desafio é a re-emergência como Nação economicamente forte, com um bom nível de bem estar social e com um papel econômico importante no mundo globalizado. Enfrenta dois grandes bloqueios: 1) ainda assume um pesado ônus na geopolítica mundial e isso limita sua capacidade de se concentrar nas questões econômicas (diferentemente da China); 2) a volta ao capitalismo se deu como colapso e não como uma transição ordenada (a Glasnost que Gorbachev queria e que Deng Xiaoping conseguiu na China), o que produziu uma “nova classe empresarial” que disputa os recursos de modo muito “não-mercantil”. Isso dificulta a articulação econômica internacional e a atração de maior investimento direto externo. Sua identidade como Nação tem raízes históricas consolidadas. Superando seus impasses, que já enfrenta há 27 anos, tem condições de re-emergir como um País, uma Nação “desenvolvida”; não será um simples mercado emergente. Esse é o dilema do BRASIL: mercado emergente ou País ou Nação emergente? A opção radical pelo neoliberalismo aponta mais para a primeira alternativa. Mas esse é o assunto do próximo artigo.