Em pleno domingo: Alcolumbre sobe o tom e pressiona o Planalto pela indicação de Jorge Messias
Em nota divulgada hoje, Alcolumbre acusou setores do Executivo de tentar interferir no cronograma da sabatina prevista para 10 de dezembro
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), elevou a temperatura da crise institucional ao atacar publicamente o governo Lula pela demora no envio da mensagem oficial que formaliza a indicação de Jorge Messias, advogado-geral da União, ao Supremo Tribunal Federal. A escolha foi anunciada em 20 de novembro e publicada em edição extra do Diário Oficial, mas o Palácio do Planalto ainda não remeteu o ofício obrigatório ao Legislativo — etapa indispensável para que o Senado dê início ao processo de avaliação do indicado.
Em nota divulgada neste domingo (30), Alcolumbre afirmou que a Casa está “perplexa” com a ausência da mensagem e acusou setores do Executivo de tentar interferir no cronograma da sabatina prevista para 10 de dezembro. Ele classificou a conduta do governo como “ofensiva” e insinuou que o Planalto tenta transmitir à opinião pública a ideia de que conflitos entre os Poderes se resolvem com “cargos e emendas”. A reação do senador, contudo, ocorre dias depois de ele próprio ter pressionado o governo por posições estratégicas na máquina federal, incluindo comandos no Banco do Brasil, BNB, Cade e CVM — um contraste que não passou despercebido nos bastidores políticos.
A irritação de Alcolumbre está diretamente associada à escolha de Messias. O presidente do Senado trabalhava pela indicação do colega Rodrigo Pacheco (PSD-MG) e foi surpreendido pela decisão de Lula. A falta de consultas prévias e o anúncio feito pela imprensa acirraram o descontentamento, levando Alcolumbre a romper com o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), e a se recusar a receber o AGU para conversas sobre a sabatina. Nos corredores do Congresso, a avaliação de parlamentares governistas é de que o calendário acelerado da Comissão de Constituição e Justiça foi desenhado pelo próprio presidente da Casa como forma de pressionar o Planalto.
A nota deste domingo aprofunda a disputa política e marca um raro ataque público de Alcolumbre ao Executivo em pleno fim de semana. Nela, o senador sustenta que seu calendário para a sabatina “segue o padrão das indicações anteriores” e permitiria votar o nome de Messias ainda em 2025. Entretanto, a percepção generalizada entre aliados do governo é de que a pressa reduz o tempo de articulação política e dificulta a construção dos 41 votos necessários para a aprovação no plenário — um movimento que favorece o próprio Alcolumbre, hoje o principal articulador do Senado.
O Planalto, diante do recrudescimento da crise, mudou de postura ao longo do dia. A pedido de Lula, ministros passaram a defender publicamente Alcolumbre, afirmando que “inexiste qualquer reivindicação de cargos” por parte do senador e que divergências fazem parte da política. A tentativa de distensionar o ambiente busca conter os danos antes da sabatina e preservar a relação com o Congresso, especialmente diante da resistência crescente de parte dos parlamentares ao nome de Messias.
A disputa pela cadeira deixada por Luís Roberto Barroso, portanto, ultrapassou os limites da rotina institucional e se transformou numa batalha de poder entre o Palácio do Planalto e o comando do Senado. De um lado, Lula exerce sua prerrogativa constitucional de indicar ministros do STF; de outro, Alcolumbre tenta reafirmar sua força política — e, simultaneamente, deixar claro que a última palavra no processo sempre pertence ao Senado.
Até o momento, o governo não comentou a nova ofensiva do presidente da Casa. Em Brasília, porém, o silêncio costuma falar mais alto do que qualquer nota oficial.

ORÇAMENTO SECRETO - AÍ ESTÁ A RAZÃO PRINCIPAL DAS VONTADES DE ALCOLUMBRE
Davi Alcolumbre, hoje um dos personagens mais influentes do Congresso, iniciou sua trajetória longe dos holofotes, integrado ao chamado baixo clero do Parlamento. A ascensão começou quando conquistou, surpreendentemente, a presidência do Senado. A partir dali, tornou-se peça central na criação do chamado Orçamento Secreto — hoje rebatizado como emendas de comissão e emendas de relator.
Esse mecanismo, denunciado amplamente por especialistas em contas públicas, transferiu para as mãos de parlamentares o controle de parcelas expressivas do orçamento federal. Na prática, privatizou verbas públicas, distorceu o papel constitucional do Legislativo e se tornou um dos instrumentos mais opacos e vulneráveis a fraudes na história recente do país. Reportagens fartamente documentadas apontam suspeitas de desvios milionários na aplicação dessas emendas, quase sempre sem rastreabilidade e sem fiscalização efetiva.
No cenário atual, Alcolumbre atua diretamente para impedir a ida do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao STF. Ele trabalha pela indicação do senador mineiro Rodrigo Pacheco — seu aliado e nome de confiança dentro do Senado. O pano de fundo é estratégico: o ministro Flávio Dino, recém-chegado à Corte, é o relator dos processos que tratam do sistema de emendas parlamentares e pode aplicar decisões capazes de desarticular a engrenagem que sustenta o centrão, espaço político onde Alcolumbre circula com desenvoltura.
Com Pacheco no Supremo, somado aos dois ministros indicados por Jair Bolsonaro, Alcolumbre vislumbra a formação de um bloco de três votos sólidos, suficientes para neutralizar eventuais decisões mais duras de Dino. Esse cálculo explica, nos bastidores, a resistência feroz do senador ao nome de Jorge Messias — cuja autonomia e perfil técnico não lhe ofereceriam a mesma garantia de blindagem.
A disputa, portanto, não é apenas sobre um nome para o STF. É sobre a sobrevivência de um sistema político que se alimenta da opacidade orçamentária — e que vê na indicação para a Corte uma chance de preservar seus próprios mecanismos de poder.
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