Política

Motta sabota de um lado, Alcolumbre de outro. Lula vai mediando a situação

Lula se vê obrigado a exercer seu papel histórico: o de mediador político capaz de reorganizar, costurar e reconstruir pontes


Reprodução Motta sabota de um lado, Alcolumbre de outro. Lula vai mediando a situação
Alcolumbre, Hugo Motta e Lula

A articulação política em Brasília atravessa um de seus momentos mais tensos desde o início do terceiro governo Lula. De um lado, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), adotou movimentos que o Palácio do Planalto interpreta como sabotagem direta à agenda do Executivo. Do outro, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), opera nos bastidores para dificultar a futura indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. Entre pressões cruzadas, ruídos e disputas de poder, é Lula quem tenta manter o equilíbrio, atuando como mediador para impedir um colapso na base institucional que sustenta o governo.

A crise com Motta ganhou corpo após a indicação do deputado Guilherme Derrite (PP-SP) para relatar o projeto de lei Antifacção — proposta trabalhada por seis meses pelo governo e considerada eixo central da resposta federal à crise de segurança deflagrada após a operação policial de 28 de outubro no Rio. A escolha do relator irritou o Planalto e, segundo aliados, incomodou diretamente o presidente Lula. Derrite alterou pontos estratégicos do texto original, esvaziou a autoria do Executivo e foi acusado por petistas de atacar a Polícia Federal em versões preliminares do relatório. Para o governo, Motta enviou um recado político claro ao escalar para a relatoria um aliado do governador Tarcísio de Freitas, seu correligionário e, segundo ministros, o nome preferido do presidente da Câmara para a corrida presidencial de 2026.

A tensão cresceu porque o episódio não veio isolado. Em 25 de junho, Motta já havia atropelado um acordo ao colocar em votação — de madrugada — a derrubada do decreto que elevava o IOF, medida essencial para o ajuste fiscal. O Planalto viu ali o primeiro grande teste de força do novo presidente da Câmara, que desde então passou a oscilar entre gestos de aproximação e atitudes consideradas hostis. Na avaliação de petistas, trata-se de um dirigente ainda pouco experiente para lidar com pressões e que procura ao mesmo tempo agradar bolsonaristas, preservar seu capital dentro do Republicanos e não se afastar totalmente do governo, de quem precisa para liberar emendas e apoiar a candidatura do pai ao Senado.

Enquanto lida com o desgaste na Câmara, o governo vê o Senado se tornar palco de outra frente de sabotagem. Davi Alcolumbre e seus aliados intensificaram, nos bastidores, uma operação para enfraquecer a futura indicação de Jorge Messias ao STF. Um mapeamento de votos apresentado ao Planalto aponta que Messias teria hoje entre 28 e 31 senadores favoráveis, número abaixo do necessário para uma aprovação segura. O gesto foi interpretado pelo Executivo como um aviso: a situação de Messias é arriscada e dependerá de negociações profundas. O movimento de Alcolumbre ecoa estratégias anteriores — criar dificuldades no início para, mais à frente, “vender facilidades” em troca de cargos, emendas e compromissos políticos.

A apertada aprovação de Paulo Gonet para a Procuradoria-Geral da República, com apenas quatro votos acima do mínimo, reforçou no Planalto a sensação de que o Senado está disposto a tensionar. O resultado serviu como alerta: se Gonet passou raspando, Messias poderá enfrentar resistência ainda maior num ambiente onde Alcolumbre atua como articulador central.

Diante de dois focos simultâneos de pressão, Lula tem investido em uma atuação paciente de mediação. O líder do governo na Câmara, José Guimarães, relata conversas diárias com Motta para evitar uma ruptura que poderia comprometer votações estratégicas. Nas palavras do próprio Guimarães, “não deixar a corda se quebrar” virou missão prioritária. Já no Senado, o presidente busca compreender o real alcance da movimentação de Alcolumbre, avaliando cenários e preparando o terreno para o momento em que precisar bater o martelo sobre a indicação ao Supremo.

Assim, enquanto Motta puxa a corda de um lado e Alcolumbre tensiona do outro, Lula se vê obrigado a exercer seu papel histórico: o de mediador político capaz de reorganizar, costurar e reconstruir pontes. O jogo ficou mais duro — e os movimentos dos chefes das duas Casas confirmam que, neste momento, a disputa pela hegemonia em Brasília passa, necessariamente, pelo esforço do presidente em evitar que a engrenagem institucional trave por completo.

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