Ricardo Barros e os professores do Brasil

Barros quer colocar nas costas dos educadores o peso da incompetência do governo do qual ele é líder no Congresso

 
Foto: DivulgaçãoRicardo Barros e a educação
Ricardo Barros e a educação

O deputado federal paranaense, Ricardo Barros (PP-PR), o mesmo que votou contra o processo de cassação de Eduardo Cunha e foi acusado de receber propina de R$ 5 milhões para intermediar negócios com a Copel, protagonizou cenas de horrores na manhã de hoje (20-04-2021), na CNNBrasil.

Na “genial” análise do deputado, “não existe nenhuma razão para o professor não estar ‘dando’ aula, nenhuma!”. Ele afirma isso no pior momento da pandemia no Brasil, com média de mais de 3 mil mortes/dia. E complementa: “só professor não quer trabalhar”.

Ricardo Barros sequer tem a dignidade de falar a verdade. A maneira como ele coloca a questão faz parecer que os professores e servidores da educação não estão trabalhando. Quase os chama de vagabundos. Sugere, de forma mentirosa, que os professores não estão lecionando. Diz que o Brasil é o “segundo país do mundo que não teve aula na pandemia”, concluindo com esse fétido embuste: “Brasil não teve aula nenhum dia”. 

Ignora que desde o início da pandemia os professores e educadores não pararam de lecionar. Tiveram que aprender a lidar com tecnologias, lecionar online, desenvolver metodologias pedagógicas e laboratoriais para dar conta das demandas da educação. E mesmo o curto período de adaptação em que ficou sem aula, está sendo reposto pelos calendários acadêmicos. Ricardo Barros é uma tempestade de mentiras contra os professores e a educação.

Além disso, os educadores viraram assistentes sociais, arrecadando alimentos, celulares, tablets, computadores etc para atender aos estudantes e seus familiares, além da comunidade escolar. Tudo isso porque o país foi abandonado à própria sorte na pandemia da “gripezinha” que já matou quase 400 mil pessoas e está defenestrando sua economia.

Todos (as) educadores (as) desse país estão em frangalhos, extenuados, estressados, ansiosos e/ou depressivos, lidando com situações desumanas tanto na vida familiar como no trabalho, com o bafo da morte em cada um de seus cangotes. Além de observar o abandono do governo no que se refere aos estudantes, à educação e à ciência. Ademais, aguentam ataques imorais, antiéticos e tacanhos como esse promovido pelo deputado.

Ricardo Barros teve a pachorra de comparar a situação dos professores brasileiros com a dos europeus, “esquecendo” que estamos no país com a pior gestão do mundo na pandemia, sem vacinas, sem planejamento, sem orientação científica, sem presidente competente e com muitos deputados contaminados pelo bacilo da imoralidade política. 

Os professores e professoras desse país aguardam ansiosamente para o retorno presencial das atividades, pois ninguém está contente com a situação. Porém, sabem que isso é impossível sem vacinação. Ao contrário da postura do deputado e do governo federal, a escola é lugar de ciência, e essa recomenda o mínimo de inteligência para lidar com a pandemia e evitar mortes. Algo inteligente e científico, por exemplo, seria ter comprado 70 milhões de doses de vacina quando foram oferecidas ao Brasil, e não mentir e atacar professores. 

Ademais, chama as diretoras e diretores de escolas de analfabetos digitais e praticamente acusa-os de prevaricação ao afirmar que eles impedem a modernização tecnológica das escolas, pois têm medo de serem substituídos por funcionários mais competentes. Assevera que os professores (as) estão apenas esperando aposentar e não querem aprender mais nada. Se eu fosse os diretores (as) e professores (as) das escolas entraria com processo contra o deputado por danos morais, calúnia e difamação. Acionem seus sindicatos!

Ele vai além nas inverdades. Cria uma lenda de que há um programa do governo de acesso à internet e digital. Isso pouco depois do presidente Bolsonaro vetar a Lei que previa a disponibilização de tablets para os estudantes. Muitas instituições tiveram que recorrer a doações de equipamentos para conseguir ofertar educação a todos os estudantes. Se as escolas fossem depender do suporte do governo para atuar, realmente a fala mentirosa do deputado seria verdade: até hoje estaríamos sem aulas. 

Como um oráculo que tudo vê, Ricardo Barros afirma, peremptoriamente, que todas as escolas têm condições sanitárias de retorno. Qual a fonte que prova isso, deputado?

Um exemplo: na rede federal, os Institutos Federais estão recebendo 1/18 de 40% do orçamento anual, o que está estrangulando as instituições que mal pagam os fornecedores, precisando os diretores assinar reconhecimento de dívidas quase todos os dias. Como, Deputado, escolas sem orçamento, sem pagamento de fornecedores, sem condições de comprarem itens de proteção sanitária e sem vacinação estão aptas a retornarem presencialmente? Isso na rede federal, imagine o restante.

Para Barros, não é a inépcia do governo em combater a pandemia que prejudica as crianças (e o resto de todo o país), mas os professores. Na mente púbere do deputado, provavelmente habitam as fantasias infantis do homem do saco, coelhinho da Páscoa e professor doutrinador malvadão.

E qual a mágica solução do deputado para providenciar o retorno das aulas presenciais? Cobrar o governo para comprar vacinas, vacinar os professores, estimular o uso de métodos sanitários e de isolamento no país em que mais morre gente de covid no mundo? Não! A solução para ele é votar projeto de lei que coloca a Educação como serviço essencial, contrariando as jurisprudências que entendem serviço essencial como aquele diretamente relacionado à manutenção da vida. 

Com essa medida tosca pretendem “resolver” a questão da educação. Não tocam no problema de orçamento, financiamento, vacinas etc, mas apenas na arbitrariedade quase nazista de levar educadores e estudantes para as câmaras de gás da atualidade: as salas de aula.

Reitero, Ricardo Barros quer colocar nas costas dos educadores o peso da incompetência do governo do qual ele é líder no Congresso. Que resistamos a mais esse ataque e não nos portemos como gados que caminham passivos para o matadouro.