Pai carregou a espingarda, o tiro ecoou, um latido horripilante, um cheiro de pólvora no ar e Sultão morto

Pai carregou a espingarda, o tiro ecoou, um latido horripilante, um cheiro de pólvora no ar e Sultão morto

Foto: Pensar PiauíCachorro Sultão
Cachorro Sultão

Por Odorico Carvalho, músico e jornalista Quando criança, em Lagoa Grande, interior de Bocaina onde morávamos, meu pai adquiriu um cachorrinho. Chegou bem pequeno ainda, pernas meio bambas, olhos tristes provavelmente por ter sido separado da mãe e irmãos. Chamava-se Sultão, sabe-se lá de onde meu pai tirou esse nome. Sultão cresceu com a gente, até muito mais rápido e, em pouco tempo, virou o xodó da família. Corria pela casa, perseguia as galinhas no terreiro, levava bicadas do galo que, altivo, não abria mão (ou asas) de mostrar autoridade. Em pouco tempo, ele já acompanhava meu pai nas caçadas noturnas. Não tinha nenhuma preguiça. Era meu pai pegar o chapéu para sair e lá estava Sultão, pronto. Ao chegar das caçadas, meu pai contava, entre risos, a coragem e afoiteza com que se portava. Numa dessas, travou um luta desigual com um tamanduá bandeira, bem maior do que ele, mas, depois de levar muitos safanões, botou o bicho pra correr. Ao voltar pra casa, Sultão cumprimentava a todos, um por um, enroscava-se nas pernas, balançava o rabo e rosnava com genuína alegria. E recebia em troca abraços e afagos. Brincava com a gente durante horas e, muitas vezes, parecia velar nosso sono até altas horas. Certa tarde, ao passar pela cozinha, naquele corre-corre típico das crianças, ouvi meus pais aos cochichos. Na minha curiosidade infantil, afiei os ouvidos e liguei as antenas para captar alguma coisa. Ele dizia que um surto de raiva ocorria na região, que essa doença era grave e estava dizimando os cães. E recomendou muito cuidado, observar o comportamento do cachorro e, a qualquer sinal de mudança, colocar as crianças para dentro de casa e fechar as portas. Fiquei encafifado. Não sabia o que era raiva, nem entendia como nosso melhor amigo poderia ser um perigo para nós. Quando questionei minha mãe, ela pediu para que eu não me preocupasse com isso, que Deus não permitira que nada de ruim acontecesse. Percebi em seu rosto uma forte sombra de preocupação. Dias depois, mais ou menos às cinco da manhã, acordei com uma movimentação estranha em casa. Levantei-me da rede, bambeando de sono, logo seguido por meus irmãos em direção à cozinha. Lá, sentado numa cadeira perto da porta de duas bandas, meu pai carregava a espingarda. Colocava chumbinhos, bucha e socava com uma vareta de ferro. Em seguida, repetia todo processo. Mantinha um semblante grave, profunda angústia saltava-lhe da face. Perto do fogão de lenha, minha mãe, de costas para porta, fingia fazer alguma coisa, mas dava pra ver os soluços agitando seus ombros. De repente, do lado de fora, lá pros lados das moitas de mufumbo, um latido lancinante. Começava forte, profundo, assustador e se repetia noutros sons menores que mais pareciam um lamento, um pedido de socorro. Meus olhos arregalados não refletiam, nem de longe, o pavor que tomou conta de meu corpo. Enquanto meu pai terminava os preparativos para o sacrifício, perguntei-lhe umas três vezes se não tinha um remédio para Sultão. Em minha cabeça de criança com seis ou sete anos, eu imagina que um chazinho de limão com melhoral, uma purga de óleo de rícino, uma beberagem qualquer poderiam salvá-lo. Meu pai só balançou a cabeça e, de arma em punho, dirigiu-se para uma janela do oitão, bem de frente para a moita onde se alojara Sultão e, apoiado no batente, fazia a mira cuidadosamente. Meus irmãos choramingavam atrás de mim, meu peito arfava e, num último ato de desespero, gritei a pleno pulmões: - Pai, dá um remédio para ele! Mata ele não, pai! O tiro ecoou pela Lagoa Grande. Um latido horripilante! Um cheiro de pólvora no ar. Silêncio absoluto, só entrecortado por nossos soluços. Ainda com um fio de esperança, eu tentava captar algum sinal de que Sultão escapara e continuava vivo. Nada, nada, nada! Meu pai não nos deixou ver o cadáver de Sultão. Num ato solitário e de profunda tristeza, ele o carregou para algum canto de nosso cercado e o enterrou com todas as honras só dispensadas aos amigos mais fiéis. Imagino que tenha sentado à beira da sepultura e chorado por horas, pois, ao voltar, parecia arredio e acabrunhado. Meu pai possuiu outros cães, mas eu nunca mais quis me aproximar deles. Nem de bicho nenhum! Jurei nunca mais permitir a entrada de animal nenhum na minha casa, promessa quebrada três décadas depois. Mas esta é outra história!