Lula, Boulos e Gallo não foram autorizados a ocupar o espaço que ocupam hoje

A luta agora é pelo território e a periferia é o locus, é o centro da luta agora, o âmago, a essência

Foto: Montagem pensarpiauíLula, Boulos e Gallo
Lula, Boulos e Gallo

O jornalista Mario Vitor Santos falou à TV 247 sobre as mensagens publicadas pelo ex-presidente Lula (PT) e pelo coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos (PSOL), em solidariedade ao líder dos entregadores de aplicativo, Paulo Galo, preso após participar de ato que colocou fogo na estátua de Borba Gato, bandeirante explorador de indígenas, em São Paulo em 24 de julho.

Para Mario Vitor Santos, Lula e Boulos foram fiéis a seus pensamentos, principalmente o petista, que não pensou em eleição ao prestar solidariedade a Galo, já que o apoio a uma figura vista como vândalo pela sociedade pode ser usado contra ele na campanha eleitoral em 2022. 

“Eleitoralmente pode não ser tão produtivo, em termos de captação de voto, uma solidariedade a uma pessoa que está estigmatizada nos meios da mídia corporativa, e mesmo em meios da esquerda. O Lula não vacilou em sair em solidariedade, da maneira como ele achou adequado. Ele veio da prisão, ele veio do cárcere, ele não se desligou dessa sua trajetória. Ele próprio é uma liderança que não foi autorizada a ocupar o espaço que está ocupando hoje. Ele fez isso contra a vontade dos que têm poder. O Lula não pensou em eleição, pensou no que é certo e o que é errado fazer agora, e fez o que está correto. A mesma coisa o Boulos, eu creio, mas o Lula é a pessoa mais exposta a isso. Isso pode ser usado na campanha. Mas ele foi de uma clareza, de uma generosidade, de um desprendimento e de uma fidelidade a seus pensamentos que merece registro. O Lula não é um político qualquer, como nós sabemos muito bem, e mostrou mais uma vez isso”.

Incêndio ao Borba Gato

O jornalista ainda compartilhou sua reflexão sobre o ato liderado pelo grupo Revolução Periférica que, em sua avaliação, conseguiu iniciar o debate na sociedade brasileira acerca dos monumentos históricos que homenageiam escravizadores, exploradores, criminosos, entre outros. "A tentativa de incêndio na estátua do Borba Gato desatou uma discussão transversal na sociedade brasileira, e essa discussão em si já é muito interessante. Foi um raio no céu que imantou as atenções sociais, e isso é muito fértil do ponto de vista político-cultural. Tivemos a oportunidade de refletir sobre o papel dos bandeirantes, desses sujeitos que iam à caça de pedras preciosas, riquezas, recursos minerais e também à caça de índios, quilombolas e pessoas que estavam em situação de liberdade”. 

Mario Vitor Santos chamou atenção também para a mensagem que o grupo passa por trás do ato, que é a da mudança do centro da luta política, que saiu das fábricas e agora se encontra na periferia. “O grupo se chama ‘Revolução Periférica’. O próprio nome já parece indicar que a luta política mudou de eixo, porque não mais só marcada pelo caráter classista. É adequada aos tempos atuais, liderada por um líder de entregadores de aplicativo, uma nova liderança. E uma liderança geográfica, periférica. Esse nome parece indicar, talvez não intencionalmente, qual é o eixo da luta política a partir de agora. Não são mais as fábricas. Por conta da desindustrialização do país e de outras mudanças econômicas e sociais, não há mais a centralidade das fábricas. A luta agora é pelo território e a periferia é o locus, é o centro da luta agora, o âmago, a essência. As manifestações contra Bolsonaro na Paulista têm que conviver com essas ações das periferias. As lideranças da esquerda devem abrigar, hospedar e aprender com essas ações da periferia”.