Arnaldo Eugênio, doutor em Antropologia

A tuiteria inconsequente do Presidente Jair Bolsonaro (PSL), made in trumpnismo tupiniquim, sobre os mais diversos temas, e também de temáticas desimportantes, na rede social, tem exposto ao mundo um cinismo e um falso moralismo à brasileira por parte de um grupo político, que chegou ao governo por meio de escolhas eleitorais cheias de rancor, vingança e ódio – em particular, ao Partido dos Trabalhadores (PT) –, mas, sem nenhuma proposta de governo ou de Estado para mostrar (e mais para esconder), sustentando-se em retóricas, falácias, radicalismo e tautologia.

O twitter mais recente foi um vídeo divulgado pelo Presidente do Brasil na sua conta oficial em 05/03, que mostra um homem urinando na cabeça de outro, motivando o Presidente Bolsonaro a relacioná-lo como sendo a essência dos atos carnavalescos nos blocos de rua no carnaval brasileiro – uma festa popular.

Primeiro, antropologicamente, o Presidente do país apresenta total desconhecimento sobre a carnavalatria brasileira – constituída por uma diversidade de sons, cheiros, cantos, cores, ritmos, sabores, comportamentos sociais, etc –, e, por isso, faltou-lhe a inteligibilidade analítica para discernir o sentido festivo dos blocos de rua, para além da exposição corpórea, da banalização do sexo, da apologia ao álcool e da violência desproporcional.

Segundo, quanto ao mundo virtual, o Presidente infringiu as regras do Twitter, pois o vídeo é considerado como impróprio por ferir uma série de diretrizes sobre conteúdo adulto – qualquer mídia que seja pornográfica ou destinada a causar excitação sexual (p.ex., nudez total ou parcial, incluindo closes dos órgãos genitais, nádegas, seios, gesticulações obscenas, etc). Daí suscitar em muitos internautas a ideia de impeachment de Bolsonaro (Art. 85 e 86 da CF/88, mas segue em vigor a lei nº 1.079/1950, Art. 4º).

De fato, sociologicamente, o ato do Presidente do Brasil não se tratou de mostrar uma realidade que alguns supostos depravados quisessem tornar uma regra social e que, se alguém for contra será visto como homofóbico. Mas, juridicamente, pode ser visto como infração político-administrativa cometida no desempenho da função presidencial, ou seja, um crime de responsabilidade – p.ex. improbidade administrativa, “proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo”.

No dia seguinte, tamanho fora o desatino tuiteiro presidencial que, o próprio Presidente perguntou aos seus seguidores do Twitter “o que é Golden Shower” – trata-se de uma expressão inglesa que, ao pé da letra, significa “chuveiro dourado” e se refere a uma prática sexual em que um parceiro (ou parceira) urina no outro. Esse tipo de ato é bastante conhecido em vídeos pornográficos e não precisa ser um exímio pornomaníaco para se informar nem ser crítico de arte para reconhecer a contribuição de Daniela Mercury e Caetano Veloso à musicalidade nacional e internacional – não meros “famosos”.

Terceiro, a despeito da grave situação socioeconômica que maltrata milhares de trabalhadores brasileiros, o Presidente da República e os seus asseclas, para além de rejeições e a tudo que lhes diz respeito, estão se perdendo, vexatoriamente, numa areia movediça permeada de suspeições e amadorismos com contornos políticos, encenações, tuitadas, asnice, Queiroz e Laranjais. Politicamente, por não se caracterizar como um verdadeiro estadista, o nosso Presidente da República é um naufrago político, perdido nas próprias falas por achar que se governa um país tuitando, sem plano de governo ou de Estado.

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