Lucas Bezerra

Saúde mental no trabalho: Um comentário à NR-1

“Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?” (António Ramos Rosa)


Reprodução/Gemini Google Saúde mental no trabalho: Um comentário à NR-1
Saúde mental no trabalho

Quando criança, brincava de ser alguma coisa, e essa “coisa” sempre estava ligada ao fato de uma identificação pela profissão escolhida no divertimento. Gostava de brincar de ser professor, médico, empresário e tantas outras profissões. Brincar de trabalhar era um máximo à época. Atualmente, e para muitos brasileiros, máximo é conseguir sobreviver num fim de expediente. 

A partir de 26 de maio de 2026, trabalhadores que desenvolverem problemas como ansiedade, estresse ou burnoult relacionados ao ambiente profissional, poderão encontrar na justiça o direito a uma pensão vitalícia. Importante lembrar que o benefício será possível quando ficar comprovado que a condição psicológica causou grave incapacidade para o trabalho. A medida se encontra numa atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora), que exige das empresas uma identificação e o controle de riscos psicossociais. Claro que essa proposta detém de muitas nuances que nos obrigam a um olhar atento e cuidadoso com o assunto. Seria extenso discorrer com detalhes. Pretendo, apenas, comentar uma questão outra. 

Parece que somente agora o mundo está prestando atenção para problemáticas que sempre estiveram presentes. Inclusive, parece que somente agora é que certos deveres e direitos estão ganhando força. Porém, quando observamos que “até hoje, a história das sociedades é a história das lutas de classes”, como observava Marx, nota-se também que a continuidade dessa luta se dá, antes de tudo, pelas novas postulações que marcam as características que definem uma classe antagônica a outra. O que pretendo elucidar é a seguinte reflexão: O desejo humano é o fomento, ao meu ver, primordial da luta de classes, pelo que antes a classe dominante desejava em detrimento da classe operária e vice-versa. Hoje, essa inclinação por querer desejar algo é transformado em novos paradigmas que ainda se antagonizam. Antes, os contrapontos estavam evidenciados por desejos mais objetivos, e diria até palpáveis. A terra, bens de consumo, força de trabalho e assim vai. Isso ainda existe, mas os desejos de agora me parecem mais subjetivos, mais simbólicos, mais intimistas: Qualidade de vida, saúde física e mental, conquistas pessoais, sentimentos de gratidão, detox de redes sociais, uma vida mais saudável e etc. E aqui está mais uma vez a manifestação da luta de classes que ora fica mais explícita, ora mais oculta. Se o capital precisa e se alimenta de crises, o desejo da classe dominante precisa da tensão desejante. Não entendeu minha linha de raciocínio? Explicarei: Para que o super rico continue sendo o super rico, é necessário que ela tenha os instrumentos que possibilitem que o desejo do trabalhador também seja alimentado, mas com migalhas. É importante que o trabalhador queira e festeje leis que procuram melhorar sua qualidade de vida. Pois só assim que a classe dominante consegue alegar que estará conseguindo meios para essa conquista, e que essa mesma classe trabalhadora deve ficar enormemente grata e submissa ao seus desejos. 

No mundo real, é quando o patrão fala: “Veja, eu estou preocupado com sua saúde mental. Vou oferecer serviço especializado nessa área”. Não me surpreende que o trabalhador, desejando o mínimo para sua sobrevivência, fique grato por essa “empatia”, e daquele ambiente laboral e daquele patrão, ele mesmo se ache um eterno devedor. Afinal, o instrumento que o burguês alimenta para impulsionar o desejo e inclinação à submissão do trabalhador é o da comparação: “Tem outros patrões que não aderem as leis. Tem outros empregadores que não ligam para os colaboradores. Tem empresários que não fazem o mínimo”. É neste quesito de comparação que uma nova forma de perpetuação de poder da classe dominante se consagra. O patrão não precisa ser só mais aquele que deveria pagar a justa medida. Basta ele trocar o nome funcionário por colaborador, basta ser mais humano e transformar a relação de trabalho num aparente vínculo fraterno passivo-agressivo que já está ótimo. Ora mais, “não é um patrão. É um pai”.  

Estamos com total razão discutindo e querendo a execução dessa atualização da NR-1. Entretanto, importante sempre observar como isso será utilizado e remodelado para fins de uma classe que deseja o bem do outro, para que o seu bem como retorno seja maior. Por fim, lembro de trechos da música “cidadão”, que particularmente gosto de ouvir na voz do Zé Ramalho: 

'Tá vendo aquele edifício, moço?

Ajudei a levantar

Foi um tempo de aflição

Era quatro condução

Duas pra ir, duas pra voltar

Hoje depois dele pronto

Olho pra cima e fico tonto

Mas me vem um cidadão

E me diz, desconfiado

Tu 'tá aí admirado

Ou 'tá querendo roubar?

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