Lucas Bezerra

Resposta ao Valdeci Cavalcante: Um comentário sobre a escala 6 x 1

“Dai, pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21)


Reprodução Resposta ao Valdeci Cavalcante: Um comentário sobre a escala 6 x 1
Valdeci Cavalcante

Das muitas lembranças que tenho da infância, uma delas é a de ter frequentado muitas missas aos sábados na famosa igrejinha do sagrado coração de Jesus com a família. Depois, trocamos o dia e a igreja, mas querendo sempre estar na casa do senhor. Domingo às 9:00 horas da manhã na catedral de nossa senhora dos remédios, cedo do dia e com uma preguiça que faltava ganhar a disputa contra a disciplina. Venci todas elas com ajuda da minha mãe, que piedosamente aconselhava-me nos agrados à Deus. Não tenho do que reclamar. Particularmente acredito que a fé e a esperança é um verdadeiro combustível para aguentarmos, muitas vezes, os dilemas da nossa existência. O que sempre me causou espanto e horror são as enormes tentativas de alguns de selecionarem na sua conveniência, desde trechos bíblicos até episódios narrados por meio de visões dos santos (para quem é católico), o que bem quer. Uma mistura de má fé com pobreza espiritual e moral. Em nome de Deus se fala o que quer, faz o que quer, julga como acha necessário e até salva o que acha proveitoso. 

Na última terça-feira (14), nas redes sociais, o empresário Valdeci Cavalcante, presidente da Federação do Comércio e Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio) no Piauí, se manifestou contra o fim da escala 6 x 1 de trabalho, através de um vídeo. Como esperado, comentários elogiosos e críticas à sua fala. Entretanto, o que mais me chamou atenção foi a legenda do vídeo. Uma citação bíblica que narra brevemente a criação do mundo, na ótica cristã, e o descanso que Deus tirara, após a consumação do seu trabalho. Nada mais abjeto que coroar sua imoralidade ética com citações ao seu capricho. Assisti o vídeo inteiro. Valdeci com toda sua pompa, expõe a opinião de que a proposta vai aumentar as despesas do setor empresarial com mão de obra, entre outras análises verbalizadas por ele. Sobrou até para os beneficiários do programa “Bolsa família”. Infelizmente não poderei recomendar que assistam o vídeo se tiverem coragem. Valdeci, até onde pesquisei novamente, privou sua rede social (Instagram), e não sei se antes ou depois dessa atitude, ele apagou o vídeo ou não. 

Pois bem, assim como assisti o vídeo do Valdeci- até então eu não sabia de sua existência- eu também li a íntegra da proposta do presidente Lula para reduzir a escala 6 x 1. O documento conta com oito páginas e trata-se de uma PL, Projeto de Lei. A proposta já deixa transparente suas intenções nos primeiros três artigos. Recomendo que leiam, e sejam vocês mesmos capazes de fecundar uma real opinião própria. O mundo carece de pessoas que possam pensar por suas próprias cabeças. Ademais, é sempre importante observar que atravessamentos de propostas como estas causam em nosso processo de sociabilidade e no labor diário. 

Eu poderia aqui mencionar os inúmeros benefícios que essa proposta acarretaria à vida do trabalhador e na classe trabalhadora, enquanto categoria, mas sinto que meu artigo de opinião se transformaria em um artigo científico em termos acadêmicos. Ao contrário, expressarei pela via da escrita apenas alguns dados que meu nobre leitor poderá conferir com mais afinco: Aproximadamente 21 milhões de brasileiros labutam com mais de 44 horas semanais, quantidade excedente ao previsto na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Um estudo da Unicamp indica um precedente histórico que corrobora o argumento quanto ao aumento da produtividade com uma escala de trabalho mais humana. A redução da jornada de 48 para 44 horas na Constituição de 1988 foi acompanhada por um aumento na produtividade média anual de 6,5% entre 1990 e 2000, além de uma expansão do emprego e diminuição da informalidade. Posso também citar uma melhoria na qualidade de vida, quando se fala de saúde física e mental, com base nos dados alarmantes que temos. Em 2025, os afastamentos por ansiedade e depressão cresceram 15% em relação ao ano anterior e, somados, já formam o segundo maior motivo de afastamento do trabalho no Brasil, atrás apenas das doenças da coluna. À época do primeiro recorde, o governo procurava mudanças na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passaria a incluir a saúde mental entre os itens fiscalizados no ambiente de trabalho. Após pressão das empresas, porém, a medida foi adiada. Enfim, muitas questões perpassam por este tema. Contudo, observem bem como opera a lógica opressora que vai desde ideais morais, até questões religiosas para a violação de direitos e anulação total ou parcial do indivíduo de existir no mundo. O capital, utilizado pelos donos dos meios de produção, passa a ideia de que você só pode existir por meio de uma contribuição ao mundo, essa ideia de contribuição passa pelo aspecto do trabalho. Ou seja, você só é algo, se você trabalha. Mas só isso não basta, é necessário que sua prova ao mundo, através do trabalho, seja fornecida com a desculpa do nome “mérito”, e com os instrumentos acertados e articulados pelo viés do capital, o mérito ao passo que é transformado em valor pessoal, torna-se também justificativa para o sacrifício de sua própria existência, enquanto afirmação de “ser-no-mundo”. Ou seja, eu só posso ser algo, só posso ter identidade, só posso me permitir ser visto minimamente com dignidade, até mesmo pelos meus pares, quando eu me oferto por inteiro ao meu ofício, extrapolando limites físicos e mentais. Daqui a pouco, seu valor não é somente pelo resultado que você entrega, ou pela quantidade de tempo de carteira assinada que você tem, ou até mesmo pelos meios informais que você consegue algo, mas pela pressão que você consegue aguentar como um teste para ser merecedor de um suposto pagamento, desde o elogio até seu provento. 

O capital opera por meio de uma dialética, que muitas vezes é alheia ao nosso entendimento. Primeiro, é criada a ideia de que você só pode ser algo, quando não se é ou não se tem outras tantas qualificações negativas socialmente construídas, e mediadas pelo ofício. Trazendo para o bom entendimento: Você não será um “vagabundo”, um “preguiçoso”, um “sem ambição”, um “sem futuro”, se você for constituído pelo que o trabalho te outorgar e instruir, não importando os meios disso. Daí se nota a pressão social pelo diploma e excelente carreira logo no início à sua formatura, daí se nota a pressão por uma ocupação- quaisquer que sejam-, daí você só pode constituir família ou ter uma vida como quer se você tiver algo, e este algo se for um trabalho considerado honesto. Assim, em nome de um trabalho, muitas vezes cansativo e exploratório, para não dizer opressor e nefasto, você aceita- gostando ou não- colocar em ação meios que são ditados pelo próprio capital para se chegar numa rota que sua idealização, também alimentada pelo capital, vai te destinar. Quando empresários e donos dos meios de produção são contra o fim de jornadas de trabalho como a escala 6 x 1, por exemplo, sob a desculpa de que isso prejudicará setores da economia, ele na realidade está operando para que o sistema continue vigente. Por isso, não se assuste quando eles criticarem o fim da escala 6 x 1 com frases de efeito, com o temor do dia de amanhã, com ameaças e mais conspirações. 

Senhor  Valdeci Cavalcante, meu comentário é para sua pessoa. Deus é onipresente, onipotente e onisciente. Deus, além de tudo, é imortal e como se isso não bastante, o “descanso” (shabat), após a criação, não significa cansaço. O próprio nome no sentido original, Shabat, significa cessar, acabar, parar e tantos sinônimos. Mas estamos no materialismo histórico dialético, estamos no mundo real e o homem, senhor Valdeci Cavalcante, morre, se cansa, chora, é penalizado, não é onipresente, onisciente ou onipotente. O homem tem limites e precisa deles para que continue sendo homem. A analogia bíblica utilizada pelo senhor Valdeci, fez-me lembrar de uma crônica atribuída a Luís Veríssimo que diz: “No começo Deus criou o mundo e descansou. Então, Ele criou o homem e descansou. Depois, criou a mulher. Desde então, nem Deus, nem o homem, nem o Mundo, tiveram mais descanso”.

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