Política

O Grande Mudo (leia-se: Exército brasileiro) cala-se

Braço forte, pode ser… Quanto a mão amiga…


Foto: Orlando BritoBraço forte, pode ser… Quanto a mão amiga…
Braço forte, pode ser… Quanto a mão amiga…

Por Ricardo Noblat, jornalista, no Metrópoles 

Convenientemente, o Exército, chamado de O Grande Mudo, perdeu a voz. Digo que perdeu porque todas as vezes que lhe pareceu conveniente, falou, falou alto, causando graves danos à democracia. Sim, pois apesar de se dizer mudo, o Exército fala.

Revisite a história do país e conte o número de vezes que o mudo falou. Cito de memória: falou para pôr fim ao Império e dar início à República. O marechal amigo do Rei o traiu. A Proclamação da República foi um golpe que a população assistiu bestificada.

Falou para levar Getúlio Vargas ao poder em 1930. Vargas governou como ditador até 1945. Acabou deposto pelos militares. Acabou voltando em 1950 nos braços do povo. Matou-se quatro anos depois sob pressão de O Grande Mudo para que renunciasse.

Juscelino Kubitschek, eleito presidente em 1956, enfrentou duas rebeliões militares. Dele, Carlos Lacerda, líder da direita armada e desarmada, disse que não poderia ser candidato; se fosse, que não poderia se eleger; se eleito, não deveria governar.

Foi um Jânio Quadros de porre que renunciou à Presidência com apenas seis meses de mandato. Diante da oposição militar à posse do vice, foi preciso trocar o presidencialismo pelo parlamentarismo. João Goulart foi derrubado três anos depois.

Este país viveu 21 anos sob uma ditadura militar. A democracia foi suprimida a pretexto de defendê-la do comunismo. Torturou-se e matou-se adversários do regime. O Grande Mudo negou que houvesse tortura e matança. Farta documentação prova que houve.

Com o fim da ditadura, o Exército passou a falar em voz baixa. Mas nunca parou de falar. Falou sobre o tamanho do mandato do presidente José Sarney: queria cinco anos e a Constituinte só queria dar quatro; deu cinco, para afastar a ameaça de golpe.

Falou contra a instalação da Comissão da Verdade para apurar os crimes da ditadura. Falou contra a concessão de habeas corpus a Lula que estava preso e poderia ser solto – e por 4 votos contra 3, o Supremo Tribunal Federal negou o habeas corpus.

Falou, fingindo que era mudo, para eleger Bolsonaro presidente. E a favor dele, falou nos últimos quatro anos para respaldá-lo e, se possível, reelegê-lo. Não perdeu a voz sequer quando Bolsonaro foi derrotado, abrigando à sua porta os golpistas do 8 de janeiro.

Se o Exército é devoto da Constituição, se falou quando não deveria, por que não fala agora sobre a participação de diversos dos seus membros na tentativa mais recente de golpe e na roubalheira das joias presenteadas ao Brasil e surrupiadas por Bolsonaro?

Não vale a desculpa de que não fala em casos sob investigação. É mentira. No 1º de maio de 1981, militares plantaram bombas para matar quem assistia a um show de música no Riocentro. Uma bomba explodiu no colo de um dos terroristas, matando-o.

O Grande Mudo montou um falso inquérito para concluir que a culpa era da esquerda. Outro falso inquérito de 1975 concluiu que o jornalista Vladimir Herzog se enforcou numa dependência do Exército, em São Paulo. Mentira. Ele morreu sob tortura.

Por que o Exército, no mais das vezes, só fala para esconder ou mentir? E por que ignora ocasiões em que poderia falar a verdade? A doutrina da mudez política do Exército, uma invenção francesa do início do século passado, nunca prosperou por aqui.

O grito oficial de guerra do Exército brasileiro é: “Braço forte, Mão amiga”. Grande Mudo: cadê a mão amiga da verdade? Foi amputada? Nunca existiu? Seu patrono, Duque de Caxias, sentiria vergonha se fosse vivo.

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