Oscar de Barros

Igreja de Bocaina: inacessível e discriminatória


Igreja de Bocaina: inacessível e discriminatória
Igreja de Bocaina

Por Oscar de Barros, jornalista, editor do pensarpiaui 

Eu nasci em Bocaina-Piauí e fui criado na tradição católica. Estou com 61 anos de idade e fortes lembranças tenho de meu pai e minha mãe praticando sua fé na igreja matriz daquele município

Os velhos se foram, mas nós, seus filhos, continuamos indo professar a fé em Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Bocaina, sobretudo no período da novena, durante o mês de dezembro.

Este ato é tão forte que meu filho, convertido à fé evangélica, vai ao dia 08 de dezembro, dia da padroeira e do meu aniversário.

A igreja da Bocaina é muito antiga. Data do século XVIII. Sua arquitetura traz o traço daquele tempo. Para entrar na igreja, primeiro, você precisa vencer uma pequena escadaria, porém de altos degraus. E esse detalhe, insignificante para quase 100% daquele povo, para mim era e é, um tremendo desafio.

Mais recentemente adaptaram, nas laterais da igreja, rampas de acesso.

No início desta década, foi anunciado que o prédio da igreja estava com sua estrutura comprometida, que seria demolido e uma nova igreja seria levantada no local.

Em 07/12/2022, no final do novenário através de slides foi mostrado como seria a nova igreja.

Curioso e aguardando um projeto que contemplasse a acessibilidade verifiquei que a nova proposta trazia à frente da igreja os degraus de antigamente. Bateu uma imensa tristeza e profunda decepção, mas, imaginei que o diálogo e o apelo ao bom senso, seria o suficiente para se resolver o problema. Afinal, a igreja velha ainda seria demolida, para só então a nova ser erguida.

De Teresina, onde faço moradia, liguei para a arquiteta da obra e para o pároco de Bocaina. Argumentei que vivemos tempos diferentes dos anos 1.700 e que uma igreja acessível era necessário.

Aqui ou acolá recebia notícias do andamento das obras. Em dezembro/2023 fui aos festejos de NSC. As paredes da nova igreja já estavam altas, mas na frente da casa religiosa apenas um monte de barro, indicando que a entrada ainda seria edificada.

Em 22 de junho retornei à Bocaina e constatei que a entrada da igreja fora construída e que existia apenas degraus para que a porta de entrada do templo fosse acessada. A tristeza e a decepção retornaram. O diálogo foi infrutífero. Prevaleceu o mundo “dos normais”. Quem é minoria que se adapte aos modelos impostos por aqueles que são “normais”!

Ainda na Bocaina tive a oportunidade de ver Jones Barros, conterrâneo, ex-prefeito da cidade e um dos leigos responsáveis pela obra da nova igreja. Imaginei comigo: “vou conversar com Jones, ainda dá tempo de resolver as coisas”. Uma nova crença no diálogo. Me dirigi a ele e relatei o ocorrido. Disse que sabia da existência de rampas nas laterais da igreja, quase já lá no fundo do templo, mas que eu, queria entrar pela porta da frente da igreja como todas as outras pessoas, ditas “normais”.

Jones sorriu com desdém e pouco caso e me aconselhou: “tu sobe pela rampa lateral, volta para a frente e entra pela porta principal”. E imaginar que gente que pensa assim tão pequeno já esteve à frente do poder político da cidade, e hoje, tem forte influencia junto à comunidade católica de Bocaina. É triste!

De volta à Teresina mantive contato telefônico com a arquiteta e o padre para externar minha decepção com o ocorrido. A igreja velha foi demolida, os alicerces da nova foram feitos a partir de um marco zero. Custava prever a acessibilidade na frente da igreja?

-Mas, Oscar, há acessibilidade. Há rampas nas laterais.

E eu argumento:

-Já carrego o fardo da deficiência, carregarei agora a discriminação de entrar pela lateral (quase no fundo) do templo porque ao se construir a nova igreja, a partir do zero, não foi possível rampear a entrada  principal. Ela está destinada aos “normais”!

Eu quero e tenho os mesmos direitos dos demais munícipes.

Contrariado pelo descaso com que meu pedido foi acolhido juntos aos responsáveis pela obra da nova igreja, procurei o Ministério Público e relatei o ocorrido.

Talvez o MP dê jeito na situação. Talvez não.

O fato é que aqueles que diariamente se concentram e lembram a Palavra Divina e o lindo papel desempenhado por Maria, não tiveram seus corações tocados a resolver problema de tão simples solução.

Da parte deste escriba pode até faltar fé nos homens. Em Nossa Senhora da Conceição, jamais!

Deixe sua opinião: