Ciro Gomes, à direita, sabota a frente de esquerda

As mágoas de Ciro com o PT remontam às eleições presidenciais de 2018

Foto: Diário do BrasilCiro Gomes
Ciro Gomes

Por Carla Teixeira, Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em História, no Brasil 247 

Desde as eleições de 2018, as esquerdas brasileiras se batem em torno de uma aspirada unidade que não sai. Houve um ensaio nas últimas eleições municipais, que pode indicar algo para 2022, mas o comportamento político de determinadas figuras que se auto intitulam “progressistas” causa espécie às brasileiras e brasileiros que aspiram por um país menos beligerante, mais solidário e gentil. Se entre os programas partidários do PT, PSOL, PCdoB, PDT e PSB há inúmeras convergências, entre alguns quadros destes partidos permanece a divergência, tendo Ciro Gomes (PDT/CE) como o protagonista de toda a celeuma.

As mágoas de Ciro com o PT remontam às eleições presidenciais de 2018. Lula era o favorito da disputa. Foi injustamente preso e perdeu seus direitos políticos, o que pavimentou o caminho para a vitória da extrema-direita. A Ciro foi oferecido o posto de vice de Lula, assumindo a cabeça de chapa em caso do ex-presidente ser impedido de concorrer. Como é sabido, Ciro negou a oferta. Julgou que o PT estava morto, que o lulismo havia se encerrado e caberia a si próprio inaugurar um outro momento político no Brasil. Sua convicção se tornou mais firme quando as pesquisas indicaram que ele seria o único candidato capaz de vencer Bolsonaro num eventual segundo turno eleitoral. Mordido pela mosca azul, Gomes achou que poderia ir ao segundo turno sem passar pelo primeiro. Confundiu estratégia com tática e contribuiu para condenar o Brasil a quatro anos de Bolsonaro.

Ao mencionar a frente de esquerda, convém lembrar que, nas eleições presidenciais de 2018, inúmeros candidatos do PSB e PDT, por ocasião do segundo turno, não apoiaram o PT e mantiveram-se neutros diante da ameaça de termos como presidente do país um sujeito racista, autoritário, apoiador da ditadura e da tortura. O próprio Ciro Gomes abandonou o Brasil e os brasileiros à própria sorte, ausentou-se da disputa no segundo turno e foi a Paris. O lamentável foi ter voltado para tumultuar o processo civilizatório e progressista brasileiro. Em suas falas agressivas e grosseiras, Ciro exibe sua costumeira arrogância e prepotência ao se colocar como aquele que será capaz de resolver os problemas da nação. Em permanente estado jactante, se diz de esquerda enquanto despreza o único partido de esquerda com capilaridade nacional e o seu principal representante, considerado o melhor presidente da história da República. Atualmente, colabora sem escrúpulos com a odienta e asquerosa onda antipetista e anticomunista que afoga os incautos, caminhando, em seu discurso, ao lado da mídia conservadora e da direita neoliberal. “Tudo a mesma sopa”, diria Mino Carta.

A essa altura, fica claro que o papel de Ciro Gomes é desestabilizar a esquerda enquanto se diz comprometido com uma frente político-eleitoral que não se concretiza. Ao mesmo tempo, a velha raposa alinha-se com a direita conservadora para isolar o PT e inviabilizar uma candidatura progressista. Isso se comprovou nos mais recentes ataques de Ciro contra o PT, Flávio Dino (PCdoB/MA) e Guilherme Boulos (PSOL/SP)1. Depois de levar uma invertida2do governador do Maranhão via twitter, Ciro agiu como um garoto que não mediu as consequências do que falou e voltou atrás como de costume, rasgando suspeitos elogios3àquele que atualmente se apresenta como uma alternativa à esquerda para as eleições presidenciais de 2022. No mesmo dia em que atacou o campo progressista, Ciro Gomes foi citado pelo atual presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ), como potencial candidato à Presidência da República, em 2022, numa possível aliança de centro (sem a esquerda). Maia também citou, junto com Ciro, os nomes de João Dória (PSDB/SP) e do apresentador sem nenhuma experiência na gestão pública, Luciano Huck, dois grandes quadros que representam o que há de mais degradado na elite cheirosa de São Paulo. Em permanente contradição, Ciro se alinha com a direita neoliberal4que é pró privatizações, a favor da retirada dos direitos sociais e da menor participação do Estado na vida da população. Tal movimento se dá com o intuito de construir (sic) o seu projeto político (ou será um projeto pessoal?) chamado “nacional-desenvolvimentista”. Eu conto ou vocês contam?

Ciro Gomes é o algoz de si próprio na luta contra si mesmo. É óbvio que está sendo utilizado (também se permitindo usar) pela mídia e as elites conservadoras para isolar o PT e desestabilizar o campo progressista. Será descartado no momento oportuno, como é próprio desse grupo e da grande mídia, manipuladora e mentirosa. Por conta de seu destempero e incapacidade de dialogar sem distribuir ofensas, Ciro figura junto com Enéas Carneiro como os melhores presidentes que o Brasil jamais terá. Quanto ao campo progressista, convém ressaltar que, ao vestir a camiseta “Lula Livre” durante o segundo turno das eleições municipais, Flávio Dino se colocou como candidato de Lula para 2022. Por isso sofreu o invejoso ataque do tacanho Ciro Gomes. Nesse movimento do atual governador do Maranhão reside uma hipotética saída política e eleitoral que deve beber da recente experiência argentina, formando um chapa: Dino Presidente, Lula (ou qualquer quadro do PT) como vice. O Brasil e a Democracia em festa, e o Ciro chorando em Paris.