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Oscar de Barros

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Saga de um Vaqueiro

Segunda-feira desta semana perdi um dos meus sobrinhos. João Manoel de Barros Neto faleceu no Recife onde fazia tratamento contra um cancer de medula. 

Na ocasião não divulguei a notícia. Hoje, na missa de sétimo dia, lerei o texto a seguir. Fala da vivência de um tio e um sobrinho

Foto: DivulgaçãoVaqueiro João Neto
Vaqueiro João Neto

 

JOÃO NETO

O primeiro neto do casal João Manoel e Zefinha é de 1959, o último, do ano 2000. Ao todo o casal teve 28 netos.

Eu os separei em dois blocos. Os que nasceram primeiro, filhos de Marinheira, Antonieta, Gilberto e Maria. Os três filhos mais velhos e a Maria. Estes netos nasceram entre nos anos 50, 60 e meados dos anos 70.

Aí houve um pequeno intervalo.

João Manoel e Zefinha tinham filhos rapazes muito namoradores: Zé, Chico, Raimundo e Eustácio. Namoravam, namoravam e não casavam. Até que em 1981, Zé e Gildete se casam e no final do ano nasce João Neto.

Depois do casamento de Zé e Gildete os outros Manés foram casando um após o outro e os netos de João Manoel e Zefinha foram chegando.

João Neto é o primeiro deste segundo bloco de netos a que fiz referencia. Na minha cabeça é a geração mais nova de netos de João Manoel e Zefinha.

Quando João Neto nasceu eu era muito jovem, tinha 19 anos.

Acompanhei seu crescimento em Picos, na Malhada e aqui em Teresina.

Hoje estamos aqui chorando a partida de João Neto, antes choramos a ida da Vera.

João Manoel e Zefinha deixaram um incrível legado: todos os 28 netos estão devidamente escolarizados, graduados, alguns com mestrado e doutorado.

João Neto era um incrível Administrador. Onde ele punha os olhos e suas ações de trabalho, o negócio progredia, ia para a frente. Lembro-me do entusiasmo e determinação com que ele relatava a perda de um feriado na Malhada para conquistar uma venda de quentinhas para uma empresa da construção civil e como aquele tinha sido um negócio importante para a família.

Ali por volta de 2007, estava eu na Fundação CEPRO, quando recebo a visita de João Neto. Numa timidez que lhe era peculiar vinha me comunicar que estava entrando para a política e que seria candidato a vereador em Bocaina-PI. Já tinha feito o informe aos demais tios e queria saber minha opinião.

Disse-lhe algo mais ou menos assim: “quem era eu para dizer para alguém não se envolver em política?”. Só faria um alerta: “a política lhe traria alegrias mas apresentaria também muitas pedras pelo caminho. Que as alegrias não o deixasse envaidecido e que as pedras não o fizesse esmorecer”.

Assim sendo, João Neto foi candidato. Durante a campanha elaborei seu jornalzinho, e, posteriormente estava lá assistindo aquele Mané ser empossado no poder legislativo da nossa cidade de Bocaina. Claro, durante a candidatura e antes da posse não faltaram as brincadeiras pedindo para que o tímido João Neto discursasse. E lembrávamos de discurso seu numa entrega de bolo de aniversário: “pai é pai e mãe é mãe”.

João Neto tinha um incrível senso de comunidade. Ele tinha profundo desejo de ver sua localidade (Malhada) e sua cidade (Bocaina) progredirem. Não era daquelas pessoas que cuidavam apenas do seu próprio sucesso pessoal.

A política também nos colocou em lados opostos. Ele, defendendo valores da direita; eu, valores da esquerda. Tivemos calorosas e nervosas discussões. Eu sempre encarei João Neto como um interlocutor que precisava ser respeitado na discussão porque ele sabia debater. E o respeitava muito porque ele nunca fugiu do bom debate. Era duro no que falava. Mas falava com muita sinceridade. Na oportunidade da nossa última discussão falei para ele quanto o respeitava no debate mesmo sem concordar com os pontos de vista dele, devido à sua impressionante determinação.

Foi-se embora um cara que fazia muito bem à esquerda porque estava sempre a questioná-la. Saudades dos nossos debates, João Neto.

Em 2010, mamãe morreu. Naquela ocasião, João Neto já meio que comandava as coisas na Malhada. Após o enterro da mamãe filhos e netos reunidos no saguão que da acesso à cozinha e à sala da casa se perguntavam o que seria da Malhada. E havia como que um pedido no ar: “que a Malhada não fosse esquecida, abandonada”. A forte voz de João Neto surgiu para que todos ali soubessem: a Malhada não tombaria. Ele iria tomar de conta e queria o auxílio de todos e a participação de todos nos eventos que envolvessem aquela localidade.

Os anos se passaram e os corações daqueles que tinham medo do fim da Malhada se acalmaram. Joao Neto honrara com a palavra. O menino nascido em Picos e posto adulto em Teresina, formado em Administração e comerciante na capital, de fato, nunca esqueceu nem deixou a Malhada de lado. A Malhada já mostrava até uma face mais moderna com novos currais, poço com agua abundante, plantações de capim, internet e muitos projetos para o futuro.

Pai e mãe sentem a dor de perder um filho.

As irmãs, um irmão.

A esposa, o marido.

Manuzinha sentirá sua ausência.

Tios, primos, amigos também sentem a dor da grande perda.

E os corações daqueles que tinham medo do fim da Malhada voltam à tribulação.

O que será daquele local??????

Para finalizar digo que o João era neto.

Neto da Joana que sente a mesma dor já falada aqui.

Neto da Zefinha a quem ele amou e respeitou sustentando aquela que era a casa dela

Neto de João Manoel a quem ele disse que não tivera a oportunidade de conhecer. Não sei das coisas do além, mas torço para que estes dois Manés estejam juntos agora.

E João era neto de Chico Vaqueiro.

O historiador Manoel Domingos escreveu um livro que fala como nós piauienses temos todos um traço da vaqueirama em nossas veias.

João, neto de Chico Vaqueiro, mas que todos nós, carregou no cotidiano de sua vida, os traços de ser vaqueiro.

Valeu boi!

Fica com Deus, João Vaqueiro!