Semana trágica para a esquerda brasileira
Assis Carvalho, Carmita Worms e Alfredo Sirkis morrem na mesma semana
O campo do progressismo está de luto, além do deputado federal do Piauí, Assis Carvalho (falecido em 05 de julho) esta semana foi marcada pela morte de 2 grandes noms da esquerda brasileira.
Na terça-feira, 7, morreu a capixaba Maria do Carmo Salles Barbosa Worms
E ontem, morreu Alfredo Sirkis que participou da resistencia armada à ditadura brasileira, foi um líder ambientalista e um dos fundadores do PV - Partido Verde.
O pensarpiaui traz dois artigos que falam de Maria do Carmo e Alfredo Sirkis. Acompanhe:
Morre Carmita Worms, pioneira do feminismo no Brasil, professora cassada na ditadura
Por Luciana Worms, no DCM
Maria do Carmo Salles Barbosa Worms foi uma mulher encantadora que nos deixou dia 7 de julho último.
Nascida em Espírito Santo do Pinhal, interior de SP, em 01 de Fevereiro de 1925, mudou-se após 17 anos para a capital para cursar, como bolsista, Serviço Social na PUC. Isso, por sí só, já seria um grande feito para uma mulher da primeira metade do século XX, tempos em que a mulher estava submetida, taxativamente, ao poder do pai e do marido.
Por sorte contava com o apoio da família nessa empreitada educacional. Em São Paulo montou uma república de jovens pinhalenses, dentre eles o seu único irmão Alcino e o amigo Rogério Lauria Tucci, também estudante da PUC.
Logo que deu início à vida universitária, Carmita, como era carinhosamente chamada, começou a participar do movimento estudantil.
Foi assim que conheceu, nos encontros da Rua Maria Antônia, o companheiro de uma vida inteira, Paulo Alves de Lima, estudante de Física da USP, militante do PCB (na época Partido Comunista do Brasil), de quem adotou o sobrenome e com quem teve 6 filhos: Paulo, Maria, João Carlos, Maria Teresa, Ricardo e Rogério.
Um dos seus primeiros trabalhos no Serviço Social foi em um Centro Para Refugiados do Holocausto, uma das entidades assistenciais judaicas de São Paulo.
Professora do Estado de SP, já com alguns dos filhos crescidos, aos 40 anos, prestou vestibular para Ciências Sociais. Na época em que se podia ter dois números USP ela fez dois cursos simultâneos na Universidade: Ciências Sociais na FFLCH e Arte Dramática, na Escola de Comunicação e Arte.
No início dos anos 60 a família morava em Atibaia. Nessa ocasião ela militou no Partido Socialista e foi sua presidente na seccional de Bragança Paulista.
Em 1963, ela e Paulo tornaram-se professores da Universidade de Brasília após convocação pessoal de Darcy Ribeiro a Paulo para que ajudasse a montar o quadro docente da UNB. Lá ficaram até começar a caça aos comunistas.
Carmita e Paulo tiveram participação intensa na vida dos comunistas brasileiros e na resistência à ditadura. Muitos militantes de esquerda encontraram na casa deles a guarida necessária para criarem disfarces (pintar cabelos, tirar ou colocar barbas e bigodes…) e despistar a repressão.
Como já era de se esperar, a casa ficou visada, Paulo foi preso e, posteriormente, precisou fugir para o Uruguai, no mesmo grupo em que estavam Leonel Brizola e Darcy Ribeiro. Carmita participa da fuga mas consegue retornar ao país para cuidar dos filhos, muitos ainda pequenos.
Carmita também foi presidente do Centro da Mulher Brasileira, um dos grupos embrionários do movimento feminista do Brasil.
Após a anistia, o casal retornou à Universidade de Brasília. Paulo para o Departamento de Física e Carmita para o Departamento de História.
Agora que se escancara a necessidade do Estado como garantidor da vida e da dignidade dos seus cidadãos, é bom lembrar que Maria do Carmo teve como última bandeira, o trabalho e o empenho, na luta pelo marco legal na construção do SUS no que diz respeito à saúde mental e luta antimanicomial.
Nos tristes momentos em que vivemos, quando o indefensável se apresenta como algo normal, rendamos a nossa homenagem a quem jamais teve motivo para se envergonhar de suas escolhas políticas.
Tia Carmita se vai com a certeza de sempre ter estado do lado certo da história.
A mim cabe a lembrança e o enorme agradecimento por ser, na minha memória afetiva, a primeira feminista que conheci.
Morre o ex-guerrilheiro e ex-deputado federal Alfredo Sirkis
Fonte: Jornal Opção
O ex-guerrilheiro e ex-deputado federal Alfredo Sirkis morreu na sexta-feira, 10, num acidente de automóvel, nas proximidades do Arco Metropolano, em Nova Iguaçu (RJ). Ele tinha 69 anos e faria 70 anos em 8 de dezembro.
Alfredo Sirkis iria visitar a mãe (de 96 anos) e um filho, no sítio de família, em Vassouras.
O deputado estadual Carlos Minc, do PSB, disse: “Não quero acreditar nisso. Há três dias estávamos conversando sobre o novo livro dele que ia chegar por esses dias”.
Ao lado de Carlos Minc, Fernando Gabeira e Lizst Vieira, Sirkis participou de várias lutas ambientalistas no Brasil e foi um dos fundadores do Partido Verde.
Trajetória: de guerrilheiro a ambientalista
Alfredo Hélio Sirkis nasceu no Rio de Janeiro, em 8 de dezembro de 1950. Ultimamente, era o diretor-executivo do think tank Centro Brasil no Clima (CBC). Foi deputado federal e vereador por quatro mandatos.
No livro “Os Carbonários” relata sua participação na guerrilha urbana no Brasil, entre as décadas de 1960 e 1970. Como membro da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), sob a liderança de Carlos Lamarca, atuou ativamente na guerrilha. Participou do sequestro do embaixador da Alemanha Ocidental no Brasil, Ehrenfried von Holleben, em junho de 1970, em plena Copa do Mundo de Futebol, realizada no México. O sequestro possibilitou a libertação de 40 presos políticos — como Carlos Minc e Fernando Gabeira.
Embora não tenha participado diretamente do sequestro do embaixador Giovanni Enrico Bucher, da Suíça, Alfredo Sirkis foi um dos responsáveis por vigiá-lo. O sequestro levou à liberação de 70 presos políticos.
Em 1971, com a guerrilha em frangalhos, sob ataque cerrado dos militares, Alfredo Sirkis deixa a VPR e exila-se no Chile, onde se torna correspondente do jornal francês “Libération”. Com a queda do presidente Salvador Allende, escapou para o Argentina. Em 1975, já em Portugal, se torna redator-chefe da edição lusa da revista “Cadernos do Terceiro Mundo”, editor internacional do jornal “Página Um” e colaborador do “Le Monde Diplomatique”.
Com a Anistia, Sirkis volta ao Brasil, em 1979. Em 1980, lançou o livro “Os Carbonários”, best-seller instantâneo. Ele trabalhou nas revistas “Veja” e “IstoÉ’.
Participou da fundação do Partido Verde, em 1986, e chegou a ser seu presidente nacional.
Em 1988, Sirkis foi eleito vereador. A aprovação da Lei de Incentivos Fiscais para projetos eco-culturais, em 1992, teve seu dedo de amplo conhecedor das questões ambientais.
Sirkis foi secretário do Meio Ambiente na gestão do prefeito César Maia, em 1993, no Rio de Janeiro. Foi secretário-executivo da Fundação Ondazul.
Para divulgar as ideias do PV, Sirkis disputou a Presidência da República, em 1998, quando Fernando Henrique Cardoso foi reeleito.
Em 2000, disputou a Prefeitura do Rio de Janeiro. Sirkis coordenou a campanha presidencial de Marina Silva, em 2010, e foi eleito deputado federal.
Em 2014, ao rejeitar a coligação do PSB, então seu partido, com o PT, Sirkis optou por não disputar a reeleição.
Sirkis também se afastou da Rede Sustentabilidade, dedicando-se ao terceiro setor. Ele escreveu vários livros, como “A Guerra na Argentina”, “Roleta Chilena”, “Corredor Polonês” (romance sobre sua família polonesa), “Silicone XXI” (ficção científica) e “Megalópoles”.
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