Sem aterro e sem renda: catadores de Teresina cobram soluções urgentes da Prefeitura
Em audiência pública na Câmara, catadores relataram dificuldades e pediram políticas de renda e reciclagem após o fechamento do aterro de Teresina.
A Associação dos Catadores de Lixo do Aterro Sanitário de Teresina voltou a cobrar da Prefeitura Municipal medidas concretas para garantir condições de trabalho e renda às famílias que dependiam da reciclagem. A cobrança foi feita durante uma audiência pública realizada na manhã desta quinta-feira (9), na Câmara Municipal de Teresina, a pedido do vereador João Pereira (PT).
O encontro reuniu catadores, representantes de órgãos públicos, entidades ambientais e especialistas, e teve como foco principal a situação de vulnerabilidade enfrentada por cerca de 350 famílias que trabalhavam no aterro e ficaram sem fonte de sustento após o fechamento do local.
Vereador João Pereira defende alternativas para geração de renda
O vereador João Pereira, responsável por solicitar a audiência pública, afirmou que a Prefeitura precisa agir rapidamente para garantir renda e dignidade às famílias afetadas.
“Temos cerca de 400 famílias que viviam do material reciclável. O Bolsa Família não é suficiente para sustentá-las. O mundo inteiro discute o reaproveitamento do lixo e há recursos para isso. Precisamos de políticas que unam meio ambiente e geração de renda”, defendeu.
Pereira informou ainda que levará o tema ao governo federal:
“Amanhã, teremos um representante da Secretaria da Presidência da República em Teresina, e vou tratar desse assunto diretamente. Não adianta apenas fechar o lixão e mandar as pessoas embora. É preciso garantir meios de sobrevivência. Esses homens e mulheres ajudam a cuidar do meio ambiente, não podem ser esquecidos.”
“Hoje, as famílias estão passando sérias dificuldades”, relata representante dos catadores
Em tom emocionado, João Rodrigues, diretor de finanças da Associação dos Catadores do Aterro Sanitário de Teresina, relatou as condições precárias enfrentadas pelas famílias desde o fechamento do aterro.
“Queremos ouvir o que vai ser feito pelas famílias que, no momento, estão sem condições de se manter. São cerca de 350 famílias que viviam disso, da coleta seletiva e domiciliar. Hoje, estão passando sérias dificuldades”, disse.
Segundo Rodrigues, a categoria já teve uma reunião com o prefeito de Teresina, Silvio Mendes, que prometeu incluir parte dos catadores em vagas de emprego na iniciativa privada. A associação fez dois cadastros: um com pessoas interessadas em vagas formais e outro com quem deseja continuar trabalhando com reciclagem.
“O problema é que, no momento, a associação não tem estrutura para funcionar. Lá está sem banheiro, sem bebedouro, sem nada. Está muito difícil”, lamentou.
“O aterro já deveria ter sido desativado há 10 anos”, diz advogado dos catadores
O advogado dos catadores, Davi Leite, lembrou que o Aterro Sanitário de Teresina já deveria ter sido desativado há mais de uma década, mas que o processo só avançou recentemente, após a morte de uma criança no lixão da zona Sul.
“Todos os aterros deveriam ser desativados, e o nosso já era pra ter sido desativado há 10 anos. Só depois da morte de uma criança é que houve essa celeridade. Hoje o aterro é administrado por uma empresa em Altos e Nazária, mas o problema social continua. É preciso garantir o sustento das pessoas que viviam do trabalho no aterro”, afirmou Davi Leite.
O advogado destacou ainda a proposta apresentada foi a criação de cursos de capacitação para recolocação dos catadores no mercado de trabalho e de formação de uma nova associação, em parceria com o poder público e redes privadas de supermercados.
A ideia é que supermercados e grandes estabelecimentos destinem seus resíduos recicláveis à associação, possibilitando que os catadores continuem exercendo a atividade de forma regularizada e com melhores condições de trabalho.
ONG e professor da UFPI defendem economia circular e coleta seletiva estruturada
O professor aposentado da Universidade Federal do Piauí e integrante da ONG Instituto Presente, Antônio José Medeiros, participou da audiência e explicou que o fechamento do aterro precisa vir acompanhado de políticas de economia circular e inclusão social.
“Um dos nossos programas é justamente o apoio a associações e cooperativas que trabalham com reciclagem. Com o fechamento do lixão, parte dos catadores deve ser convidada a integrar associações de processadores. Mas para isso funcionar, é preciso haver coleta seletiva”, explicou.
Segundo o professor, Teresina enfrenta grandes deficiências na coleta seletiva: menos de 1% do lixo produzido na cidade é reciclado atualmente. A capital possui apenas 21 pontos de entrega voluntária, quando o ideal seria ter pelo menos 100.
“Teresina precisa implantar a coleta seletiva nos condomínios, são cerca de 400, e capacitar o pessoal da limpeza para fazer a separação correta. É necessário motivar os moradores a participarem do processo”, pontuou Medeiros.
Ele também defendeu a implantação da coleta domiciliar seletiva, modelo já adotado em cidades como Curitiba e Brasília, onde há dias alternados para recolhimento de lixo seco e orgânico.
“Sem coleta seletiva, não há como os catadores trabalharem. Hoje, o lixo orgânico vai para o aterro sanitário, mas o lixo seco, papel, plástico, vidro, pode ser reaproveitado. Se houver estrutura, os catadores deixam de vender para intermediários e passam a negociar diretamente com as indústrias, com mais lucro e autonomia”, completou.
Contexto e próximos passos
O fechamento do Aterro Sanitário de Teresina ocorre dentro do processo de adequação às políticas nacionais de resíduos sólidos, que exigem o encerramento de lixões e a implantação de aterros controlados e programas de reciclagem.
Os catadores defenderam que o município crie um plano emergencial para assistência às famílias, acelere os cursos de capacitação e implante a coleta seletiva estruturada, permitindo que os catadores continuem trabalhando de forma segura e formalizada.
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