Jovens, virais e agressivos: como a extrema direita cria uma nova geração de políticos no Brasil
Fenômeno impulsionado por figuras como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato revela o crescimento de lideranças formadas na lógica da viralização e da guerra cultural digital
As redes sociais deixaram de ser apenas espaço de entretenimento e passaram a funcionar como uma verdadeira fábrica de lideranças políticas no Brasil. Hoje, em praticamente toda cidade média ou grande do país, já existe ao menos um vereador moldado no perfil de Lucas Pavanato: jovens que cresceram politicamente dentro da lógica dos algoritmos, apostando na polêmica permanente, no confronto como método e na viralização como estratégia eleitoral.
Em São Paulo, onde já é uma figura amplamente conhecida no ambiente político e digital, Lucas Pavanato construiu sua trajetória justamente explorando esse modelo de atuação. Antes de chegar à Câmara Municipal, ganhou projeção nas redes sociais produzindo vídeos de confronto ideológico, ataques a professores, militantes de esquerda e movimentos sociais. Sua linguagem direta, agressiva e voltada para cortes virais ajudou a consolidar uma audiência fiel entre jovens conservadores. Ao longo dos últimos anos, Pavanato passou a transformar episódios de embate político em conteúdo digital de alta circulação, convertendo engajamento em capital eleitoral.
Na Câmara de Vereadores de São Paulo, sua atuação tem sido marcada por declarações polêmicas e embates públicos constantes. Recentemente, ganhou repercussão nacional ao defender medidas que reduzem reajustes salariais de professores e ao utilizar falas consideradas ofensivas contra servidores da educação. Para críticos, sua estratégia política depende justamente da criação permanente de conflitos capazes de alimentar a dinâmica das redes sociais. Quanto maior a polêmica, maior o alcance digital.
Trata-se de uma nova geração de políticos formada muito mais pela dinâmica das plataformas digitais do que pela experiência em movimentos sociais, universidades, sindicatos ou organizações populares. Em comum, muitos deles compartilham um discurso agressivo, pouca disposição ao diálogo, ausência de empatia social e um estilo político baseado na humilhação pública de adversários, professores, jornalistas, artistas ou movimentos sociais.
O caso mais bem-sucedido dessa estratégia é o do deputado federal Nikolas Ferreira, que transformou sua presença digital em capital político nacional. Com milhões de seguidores e forte capacidade de mobilização nas redes, Nikolas se tornou referência para dezenas de jovens políticos conservadores espalhados pelo país, muitos deles tentando reproduzir o mesmo modelo de comunicação baseado em cortes virais, ataques ideológicos e forte engajamento emocional.
No Piauí, esse movimento também começa a apresentar seus próprios personagens. Um dos exemplos frequentemente citados nos bastidores políticos é o de Trabulo Neto, apontado por analistas e observadores locais como um ensaio desse novo perfil de liderança digital de direita, inspirado na fórmula que impulsionou nomes como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato.
O crescimento desse tipo de projeto político revela uma mudança profunda na forma como parte da juventude brasileira se relaciona com a política. Em vez de debates programáticos ou propostas estruturais para os problemas sociais, ganha espaço uma lógica de confronto permanente, produção de escândalos e disputa por atenção nas redes.
Para setores progressistas e movimentos sociais, o desafio não será curto nem simples. O enfrentamento desse modelo político exigirá organização, formação política, capacidade de comunicação digital e presença constante nos espaços onde essa disputa acontece: os algoritmos, os vídeos curtos e as redes sociais.
A batalha política do presente — e principalmente do futuro — também será travada nas telas dos celulares.
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