E se Vorcaro patrocinou o instituto de André Mendonça?
O que se sabe sobre os negócios do ministro é igualmente relevante para o debate público
Por Luis Nassif, jornalista, no GGN
Parte 1 — A estratégia de aproximação de Daniel Vorcaro
As investigações em torno do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do liquidado Banco Master, revelaram um padrão sistemático de aproximação com integrantes do Supremo Tribunal Federal. As evidências já reunidas pela Polícia Federal apontam para uma rede de relações cultivadas com ao menos quatro ministros da Corte .
Alexandre de Moraes. Documentos apurados pela PF indicam que Vorcaro contratou o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, por R$ 3,6 milhões mensais, com duração de 36 meses.
Dias Toffoli. Toffoli é questionado sobre a venda de um resort de luxo que pertenceu à sua família para um fundo ligado a parentes do dono do Banco Master.
Kassio Nunes Marques. Segundo apurações jornalísticas, Vorcaro repassou R$ 18 milhões a uma consultoria que, por sua vez, pagou R$ 281,6 mil ao escritório de Kevin Marques, filho do ministro.
Ricardo Lewandowski. Vorcaro assinou contrato com o escritório de advocacia do ex-ministro do STF.
Especialistas alertam que a presença da alta cúpula do Judiciário em eventos custeados por agentes privados compromete a percepção de imparcialidade da Corte. Um exemplo citado é uma degustação de uísque raro em Londres, financiada por Vorcaro, que custou R$ 3 milhões e contou com a presença de autoridades brasileiras.
Parte 2 — O Ministro Relator e o Instituto Iter
Neste contexto, é indispensável examinar a figura do ministro André Mendonça — que, por sorteio após o afastamento de Toffoli, tornou-se o relator do caso Banco Master no STF. Mendonça não apenas controla a investigação: também votou, junto ao ministro Fux, pela manutenção da prisão preventiva de Vorcaro, em julgamento iniciado em 13 de março de 2026.
O que se sabe sobre os negócios do ministro é igualmente relevante para o debate público.
O Instituto Iter foi criado como sociedade limitada em novembro de 2023, quando Mendonça já integrava o STF. Em 2024, converteu-se em sociedade anônima de capital fechado. A empresa Integre, pertencente ao casal André e Janey Mendonça, aparece como acionista majoritária nos registros públicos. Completam o quadro societário: Danilo Dupas, ex-presidente do Inep; Rodrigo Hauer, chefe de gabinete de Mendonça no STF; Tercio Tokano, ex-secretário-executivo do Ministério da Justiça; e Victor Godoy, ex-ministro da Educação, atual CEO do instituto.
Em termos financeiros, o crescimento foi veloz. O instituto alcançou faturamento de aproximadamente R$ 4,8 milhões em contratos públicos firmados entre maio de 2024 e outubro de 2025, somando cerca de 50 contratos com entes federais, estaduais e municipais. Entre os contratantes estão governos estaduais como São Paulo, Bahia e Piauí, prefeituras como São Paulo e Recife, assembleias e tribunais de contas de vários estados. O maior contrato, de R$ 1,2 milhão, foi assinado com o Consórcio Intermunicipal da Região Oeste Metropolitana de São Paulo.
Em dezembro de 2025, o MEC homologou autorização para que o Iter oferecesse cursos de pós-graduação. Entre os resultados considerados relevantes pelo Conselho Nacional de Educação estão o investimento em sede própria, convênio com a Universidade de Salamanca — onde Mendonça estudou — e dezenas de parcerias com instituições públicas e privadas.
O nó com a Fiesp. O ministro figura como relator em processos nos quais a Fiesp participa ativamente como amicus curiae. Dentre as ações sob sua relatoria com participação da federação, duas tramitam em caráter de repercussão geral. O caso mais emblemático discute a incidência de contribuição previdenciária patronal sobre descontos do vale-transporte e vale-refeição. Ao mesmo tempo, a Fiesp é cliente do Iter: na primeira rodada de cursos, a Fiesp inscreveu 95 pessoas, gerando R$ 142,5 mil ao instituto.
Diante da repercussão, em fevereiro de 2026, Mendonça afirmou, durante culto na Igreja Presbiteriana de Pinheiros, que os lucros e dividendos do Iter seriam destinados ao dízimo e a obras sociais.
Em dezembro de 2025, o MEC homologou autorização para que o Iter oferecesse cursos de pós-graduação. Entre os resultados considerados relevantes pelo Conselho Nacional de Educação estão o investimento em sede própria, convênio com a Universidade de Salamanca — onde Mendonça estudou — e dezenas de parcerias com instituições públicas e privadas.
O nó com a Fiesp. O ministro figura como relator em processos nos quais a Fiesp participa ativamente como amicus curiae. Dentre as ações sob sua relatoria com participação da federação, duas tramitam em caráter de repercussão geral. O caso mais emblemático discute a incidência de contribuição previdenciária patronal sobre descontos do vale-transporte e vale-refeição. Ao mesmo tempo, a Fiesp é cliente do Iter: na primeira rodada de cursos, a Fiesp inscreveu 95 pessoas, gerando R$ 142,5 mil ao instituto.
Diante da repercussão, em fevereiro de 2026, Mendonça afirmou, durante culto na Igreja Presbiteriana de Pinheiros, que os lucros e dividendos do Iter seriam destinados ao dízimo e a obras sociais. A declaração não respondeu, contudo, às questões jurídicas sobre o conflito de interesses.
Parte 3 — A delação que não virá (ou virá?)
Com Mendonça como relator, o cenário para a investigação se torna complexo por razões estruturais.
O padrão documentado é claro: Vorcaro cultivou relações financeiras com membros do STF como parte de uma estratégia de proteção. O Instituto Iter representa uma janela de acesso ao relator do seu próprio caso. A pergunta sobre se houve ou não aproximação direta entre os dois permanece sem resposta demonstrável — mas o quadro institucional que deveria investigá-la está inteiramente nas mãos dos mesmos atores sobre os quais pairam as suspeitas.
Como ter a garantia de que Mendonça não se envolveu com Vorcaro, com o controle rígido que ele, e seus aliados da Polícia Federal, têm sobre o inquérito?
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