Ser petista, comunista, professor, zebra e ministro

Professores respondem ao Ministro da Educação

Foto: Google ImagensZebra
Zebra

Por Lui Felipe Miguel, no facebook 

Tem circulado bastante um texto em resposta ao bufão da Educação, intitulado "Como me tornei uma zebra gorda?" É um texto bem escrito, bem humorado. Gostei bastante. Mas tem uma frase que me incomodou: "Ter um pensamento de esquerda não me torna comunista nem petista".

É claro que a frase é verdadeira. Mas, no contexto, pode passar a ideia - que me parece não ser a do autor - que se a perseguição estivesse limitada a comunistas e petistas, teríamos pouco a reclamar. Isso evidentemente não é verdade. Nós, docentes, temos direito a nossas visões políticas. Há muitos educadores e pesquisadores que são comunistas ou petistas, sem que isso diminua em nada a qualidade e a honestidade do seu trabalho.

Eu mesmo não sou petista. Mas, há algum tempo, tenho perguntado a mim mesmo: eu sou comunista?

Vindo de uma família de comunistas, tornei-me comunista bem jovem. Porém, ainda jovem, embora permanecendo ligado não só aos ideais, mas também à leitura da realidade que orientara o movimento comunista, concluí que o rótulo tornara-se pesado demais, devido à associação com os regimes autoritários, burocratizados e hipócritas do Leste europeu.

(A bem da verdade, me desencantei também da fantasia de uma sociedade perfeitamente reconciliada consigo mesma, que é o horizonte final do comunismo.)

De uns tempos para cá, motivado sobre pelo ódio que a direita dedica à palavra e à ideia, tenho refletido se não é momento de voltar a reivindicá-las.

Não é um debate original. Lucio Magri faz essa discussão no belo O alfaiate de Ulm, sua história do PCI. Alain Badiou dedica a ela páginas de seu questionável A hipótese comunista. Mas é uma questão que tem reaparecido não só na minha cabeça: encontro-a em perguntas do público em palestras, em conversas com amigos.

Por um lado, "comunismo" sintetiza a recusa mais radical à ordem à qual estamos submetidos. Assumir o rótulo marca também uma disposição de afrontar a estigmatização, de não ceder nenhum centímetro, de não nos renderemos a tentação de nos tornarmos mais palatáveis para nossos inimigos.

Por outro lado, o peso negativo da palavra não apenas existe como tem sido atualizado. Há um movimento de glamurização do stalinismo, que nega ou releva seus crimes inomináveis. A recente comemoração do aniversário da Revolução Chinesa serviu para que muitos bloqueassem qualquer crítica ao país (que conta com um regime opressivo e uma economia capitalista) porque o partido dirigente ostenta a palavrinha mágica. Vejo jovens que, em seu afã de se mostrarem mais comunistas do que todos, se estendem em elogios à ditadura dinástica da Coreia do Norte - ou produzem longos textos cuja maior ambição é parecerem ter sido escritos por um apparatchik dos anos 1950.

Será que vale a pena carregar toda essa carga?

Como respondi em Florianópolis, um dia desses, quando essa questão me foi formulada: não consigo dizer se devemos ou não recuperar o rótulo. O fundamental não está no rótulo em si: o fundamental é manter uma plataforma e um discurso que sejam intransigentemente anticapitalistas

Foto: Google ImagensZebra gorda e comunista
Zebra gorda e comunista

Como me tornei uma zebra gorda?

Por Márcio Markendorf, professor universitário

Como me tornei uma zebra gorda? Bem, não é uma trajetória muito fácil.

Ser um professor universitário do tipo zebra gorda leva algum tempo.

Em média, um animal desta fauna estuda cerca de 4 anos em um curso de graduação, mais 6 anos em cursos de pós-graduação.

Nesse meio tempo, as zebras, para engordarem, pastam pelos campos de luta da subsistência da pesquisa. Elas escrevem artigos, elaboram resenhas, apresentam comunicações, dão palestras, ministram minicursos/oficinas. Muitas vezes de graça, a convite de outros amigos, também zebras, ainda magras, em busca de melhorar o currículo e as listras.

E depois, para alcançar o status de gorda, primeiro a zebra precisa ser aprovada em um concurso, o que não é muito fácil. Pode levar 4 a 5 concursos para isso acontecer. E, ora, verdade seja dita, não tem concurso todo ano, não é o tipo de concurso de beleza. E dentre as escolhas possíveis, a zebra às vezes precisa ir tentar a vida lá no interior (onde só os médicos cubanos foram).

E, depois que a zebra entra em uma universidade pública, tem avaliação contínua de rendimento. Uma zebra gorda, só é gorda, porque precisa assumir “40 horas” de dedicação exclusiva à pesquisa, ao ensino, à extensão, à administração. E vamos colocar entre muitas aspas 40 horas porque toda zebra sabe que isso é conversa para boi dormir: toda zebra, para dar conta de tudo que lhe dão, trabalha muito mais do que 40 horas, sacrificando muitas das vezes seus momentos de lazer, finais de semana, feriados, férias, família. Afinal, a zebra precisa produzir, produzir, produzir… só assim pode, porventura, ganhar uma promoção ou progressão…e ficar “gorda” (o que é um termo bem contraditório para tudo o que uma zebra faz na vida e o que ela sacrifica para ser zebra).

Talvez muitos não saibam, mas para uma zebra apresentar um trabalho em um evento de referência, tipo ABRAZEBRA, é preciso desembolsar um valor relativamente alto. Contando com anuidade, taxa de inscrição, transporte, hospedagem e alimentação….dá um valor bastante expressivo.

Ah, sim, as universidades até podem dar um auxílio financeiro. Uma vez por ano. E veja bem: auxílio (não dos numerosos, vultosos e extravagantes auxílios de políticos, esses sim bem gordos, muito desproporcionais em relação às zebras, razão para que eu afirme que as zebras, perto dos políticos, são tão mirradas que dá até uma dó profunda).

Vamos lembrar que as agências de fomento que avaliam a gordura das zebras exigem padrões muito altos, o que leva até a estafa mental dos animaizinhos.

E por falar em dó e saúde, não exatamente nesta ordem, é digno de nota o sentimento com o qual as zebras são agraciadas na sociedade.

Dia desses estava no médico veterinário e fui questionado se, por eu ser uma zebra, eu gostava de sofrer. Vejam só: a condição de zebra é vista sob a ótica do sofrimento existencial, algo que serve de gracejo até para os médicos (cujas profissões se devem… às zebras).

Obviamente que não é somente assim que os outros vêem as zebras. Muitas vezes é com hostilidade, como se esses pobres equídeos fossem inimigos terríveis, doutrinadores e comunistas.

Bem, não quero puxar o pasto para meu lado, mas ter um pensamento de esquerda não me torna comunista nem petista (esse é o julgamento de outros equídeos, como os jumentos, animais que, infelizmente, até chegam a presidir um país). Pelo contrário, me torna mais zebrino (ou humano, como queiram).

E, falando nisso, nem todas as zebras são iguais, mas procuramos manter o respeito e a dignidade. Ao menos não ficamos escrevendo merdas ou dando declarações idem como outros equídeos, os asnos. Alguns desses, tristemente, chegam a ser ministros.

Por: Márcio Markendorf

Professor Dr. de Cinema da UFSC