Prisão de ex-presidente do Peru aumenta angústia de Bolsonaro com 2023

Ele tem muito medo de ser preso

Foto: ReproduçãoBolsonaro e Castillo
Bolsonaro e Castillo


Por Leonardo Sakamoto, jornalista, no Facebook 

A prisão do, agora, ex-presidente do Peru, Pedro Castillo, aumenta a angústia que já ronda Jair Bolsonaro sobre o que acontecerá com ele a partir do momento em que perder o foro privilegiado no final do ano. Ele tem muito medo de ser preso.

Seus comentários ao longo dos últimos anos sobre isso não foram apenas estratégia para deixar seus seguidores prontos para quando ele os chamassem às ruas em atos golpistas. Era o seu inconsciente gritando que há uma assombração rondando seu sono - e, definitivamente, não é o "fantasma do comunismo".

Bolsonaro não tentou dissolver o Congresso Nacional, nem instalar um estado de exceção, como Castillo, mas atacou a Constituição, como seu colega, bem como a democracia, as instituições da República e o sistema de votação na tentativa de se reeleger.

Isso sem contar que as investigações sobre os bloqueios golpistas em estradas e os atos golpistas em frente aos quartéis, que se sucederam ao resultado do segundo turno, podem desembocar no próprio presidente.

E temos a sua responsabilidade em parte dos 690 mil brasileiros mortos por covid-19, na corrupção que envolveu até pastores cobrando propina no Ministério da Educação e nos bilhões gastos na tentativa de comprar votos, que ajudaram a criar o caos nas contas públicas neste final de ano.

No Peru, as instituições funcionaram e o presidente foi destituído e preso. No Brasil, Bolsonaro só não foi cassado e/ou preso porque contou com o apoio do centrão no Congresso Nacional e a complacência do procurador-geral da República, Augusto Aras - proteção que termina em 31 de dezembro.

Esse medo se manifestou repetidas vezes na comparação a outra líder sul-americana: a ex-presidente da Bolívia, Jeanine Añez, condenada por um golpe de Estado em junho deste ano. Ela estava presa há 15 meses e sendo julgada junto com ex-chefes militares.

Logo após a sentença ser declarada, Bolsonaro se comparou a ela, durante visita a Orlando, nos Estados Unidos. Poderia ter se comparado a qualquer estadista com grandes feitos. Preferiu uma pessoa acusada e sentenciada por golpe de Estado.

"A turma dela perdeu, voltou a turma do Evo Morales. O que aconteceu um ano atrás? Ela foi presa preventivamente. E agora foi confirmado dez anos de cadeia para ela", disse. E foi além: "Qual a acusação? Atos antidemocráticos. Alguém faz alguma correlação com Alexandre de Moraes e os inquéritos por atos antidemocráticos? Ou seja, é uma ameaça para mim quando deixar o governo?"

No dia 27 de abril, a ex-presidente da Bolívia já havia aparecido em um discurso de Bolsonaro no Palácio do Planalto. "Tenham certeza eu jamais serei uma Jeanine, jamais, porque primeiro eu acredito em Deus e depois acredito em cada um de vocês que estão aqui. A nossa liberdade não tem preço, digo mais, como sempre tenho dito: ela é mais importante que a nossa própria vida, porque um homem, uma mulher sem liberdade não tem vida", disse.

O "acredito em cada um de vocês que estão aqui" mostra que ele acredita que haverá resistência à sua prisão.

Jeanine é figurinha fácil no inconsciente de Bolsonaro. Em junho de 2021, quando ela já estava presa, ele também tratou do assunto a seus seguidores. "O que aconteceu na Bolívia? Voltou a turma do Evo Morales e, mais ainda, a presidente que estava lá no mandato tampão [Jeanine Añez] está presa, acusada de atos antidemocráticos. Estão sentindo alguma semelhança com o Brasil?", disse.

Análises tanto do Tribunal de Contas da União quanto da equipe de transição do governo Lula apontam que a inclusão de milhões de famílias formadas por apenas uma pessoa entre os beneficiários ocorreu sem a aplicação de medidas para evitar fraudes em meio às necessidades eleitorais do presidente. E que o empréstimo consignado foi usado como arma por votos mesmo com os riscos que ele representa para a população vulnerável.

Parecer da equipe técnica do TCU, revelado pelo jornal O Globo, aponta pagamentos indevidos na inclusão de 3,5 milhões de famílias em agosto deste ano sob o pretexto de zerar a fila mas que visavam a impulsionar a campanha. Houve, segundo o parecer, uma "duplicação da quantidade de famílias unipessoais" beneficiárias.

O ex-ministro Aloizio Mercadante, coordenador dos grupos técnicos da transição, indicou que isso pode representar crime de compra de votos com dinheiro público. Defendeu que Bolsonaro seja acionado administrativamente e na Justiça por isso.

O presidente sabe que manter bolsonaristas excitados na porta dos quartéis não impedirá Lula de assumir o governo, mas é útil como aviso do que ele é capaz de mobilizar caso a prisão entre em seu horizonte no ano que vem. Se ele já temia ser Añez, agora também teme ser Castillo.

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