Os sinais da ascensão do fascismo

Ele prolifera através das redes sociais, envenena relações, ganha corpo, silenciosamente, e dá sustentação a governos de viés antidemocrático

Foto: El PaísEstudantes marcham contra o fascismo representado por Bolsonaro
Estudantes marcham contra o fascismo representado por Bolsonaro

Por trás da luta de classes, que sempre existiu na América Latina, governada, em todos os países do continente, através de regimes ora totalitários, ora democráticos, há uma percepção preocupante no ar. Acentua-se o choque político-ideológico entre esquerda e direita, mas a serpente do fascismo ou neofascismo se apresenta, nesse contexto, como ameaça real, sombria, baseada na disseminação do ódio. Pode tanto triunfar como ser derrotada pelas forças progressistas ou democráticas, de esquerda e centro-esquerda.

Esse embate tem um desfecho imprevisível, mesmo a curto ou médio prazo. O cenário parece apocalíptico e pode se transformar em golpes sombrios, como o mais recente, na Bolívia. Mas o que chama a atenção é a ascensão desse neofascismo, que fascina não apenas quem está no topo da pirâmide social, como também amplos setores da classe média e das mais populares. Ele prolifera através das redes sociais, envenena relações, ganha corpo, silenciosamente, e dá sustentação a governos de viés antidemocrático.

Tendo como pretexto o combate à corrupção e sempre vinculado ao fundamentalismo religioso cristão, católico ou neopentecostal, o fascismo quer mais. No Brasil, se materializa no governo de Jair Bolsonaro, que se elegeu com um discurso de ódio e medo, pseudo-nacionalista e em nome de Deus. E não é possível descartar que a serpente se manifeste de forma mais contundente no País, em eventual endurecimento do regime. Afinal, não faltam ameaças ao estado democrático de direito, seja do pai ou dos filhos. 

Ocaso da esquerda

Tanto na Bolívia quanto no Brasil a extrema-direita emergiu com o ocaso de governos de esquerda, “democrático-populares”. No vizinho, com o golpe que forçou o presidente Evo Morales a renunciar; em terras tupiniquins, pela via institucional, através do voto, nas eleições de 2018, amplamente suspeitas de manipulação. Porém, no brasileiro, o neofascismo só encontrou condições de proliferar depois que a presidente Dilma Rousseff sofreu impeachment sem ter cometido crime de responsabilidade, o que configurou uma grande manobra.

Portanto, é desnecessário lembrar que houve também um golpe de estado no País, em 2016, a exemplo do Paraguai, em 2012, e de Honduras, em 2009. Embora haja alguma relação causal entre os governos de esquerda, que caíram, e a chegada do fascismo ao poder, não se pode responsabilizar as esquerdas. O ressurgimento da extrema-direita pode ter sido facilitado por erros estratégicos cometidos, por exemplo, pelos governos Lula e Dilma. O próprio PT é criticado também por supostas opções eleitorais equivocadas em 2018.

Mas o fato é que não se imaginava que o fascismo pudesse voltar a proliferar-se no continente, em pleno século XXI. Na verdade, é um sinal dos atuais tempos sombrios, e acontece em vários pontos do planeta, como a Europa e os EUA. Por isso, a atual e a próxima década são comparadas às de 1920 e 1930, quando Hitler e Mussolini despontaram como ditadores messiânicos na Alemanha e Itália. Entre outros pontos em comum, uma grande crise econômica global, como as de 2008 e 1930, como terreno fértil para o renascer de tais movimentos.