Onde você guarda o seu estuprador?

Estupradores são homens comuns

Foto: DivulgaçãoEstupro

Por Daniela Cabral Gontijo  Pesquisadora associada da Cátedra UNESCO de Bioética /PPGBioética UnB, no 247

 Diante de tantos casos de estupro que abarrotaram a mídia estes dias, me vi tomada de muita raiva. Um médico anestesista estuprando uma mulher na mesa de cirurgia de sua cesárea? E o vídeo dessa cena grotesca sendo reproduzido na mídia, espetacularizando a violência e revitimizando a parturiente estuprada? Não sou de xingar, mas me veio um sonoríssimo “filho da puta” à cabeça. Só que não poderia haver equívoco maior. Esse xingamento é só mais um sinal de como a nossa linguagem é patriarcal. Estupradores não são filhos da mãe, muito menos filhos da puta. São filhos do patriarcado, porque são o ápice da expressão patriarcal em todo seu horror.

Não faz muito tempo, escrevi um texto inspirado num cartaz de uma manifestante divulgado em foto pelo Mídia Ninja: “Estupradores são filhos saudáveis do patriarcado”. Ondina Pena Pereira logo me corrigiu: “são filhos diletos do patriarcado”. É verdade, Ondina, porque filhos saudáveis do patriarcado são quase todos os homens. E mulheres também, por certo, como a juíza que instiga uma criança estuprada que acaba de completar 11 anos de idade a seguir com a gravidez: “Você pode aguentar mais um pouquinho?”. Essa é bem filha dileta do patriarcado. Mas aqui quero falar dos homens.

É que precisamos falar dos homens, ou melhor, falar do que constitui a masculinidade, com muita urgência. Está faltando demais essa parte do debate. E mais do que isso, precisamos que os homens falem da masculinidade e do patriarcado. Que falem conosco, mas que, sobretudo, falem entre si, com seus pais e filhos, com seus amigos e colegas, que não se calem mais. Porque aí está a chave para compreender o estupro e o estuprador. O que compõe e estrutura o estupro é o machismo. Nós mulheres já nos demos conta disso, sabemos bem o que significa ter um corpo feminino num mundo patriarcal. É preciso agora que vocês, homens, se deem conta. Há um estuprador em potencial em todo homem. 

Já posso até ver chegando os homens de bem para dizer que “não, não, nem todo homem”. Nem todo homem é estuprador, mas os estupradores são todos, ou quase todos, homens. E ainda por cima “homens de bem”. São médicos e enfermeiros, e pastores e padres e políticos. Homens ilustres, cidadãos ilustríssimos. Alguns mais famosos como o João de Deus, alguns que acabam de ganhar celebridade, como o médico anestesista que angariou novos seguidores no Instagram, alguns menos famosos, escondidos nos bons lares brasileiros.

Depois chegarão outros homens que dirão “mas eu sou um homem de família”. Também já sabemos que a grande maioria das vítimas de estupro, 8 de cada 10 casos, no Brasil, foram abusadas por pessoas próximas, conhecidas. Os estupradores são, muitas vezes, pais, padrastos, irmãos, tios, primos, avôs, homens de família e homens da família. 

Ainda que nem todos os homens sejam “filhos diletos do patriarcado”, é preciso entender o papel crucial de cada um na sua manutenção. Como bem colocou Rita Segato, não é o estupro que sustenta o patriarcado. O estupro é tão somente uma expressão aguda do patriarcado, como é o feminicídio, como duas pontas extremas do mesmo iceberg. O que sustenta o patriarcado, sua “argamassa hierárquica” nos termos de Segato, são os mínimos gestos, quando rimos de um comentário machista, por exemplo. As piadas, as coisas que em geral achamos uma pequena bobagem e deixamos passar. Homens estão pouco dispostos a confrontar outros homens, porque isso coloca em xeque sua virilidade, produz uma rachadura na fratria. Essa conivência vai dos pequenos gestos aos mais graves, vai da piada ao estupro, e faz de cada homem conivente uma peça primordial na manutenção desse quadro sinistro. O machismo cotidiano é a argamassa do estupro. Nos surpreendemos com a quantidade de estupros na sociedade, uma assombrosa pandemia, mas não entendemos que está tudo estruturado para tanto. O estupro é um crime intrinsecamente ligado à masculinidade.

Uma das pesquisas mais interessantes já feitas sobre o tema até hoje foi aquela realizada pelo Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre a Mulher (NEPEM), da Universidade de Brasília, nos anos 90. Ali, ao ouvir presos por estupro na Papuda, penitenciária masculina do DF, desfizeram-se muitas das crenças que tínhamos a respeito de estupradores. A partir desta pesquisa, Rita Segato pode entender uma chave importante do patriarcado, que é o estupro, e uma chave importante sobre o autor desse crime: que o estuprador é cumpridor de um mandato, o mandato da masculinidade. Certamente, hoje, sua obra é a que chega mais perto do entendimento do estupro. A antropóloga afirma que o estupro não é um ato sexual, mas um ato disciplinador, ou seja, um crime de poder. O estuprador é, no fundo, um moralizador, cumpridor de um “mandato de masculinidade”. Para Rita Segato, todo homem é vítima desse “mandato”, que nada mais é do que ter de demonstrar permanentemente que é homem, exibir virilidade, poder e força para outros homens. No imaginário do homem estuprador estão os outros homens, para os quais precisa demonstrar seus atributos. O gozo não é sexual, é um gozo de poder. A libido vem de demonstrar a outros homens que também pode subjugar, que é merecedor de seu lugar na fratria.

A demonstração de virilidade a outros homens é, no entanto, uma demonstração jamais acabada. Um homem jamais chega a ser homem de forma definitiva – a masculinidade é uma prova constante. Se o individuo foi homem a vida inteira, mas um belo dia acordou de manhã e decidiu passar um batom, foi tudo por água abaixo. O mandato da masculinidade é um fardo deveras pesado de se carregar. O valor de um homem está sempre posto à prova por outros homens, o ser masculino é refém do olhar masculino alheio, do olhar dos pares que vai chancelá-lo, dizer que, “sim, muito bem, você é muito macho”. Quem carrega esse fardo são os egos fragilíssimos que a masculinidade constrói - egos frágeis porque não se sustentam por si só, precisando se alimentar de um outro, na maioria das vezes uma outra, que subalternizam, controlam, põem em seu devido lugar. É “a exação de tributos” de que fala Rita Segato.

Ao analisar o discurso dos estupradores, Rita Segato, em “Las estructuras elementales de la violencia”, 2003, pode entender algumas facetas do estupro: seu caráter moralizador, como castigo “a uma mulher genérica que saiu de sua posição de subordinada”; seu caráter de “afronta a outro homem, para restaurar o poder perdido para ele”; e o estupro “como demonstração de força, poder perante pares”. Ao demonstrar que pode submeter uma mulher e que pode dela “extrair tributos”, o homem garante seu acesso à “fratria”, à “confraria viril”, ao “clube dos homens”.

Outra chave para compreender a irmandade masculina, o “clube dos homens”, é perceber o aspecto absolutamente homoafetivo da heterossexualidade masculina, como apontado por Marilyn Frye em “Políticas da Realidade: Ensaios sobre Teoria Feminista”, 1983. Frye entendeu que, apesar de manter relações sexuais exclusivamente com mulheres, os homens hétero cultivam o amor por outros homens, pelos quais guardam admiração e respeito, a quem “imitam, idolatram e com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam: estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens”. Em outras palavras, tudo que diz respeito ao amor guardam para os homens. Para as mulheres os homens “reservam gentileza, generosidade ou paternalismo” e delas esperam “devoção, servitude e sexo.” 

Trocando em miúdos, grande parte do que chamamos de masculinidade e heterossexualidade, é na verdade, uma exacerbação do mundo masculino e um rechaço ao feminino, que, em outras palavras, podemos chamar de misoginia. Para ser homem é preciso ter seu referente de valor e admiração no mundo dos homens. Não é preciso somente extrair valor da subalternização do feminino, demonstrar sua virilidade, mas confirmar esse valor perante os pares. Isso torna os homens reféns do olhar dos outros homens, porque é do olhar e da confirmação dos pares que recebem também o seu valor, a sua potência. Segundo Rita Segato, “a humanidade do sujeito masculino está tão comprometida por sua virilidade, que ele não se vê podendo ser pessoa digna de respeito se não tem o atributo de alguma potência - potência sexual, bélica, de força física, econômica, intelectual, moral, política”.  Em outras palavras, no fundo é de uma fragilidade imensa o ego masculino, pois precisa exibir “potências”, exibir o “consumo” de corpos femininos, seu “poder moralizante” sobre as mulheres, e ser ratificado, aprovado pela fratria, seus pares, seu grupo, para se confirmar.

É urgente entendermos o quão sinistra é a construção da masculinidade e como, contraditoriamente, ela produz egos frágeis, egos que não se sustentam por si, egos que estão sempre à prova. O patriarcado é uma máquina avassaladora de fazer sujeitos frágeis, defensivos, fracos e por isso, ao mesmo tempo, violentos, abusivos, autoritários, controladores, moralizadores. A violência, como necessidade da “exação de tributos”, é a prova mais contundente de sua debilidade. 

Lembro daquela genial campanha que nos interpelava: “onde você guarda seu racismo?”. Precisamos somar urgentemente a essa pergunta uma outra: “onde você guarda o seu machismo?”. Talvez, ainda mais urgente, seja cada homem se perguntar todos os dias: “onde você guarda o seu estuprador?”.

Você guarda o seu estuprador quando se cala, quando entende que o estupro não é um problema seu, quando resguarda o estuprador ao lado, seu irmão, seu primo, seu colega. Você guarda o seu estuprador quando ri de piadas machistas ou se cala. Você guarda o seu estuprador quando é cúmplice de violências e crimes pelo silêncio, pela conivência. Isso também é guardar o seu estuprador. 

Quando cada homem tiver a coragem de remexer suas gavetas para entender que o problema do estupro é, sim, um problema seu, um passo importante terá sido dado para desfazer esse crime que persiste e grassa e recrudesce em pleno século XXI.  Encontrar onde está guardado o estuprador em você, homem, é o primeiro passo, o mais digno, para desfazer “o mandato da masculinidade”. 

É que passou da hora de entendermos que estupradores não são os monstros dos infernos. Nem os monstros das esquinas. Estupradores não são monstros, ponto. São homens comuns. Homens de bem. Homens de e da família. Os joãos que se dizem de deus e outros messias. São um macho vil dentro de cada homem, um machinho raso, egóico e autoritário e no fundo, bem no fundo, frágil, fraco, covarde.

Homem, não guarde o seu estuprador.

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