O que pode trazer de volta a ultra-direita

Qual a saída? Um forte apoio das elites brasileiras não apenas às eleições deste ano, mas ao próprio governo Lula

Foto: ReproduçãoLula e Henrique Meirelles
Lula e Henrique Meirelles

 


Por Luís Nassif, jornalista, no GGN

A entrevista de Steven Levitsky – autor do clássico “Como morrem as democracias” – ao Roda Viva traz uma colocação intrigante. Ele defende o voto útil, a decisão das eleições no primeiro turno. Mas trata Lula como mal menor e prevê o possível fracasso de sua gestão. Não é uma lógica antilulista. 

Seu raciocínio é direto: 

1. Lula vai assumir cercado de expectativas. 

2. Não tem mais a vitalidade e o dinamismo de outros tempos, por conta da idade.

3. Um fracasso de sua gestão jogará o país inapelavelmente nas mãos da direita radical. 

Qual a saída? Um forte apoio das elites brasileiras não apenas às eleições deste ano, mas ao próprio governo Lula. Se a economia não deslanchar, se não houver bem estar à população, nenhuma democracia resistirá.

Aliás, este é o ponto central de discussão da crise política que passou a assolar o país desde o impeachment. 

A partir de 2008, a democracia liberal entrou em xeque. Especialmente quando ficou claro que a ultrafinanceirização destruiu estruturas sociais, promoveu a concentração de renda, ampliou a miséria pelo mundo. 

Nas empresas, houve a substituição das famílias por CEOs; no mercado, a preponderância dos fundos de investimento, em lugar dos acionistas tradicionais, solidários com as boas empresas. A competição levou os CEOs a sacrificar investimentos, inovação em favor da rentabilidade imediata. O padrão de gestão não é mais a busca de novos mercados, o aprimoramento da gestão, mas o padrão Jorge Paulo Lehman, de fixar tudo em corte de custos e em empresas de setores tradicionais, nos quais a competição não obrigasse a colocar recursos em inovação. 

 Nas últimas semanas, o Jornal Nacional tem publicado uma série de reportagens memoráveis sobre a Constituição, salientando a relevância da consolidação dos direitos. Em um dos capítulos, na promulgação da Constituição, Ulisses Guimarães diz a frase definitiva: 

“Todos os nossos problemas procedem da injustiça. O privilégio foi o estigma deixado pelas circunstâncias do povoamento e da colonização, e de sua perversidade não nos livraremos, sem a mobilização da consciência nacional”.

Se é uma manifestação de bom jornalismo específica da série, não se sabe. Mas tudo indica que começa a haver uma mudança central no enferrujadíssimo pensamento ultraliberal que ainda domina o jornalismo brasileiro. O economicismo vazio que controlou as políticas públicas desde o Real, finalmente começa a esmaecer.

Toda decisão de política pública, todo julgamento do Supremo Tribunal Federal, toda entrevista nas principais redes de TV, toda decisão, tudo estava subordinado aos interesses financeiros.  

Agora, começa a cair a ficha de que a ultrafinanceirização diluiu laços sociais, solidariedade nacional, sistema partidário, colocando o país à mercê das milícias. Grande parte do bolsonarismo advém de um público do interior que foi alijado de qualquer decisão política, assim como, do lado esquerdo, os movimentos sociais. 

De alguma maneira, o PT abriu espaço para a organização dos movimentos sociais. Mas o cidadão médio do interior ficou órfão até a chegada de Bolsonaro, com seu discurso de moralista da ocasião e sua estratégia de apontar os inimigos na esquerda. 

Agora, entra-se nesse impasse fundamental. Eleito Lula, seu governo tem que dar certo. Qualquer fracasso, qualquer frustração maior nas expectativas criadas, abrirá espaço para ultra-radicais – aliás, como vimos apontando, é um espaço para o qual está se candidatando Ciro Gomes. 

Há dois Lulas em jogo. O primeiro é o que assumiu a presidência em 2003 e vai até 2008, totalmente subordinado ao mercado e seguindo o pacto econômico do Real: câmbio baixo, juros altos, ajuste fiscal e livre fluxo de capitais. Apenas em 2008 nasce o Lula que se tornaria referência mundial, quando a crise que explodiu obrigou-o a buscar soluções reais para a economia. 

Qual Lula assumirá a cadeira de presidente? De um lado, sabe-se que as lições de 2008 serão essenciais na arregimentação da sociedade civil, através das Conferências Nacionais. Mas, e nas políticas macro-econômicas? A hipótese de trazer Henrique Meirelles animou os mercados. Mas seria a pá de cal nas esperanças de um governo inovador, que ajude a enterrar a ultra-direita no país.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS