O discurso de glamourização da dor da classe média de esquerda

O discurso de glamourização da dor da classe média de esquerda

Foto: Arquivo pessoalLidiane Cesar
Lidiane Cesar

Por Lidiane Cesar, advogada 

Sofrer não é opção, menos que se tenha alguma patologia ou fetiche, o sofrimento acontece por motivos que nem sempre são frutos diretos das nossas ações. 

Dor e sofrimento são fontes de mudança? Lições são melhor aprendidas diante das consequências dos erros? Importa que os danos sejam sentidos por aqueles que não contribuíram para isso? 

Não consigo abstrair o discurso de glamourização da dor, do “no pain, no gain”. Tenho essa dificuldade.  Não quero e não preciso de ninguém sofrendo para me sentir melhor ou ter a soberba em determinar que aquilo é o melhor “método de aprendizagem” para a construção de caráter ou para a elevação espiritual do outro. 

O discurso do quanto pior, melhor; mascara o sentimento punitivista que assola sobretudo a classe média, e não menos, atinge a classe de média de esquerda. 

A classe média de esquerda frente à desenfreada injustiça e a supressão de conquistas e direitos sociais constituídos que formam o núcleo dos sistemas de proteção social, vê na vingança moral, ao sofrimento a ela causado, a redenção, e aduz ao confuso entendimento de que vingança também é justiça. 

E mais, as consequências das ações danosas do atual governo que afligem a todos indistintamente são regozijo e palco para a fala “eu avisei”.

Acontece que mais profundo do que isso, temos a justificativa da própria inércia e quietude, protegida pela torre de privilégios de saber que vai sobreviver - mais pobre de certo - mas não sob uma marquise. 

Muita pretensão a nossa acreditar que a aprendizagem do outro passa somente pelo sofrimento e de que desse, brota um novo ser, revolucionário, inclusive, e que surgirão novos entendimentos e autoconhecimento, uma espécie de “entendimento quântico de luta coletiva”, para soar mais inteligível para a geração coach. 

Caímos novamente nas formas e regramentos de condutas que mais do que manuais são espelhos do que somos, e que na prática nem a nós mesmos é aplicável, o ser o humano sequer é transparente para consigo mesmo, segundo Freud.

Triste fim de uma luta por mudanças sociais que nem se iniciam, ficam barradas pelo esperar o advir e pelo o que as lideranças ditam. 

Sair da inércia custa, custam reputações, saúde mental, tempo com a família e nem todos estão dispostos a fazê-lo. Esperar que o universo conspire ou que lideranças o promovam é o mais fácil. O autogolpe da esquerda passa por diversas faces, mas o da lição provinda da “dor para todos” me parece de longe o mais cruel e insensato. 

OBS: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do pensarpiaui.