Mães mortas, filhos separados, famílias desestruturadas: as mortes maternas por covid

Bisavós, avós, tias e primas dividem responsabilidades que, mais uma vez, recaem sobre as mulheres

Foto: Sul 21A taxa de letalidade materna do coronavírus é de 7,2%, quase 2,5 vezes maior do que a média da população em geral. Foto: Valdo Leão/Semcom
A taxa de letalidade materna do coronavírus é de 7,2%, quase 2,5 vezes maior do que a média da população em geral

 

Sul21 - A explosão de mortes maternas causadas pela pandemia de covid-19 no Brasil transformou o país no local com maior número de mulheres grávidas e puérperas vítimas do coronavírus no mundo. As famílias enlutadas enfrentam a dor pela perda e a necessidade de reestruturação da rotina em lares com crianças e recém-nascidos órfãos por consequência da pandemia. Em uma sociedade com alto índice de abandono paterno, em vários lares as responsabilidades ficam divididas entre bisavós, avós, tias e primas que se desdobram para garantir o sustento financeiro e a estabilidade emocional. Nesta reportagem especial, o Sul21 ouviu histórias de famílias que lutam para sobreviver após a perda e conversou com pesquisadora do campo da saúde da mulher para entender os motivos da alta taxa de mortalidade e as ações que precisam ser adotadas para frear as mortes maternas por covid-19.

Mãe e avó mortas pela covid: filhos separados

Arícia Campelo tinha 28 anos quando faleceu de covid-19, em maio de 2020. Mãe de João Lucas, Pedro Guilherme e Felipe Gabriel, com sete, cinco e quatro anos, respectivamente, estava no sexto mês de gestação quando teve um descolamento de placenta. A complicação colocou a gravidez em risco e fez com que ela fosse internada em um hospital. Moradora do município de Manacapuru, distante 93 km de Manaus, no Amazonas, precisou ser transferida para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) obstétrica em um hospital na Capital. Cinco dias depois, foi infectada com covid-19. O quadro se agravou, Arícia foi intubada e o parto da filha Maria Liz precisou ser realizado com urgência. Seis dias depois, Arícia faleceu. “Ela não saía de casa, tinha medo da covid. E quando ela precisou foi por causa do descolamento. E aí pegou covid”, conta a tia, Yasmine Campelo.

Foto: Sul 21Arícia Campelo
Arícia Campelo

Após a morte de Arícia, a avó materna, Amanda Campelo, ficou responsável pelos cuidados com as crianças. Arícia era separada do pai de João, Pedro e Felipe e ele, que nunca foi presente e ocasionalmente pagava pensão para as crianças, até cogitou cuidar dos três, mas a promessa nunca se concretizou. Já o pai de Maria Liz, inicialmente morou com a sogra e depois fixou residência em um local próximo à família. Amanda também contribuía com os cuidados da bebê, que passou mais de 30 dias hospitalizada.

Foto: Sul 21Amanda Campelo
Amanda Campelo

 

A situação que estava complicada piorou em fevereiro: Amanda foi infectada e em poucos dias também faleceu em decorrência da covid-19, aos 48 anos. “Só éramos nós duas, eu e minha irmã (Amanda). Ela ficou com as crianças, inclusive a neném, porque o pai foi para a casa dela. A minha irmã também ficou cuidando dos outros três, dois deles autistas. E aí quando a minha irmã morreu, separaram eles. O pai levou Maria Liz para outro estado (Pará). A outra avó (paterna) levou o João Lucas. A minha mãe (bisavó das crianças) ficou com os dois mais novos. Eles estão todos separados e tudo que a Arícia pedia era para não separarem os filhos dela”, conta chorando.

Yasmine também auxilia a mãe no cuidado com os sobrinhos-netos. “A gente tenta suprir. A gente sabe que não vai conseguir, mas de uma forma ou outra a gente tenta fazer com que eles não sintam tanto”. Yasmine conta que a avó paterna e a bisavó planejam ingressar com pedido de guarda dos meninos e que espera não perder contato com a bebê Maria Liz. Entre lembranças, diz que sua maior dor é saber que além do sofrimento de ter perdido a sobrinha Arícia no início da pandemia, viu a irmã Amanda partir a poucos meses da vacinação que garantiria a imunização contra o coronavírus. “Quando fui vacinar eu só lembrava da minha irmã. Era o sonho dela. Ela ficou cuidando dessas crianças… Eu ainda choro muito quando falo disso, mas a morte delas não vai ser em vão, elas não vão ser apenas um número, uma estatística”.

Letalidade 2,5 vezes maior

De acordo com o último Boletim do Observatório Covid-19 da Fundação Oswaldo Cruz, a taxa de letalidade materna do coronavírus é de 7,2%. O número é quase 2,5 vezes maior do que a média da população em geral, estimada em 2,8%. Até o fim de junho, data da publicação do boletim, 1.156 grávidas e puérperas faleceram em decorrência da doença. O número representa mais do que o dobro do ano passado, quando foram registrados 560 óbitos.

Para a presidente da Rede pela Humanização do Parto e Nascimento, Daphne Rattner, os altos números de letalidade estão relacionados a uma condução de enfrentamento à pandemia marcada por uma “gestão equivocada e inapropriada”. Médica e doutora em Epidemiologia, ela desenvolve pesquisas na área de saúde da mulher e compara os processos decisórios atuais com a epidemia de microcefalia e zika vírus, em 2015. “Era um evento absolutamente desconhecido e em pouco tempo se organizou ações de emergência”, relembra. Algo que, na avaliação da pesquisadora, não foi realizado com a pandemia de coronavírus. “É possível dar uma resposta adequada, competente e oportuna para uma emergência. Mas o que nós vimos é que o Ministério da Saúde teve dificuldade no diálogo interno, dificuldade de divulgação e não se estruturou para enfrentar o problema. Hoje, nós já sabemos que entre 75% e 80% das mortes de coronavírus eram evitáveis, inclusive as mortes maternas”, afirma.

Daphne elenca algumas causas possíveis para o número acentuado de mortes maternas no país. Entre elas está a suspensão de todas as consultas eletivas, no início da pandemia, que fez com que milhares de mulheres grávidas não realizassem o pré-natal de maneira adequada e, principalmente, a não inclusão das gestantes e puérperas como grupo prioritário na vacinação contra a covid-19. “O fato de não ter uma condução maior prejudica de maneira significativa. Precisamos fazer também uma vacinação de lactantes em todo o país. São grupos de risco que deveriam ser considerados prioritários”, afirma.

Somente na semana passada, após forte pressão de grupos da sociedade civil, o Ministério da Saúde publicou uma orientação aos estados para que incluam grávidas e puérperas entre os grupos prioritários para a vacinação. A determinação é que recebam doses das vacinas Pfizer e CoronaVac, que não possuem vetor viral. As vacinas AstraZeneca e Janssen foram excluídas. Em maio, a pasta havia incluído o grupo no Plano Nacional de Vacinação, mas reviu a determinação no mês seguinte. Com a indefinição ao longo dos meses, coube aos estados e municípios definir se realizavam a vacinação do grupo – o que não ocorreu na maioria das localidades. A estimativa é que 2,5 milhões de gestantes e puérperas estejam nessa situação.

Uma campanha de vacinação massiva das grávidas e puérperas tem sido defendida como a única medida capaz de conter as mortes maternas e contornar o drama social decorrente da perda. “Quando uma mulher que é mãe morre é uma tragédia, porque ela deixa vários órfãos. A mãe é quem estrutura as famílias e, muitas vezes, os filhos dessa mulher são separados entre os familiares, que buscam fazer o melhor, manter e cuidar das crianças, mas é uma desestruturação muito séria”, diz Daphne.

Um bebê prematuro no hospital e duas crianças em casa sem mãe

A assistente social Juliana Cirqueira tinha 30 anos quando faleceu de covid-19, em julho de 2021. Mãe de Giulia e Valentina, com 12 e 4 anos, respectivamente, estava no sexto mês de gestação quando contraiu a doença. Moradora de Francisco Morato, na Grande São Paulo, ela atuava como militante social no campo dos direitos sexuais e reprodutivos e entrou para uma estatística que reflete desigualdade: mulheres negras e periféricas são mais vulneráveis à covid-19 e têm uma mortalidade materna quase duas vezes superior ao de mulheres brancas.

Foto: Sul 21Juliana Cirqueira
Juliana Cirqueira

 

Na família da assistente social, o luto pela morte foi duplo: Juliana se contaminou no mesmo momento em que a mãe, Valdenice Cirqueira Tavares, de 63 anos. As duas foram internadas no mesmo período. “Ambas precisaram ser hospitalizadas. A mãe de Juliana faleceu e na sequência o estado de saúde dela se agravou muito. Ela precisou passar por uma cesárea de emergência em uma fase extremamente delicada para o bebê. E aí o Anthony, o bebezinho dela, nasceu extremamente prematuro, e está na UTI neonatal”, conta Ligia Moreiras, amiga de Juliana. Anthony segue na UTI. Juliana morreu poucos dias depois.

Ligia é doutora em Saúde Coletiva e há mais de 10 anos pesquisa assuntos relacionados à maternidade, saúde das mulheres e das crianças. Criadora da página Cientista que Virou Mãe é uma das estudiosas que atualmente pesquisa os impactos da covid-19 na maternidade e luta pela redução do número de mortes de grávidas e puérperas, enquanto vive a dor de ver amigas morrendo de uma doença para a qual já existe vacina. “Essa atenção dada às grávidas e puérperas durante a pandemia foi catastrófica, absolutamente catastrófica. E nós ainda estamos investigando os impactos disso”, comenta.

Desde a morte de Juliana, Ligia está fazendo uma campanha de arrecadação de recursos financeiros para a família da amiga. Sobre as dificuldades enfrentadas pelos familiares das vítimas, reflete que os problemas estruturais da sociedade brasileira tendem a aumentar: “Se já temos um apoio social para as famílias deficitário, isso vai se agravar ainda mais”.

Nos hospitais, preocupação com mães e prematuros

Nos hospitais, as internações de grávidas e puérperas por covid-19 cresceram de maneira significativa. A chefe da Unidade Centro Obstétrico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Maria Lúcia da Rocha Oppermann, afirma que a sensação dos profissionais na linha de frente do atendimento é de que “é outra pandemia, ficou muito mais grave em 2021 do que era em 2020”.

A instituição registrou oito internações maternas no Centro de Tratamento Intensivo por Covid-19 em 2020 e nenhuma morte; este ano, foram 17 internações e duas mortes. Uma das vítimas tinha 30 anos e foi mãe de gêmeos, que nasceram com apenas 29 semanas de gestação.

Maria Lúcia afirma que há diversos estudos em andamento para compreender a maior mortalidade materna por covid, mas afirma que a “gestação por si só é um momento de mudanças e também um período de aumento da resposta inflamatória e isso pode estar associado ao aumento de casos”.

Grande parte dos casos atendidos no hospital são de mulheres que precisam ter o parto antecipado em decorrência das possíveis complicações para mães e bebês. “A maioria dos bebês com mães que precisaram ser internadas na CTI por covid-19 teve parto prematuro. São bebês que podem vir a ter uma série de complicações ao longo da vida em decorrência dessa antecipação”, explica.

Na Santa Casa de Porto Alegre a situação também é preocupante. Mesmo não sendo hospital de referência para gestantes com covid-19, a instituição realizou 1.523 testes em gestantes desde o início do mês de março e teve 55 internações maternas pela doença. Conforme a chefe do Serviço de Obstetrícia da Santa Casa, Carla Vanin, o hospital registrou três óbitos maternos por covid-19 desde 2020 – todas as crianças nasceram prematuras e tinham, no máximo, 32 semanas.

Maria Lúcia afirma que uma das grandes preocupações da equipe é a baixa vacinação de gestantes. “Muitas gestantes têm evitado se vacinar por receio e a gente olha para os dados e vê que a mortalidade está caindo gradualmente justamente por causa da vacinação. É fundamental que a gente entenda que em uma doença que não tem tratamento efetivo a única maneira de evitar o risco de morte é a vacina. Nenhuma mulher grávida pode ficar tranquila se não estiver vacinada”. O coro é endossado pela médica Carla Vanin ao responder sobre os cuidados especiais que as gestantes devem adotar: “Isolamento social, distanciamento, lavagens das mãos, uso de máscaras, uso de álcool e vacinação”.

Sem testagem, mãe morre um mês após o parto

Lidiane Vieira Frazão conviveu menos de uma semana com o filho recém-nascido antes de ser internada e falecer, vítima de covid-19, aos 35 anos. Negra e moradora da periferia, a mãe de Felipe, 11 anos, trabalhava como agente funerária e atuou durante toda a gravidez, até maio de 2020, quando Carlos nasceu. A gravidez foi tranquila, mas na chegada ao hospital, ela começou a sentir falta de ar. A equipe médica avaliou que era um quadro de ansiedade. Após o parto, mesmo com sintomas de covid-19, foi liberada. Depois de dois dias em casa, foi hospitalizada em outra unidade de saúde com 80% do pulmão comprometido. Foi intubada, teve parada cardíaca e acabou falecendo em menos de 20 dias.

Foto: Sul 21Lidiane Vieira Frazão
Lidiane Vieira Frazão

 

“O marido e a mãe dela também testaram positivo no mesmo período, mas o hospital não fez nenhum teste na minha irmã, afirmou que era ansiedade. Quando levamos ao outro hospital já estava com esse comprometimento no pulmão”, lembra Monika.

A família que mora no Rio de Janeiro havia perdido o pai de Monika em 2019 e em menos de um ano passava por uma nova tragédia, acrescida da necessidade de reorganizar a vida com as crianças. Lidiane morava com o marido e o filho na casa da mãe. Apesar do pai continuar morando com a família, todo o apoio para as crianças têm sido dado pelas mulheres. "É um matriarcado. É um mutirão. Os cuidados diários com o bebê são prestados pela mãe da Lidiane. Ela que alimenta, ela que coloca para dormir. Agora, os cuidados financeiros ficam divididos entre mim, minha outra irmã e mesmo a minha madrasta (mãe de Lidiane)”, explica.

Monika conta que a família tem uma grande preocupação com o filho mais velho de Lidiane. Com 11 anos, Felipe sofre pela ausência da mãe e recebe apoio da família e acompanhamento profissional para lidar com a ausência materna.

O luto acompanha a rotina de cuidados e atenção com as crianças, em um momento em que as reuniões familiares não podem acontecer por medo de novas contaminações. “É uma dor muito difícil. A gente mora perto, mas está longe. A família está despedaçada e a maior preocupação é o bem-estar das crianças, é muito difícil”, relata.