Lula no primeiro turno: o começo da derrocada bolsonarista

Votamos Lula no 1º turno com a consciência tranquila de quem nunca tirou o pé da rua e não deixou de dialogar com o povo

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Monica Benicio

Por Monica Benicio, vereadora (PSOL-RJ) e colunista na Forum

O novo bate-boca no Twitter sobre o voto em Lula no primeiro ou no segundo turno nos levou a querer politizar o debate, que muitas vezes se torna superficial e violento dentro da rede, mas que revela uma complexidade de visões da esquerda brasileira. Aqui, começo informando ao leitor que tenho profundo respeito aos companheiros com quem mantenho divergências, mas também as mesmas trincheiras da luta.

O bolsonarismo é hoje uma corrente ideológica espalhada pela sociedade. Vivemos não só sob os desmandos de um governo fascista, mas também em um fascismo social. A tarefa para acabar com o neofascismo brasileiro não se resume às eleições, mas tampouco deve-se diminuir a sua importância. O povo elegeu o Bolsonaro e, parte dessas pessoas, não é ignorante ou está arrependida.

Não dá para suavizar essa caracterização. Um governo fascista trabalha pela eliminação de seus inimigos. Esse foi o discurso de posse de Bolsonaro, que prometia “varrer a turma vermelha do Brasil”. Ele incita e promove isso entre seus apoiadores. Estamos todos sob ameaça e reféns de políticas de destruição completa da nação. É impossível considerar qualquer avanço hoje que não passe por tirar Bolsonaro da presidência. Isso é muito sério.

Infelizmente, não temos força política para defender uma candidatura radical de esquerda. Nós perdemos o debate social. Bolsonaro se elegeu no mesmo ano em que Marielle Franco, uma vereadora de esquerda democraticamente eleita, foi brutalmente assassinada em um crime político até hoje sem respostas. Esse mesmo presidente completará seus 4 anos de mandato sem que a mídia comercial sequer mencione que se trata de um governo de extrema direita.

Durante todos esses anos, nós criamos e estivemos em diversas mobilizações para a derrubada do governo genocida. Dentro e fora dos parlamentos, tentamos ativamente interromper esse projeto. Mas não houve força social e mobilização popular suficiente que desse corpo a radicalização necessária para isso.

Esse é o Brasil. Um país tão acostumado com a truculência, com a escravização, com a falta de confiança na democracia e nas instituições, que não sente necessidade de responder ao fascismo. Impera na nossa sociedade o lema do cada um por si. Precisamos analisar a realidade pelo que ela é de fato e não pelo que a gente idealiza. Vivemos um momento histórico defensivo, de perdas de direitos e de miséria, e sob efeitos de uma ofensiva dura das elites para diminuição de espaço da esquerda, através de campanhas difamatórias constantes e da utilização do aparato estatal. Não há espaço na sociedade, especialmente junto ao povo mais pobre, para um projeto revolucionário diante da polarização que está dada neste processo eleitoral.

O processo eleitoral também não está ganho, tampouco será facilitado. Bolsonaro comprou o Congresso no maior esquema de repasse de verbas da história. Isso mesmo com o povo passando fome, com a maior inflação já vista em quase 30 anos, desemprego e mais de 600 mil mortos durante a pandemia de Covid-19. A máquina das fake news opera para incitar o ódio social e, junto à midiatização do golpe de 2016, contribui para reforçar o medo do comunismo no povo. A falsa dicotomia de que se trata da mesma coisa.

Falsa dicotomia essa que precisa ser combatida. Não se trata de uma eleição de esquerda e direita. Trata-se de uma eleição de uma extrema direita fascista escravocrata, fundamentalista e negacionista contra uma candidatura democrática republicana de centro-esquerda. 

Apesar de todas as válidas críticas sobre a conciliação de classes, além das diversas cobranças que fazemos diretamente aos companheiros do PT, é preciso admitir que essa candidatura é a única capaz hoje de derrotar um governo fascista no Brasil. Sendo assim, não há para nós uma questão de escolhas fáceis ou difíceis, essa é a nossa única escolha. Não tem como achar que é razoável não se desesperar com a chance de perdermos essa eleição e nos depararmos diante de mais 4 anos de governo fascista democraticamente eleito. Esse risco não é imaginário.

Nossas tarefas são enormes, companheiras e companheiros. A reconstrução de movimentos sociais, o enraizamento em territórios, a construção de base para refundar nossos conceitos de democracia, justiça e também de enlutamento, pelo que esse país passou, são enormes.

Mas passam, necessariamente, por garantir uma derrota para o lado de lá. Essa derrota hoje, infelizmente, é apoiar um candidato que não representa todos nossos anseios e sonhos, mas que representa um respiro democrático. Essa eleição não é como as outras, precisamos interromper esse projeto de morte. E isso não significa abrir mão de disputar um outro projeto de país. Não deixaremos de colocar nossos sonhos nas ruas, de apresentar um programa que rompa com a sociedade de classes, com a exploração e todas as formas de opressões. Não há ilusões, há trabalho!

Votamos Lula no 1º turno com a consciência tranquila de quem nunca tirou o pé da rua e não deixou de dialogar com o povo sobre a necessidade de transformação radical da sociedade. Não recuaremos disso, nem antes e nem depois das eleições. Muito pelo contrário, sabemos que em um país com uma herança escravocrata tão latente, essa é uma tarefa de gerações. Mas nada será tão doloroso ao Brasil do que manter esse governo. Não achamos que podemos dar espaço. Aqui, não poderemos titubear. Agora, mais do que nunca, todos os nossos sonhos serão tarefas!

Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião do Pensar Piauí.