Josias Pires: Fratura nacional, Canudos e o sopro de energia renovadora do Alapini de Asipá

Josias Pires: Fratura nacional, Canudos e o sopro de energia renovadora do Alapini de Asipá


No blog do jornalista Luis Nassif desta sexta, 01, nos deparamos com um excelente texto de Josias Pires, graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal da Bahia (1988), Mestre em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia (2004); Doutorando no Programa Multidisciplinar Pós Cultura/IHAC/UFBA (a partir de 2016); atua em direção de filmes documentários desde 1998, dentre eles o filme documentário de longa metragem "Cuíca de Santo Amaro" e "Quilombo Rio dos Macacos", em fase de montagem.

Uma análise dos nossos dias, oportuna, e que aqui também compartilhamos:

Fratura nacional, Canudos e o sopro de energia renovadora do Alapini de Asipá

por Josias Pires

Nesta quinta (30) pela manhã, durante o café num hotel do interior da Bahia, fui obrigado a assistir ao noticiário matinal da rede Globo – há algum tempo desisti do jornalismo da Globo. Mas naquele momento pude compartilhar do choque da audiência, quando vimos a reportagem sobre policiais ou agentes penitenciários (o som estava baixo e o buxixo no restaurante do hotel impediu a audição perfeita) atacando presos indefesos, sentados no chão, acossados por choques elétricos e spray de pimenta. Um dos hóspedes siderado pelas cenas aterradoras deixou escapar:

- Quem merece este tratamento é gente como Aécio Neves e Eduardo Cunha e não esses pobres miseráveis!

- Meu deus, pensei, nenhum ser humano merece este tipo de tratamento. Nem o bandido de colarinho branco, o político safado que rouba a soberania popular e compra a eleição para se proteger da justiça - nem o bandido vítima desse sistema filho da puta (com todo o respeito às putas). O geógrafo Milton Santos dizia que a humanidade é um projeto a ser construído, os seres ditos humanos estamos longe de constituirmos, apenas somando nossas individualidades, a humanidade; pois esta pressupõe um projeto coletivo, comum, solidário. Isto começa com cada um de nós aprendendo a respeitar a humanidade do outro, ainda que o outro seja um bandido.

Fora da bolha global, pude, em seguida, acompanhar parte de evento que se debruçou sobre um acontecimento revelador, em alta potencia, da história do Brasil: a guerra de Canudos, que este ano completou 120 anos. O Belo Monte de Antonio Conselheiro, esmagado pelas forças policiais, pelo Exército da República recém instalada, tematizado em centenas de livros, alguns deles clássicos da literatura brasileira e latino-americana, ressurge em cada tragédia que todo dia assola o país no sem número de massacres de índios, sem-terra, sem-tetos, quilombolas e toda sorte de gente pobre. Mas se a República venceu a última batalha na Canudos do Conselheiro, o fato é que a guerra entre o Estado (e seus controladores) e os excluídos continua em aberto até hoje. A fratura nacional continua exposta.

Canudos do Belo Monte tem muito a nos ensinar: suas memórias, os silêncios, as lembranças e esquecimentos. O seminário que pude acompanhar pôs na mesa a história oral de Canudos – ainda pouco conhecida e reconhecida – fazendo-nos ver que é, certamente, tão potente quanto a literatura sobre aquela guerra dita do fim do mundo. A poesia oral e a memória social são as mais consagradas expressões dos desejos profundos dos homens e mulheres atacados em Belo Monte, portanto, conhecer e reconhecer essa memória e essa poesia popular são condições necessárias para nos aproximarmos do Brasil profundo, de reconhecer a necessidade de um projeto de nação que transcenda os interesses exclusivos dos dominantes e dominadores.

Por um outro viés, a história do sacerdote-artista-educador Mestre Didi nos diz exatamente isto. A imensa contribuição africana à formação do Brasil aparece plena na vida e na obra desse gigante sensível da africanidade brasileira. É o que podemos constatar no luminoso filme de Silvana Moura, Emílio Le Roux e Hans Herold Alapini – A herança ancestral do Mestre Didi Asipá, mergulho profundo, intenso, belo, amoroso na sua vida e filosofia, que tive a felicidade de ver nesta noite de quinta feira na Sala Walter da Silveira, numa sessão emocionante, uma festa nagô asipá baiana. Deoscóredes Maximiliano dos Santos, o Mestre Didi, filho da afamada yalorixá Mãe Senhora, do Ilê Axé Opô Afonjá, é a ancestralidade africana recriada no Ilê Axé Asipá, nas suas esculturas, na sua literatura oral, no seu papel como educador, como líder, enfim, na sua vida e obra intensas e profundamente criativas. Viveu 95 anos, nascido em 1917, faria agora 100 anos.

Fora da bolha global, vinculado à força da terra, do fogo, do ar e da água, nos oferecendo a possibilidade de contato com o mundo visível e o invisível podemos intuir que a força da herança africana, em comunhão com outras contribuições decisivas, como a dos sertanejos, nos ajudará a superar e enterrar o país fraturado enquanto construímos, sobre os fundamentos do Brasil profundo, a nação que desejamos.