Há esperanças no jornalismo piauiense, profissional critica Pintos Magazine e Diário do Povo

Há esperanças no jornalismo piauiense, profissional critica Pintos Magazine e Diário do Povo

O jornalismo do Piauí, na quase totalidade de sua pratica, é de direita, conservador, anódino.

Aquele profissional que quer preservar um pouco de sua imagem apela para o jargão da “neutralidade”. Diz que não é nem “A”, nem “B”. Na verdade, a tal “neutralidade” é uma grande balela.

Mas eu disse, quase totalidade do jornalismo piauiense. Há honrosas exceções.

Sávia Barreto, do portal oitomeia, é uma jornalista profissional de coragem. Assume posições (no caso aqui, o feminismo) e as defende com argumentos fortíssimos.

Antenada com os acontecimentos do mundo analisa os fatos que ocorrem no Piauí com propriedade traduzindo tudo isso num texto enxuto e claro.

Ontem, Sávia noticiou a palestra programada para 23 próximo, aqui na capital do Piauí, com o tema “Feminismo: subversão e perversão”, que será proferida pela professora e deputada estadual por Santa Catarina, Ana Caroline Capagnolo (PSL).

Ana Caroline, ficou famosa em todo o país ao incentivar a denúncia de “professores doutrinadores”. Ela propõe que alunos em sala de aula, gravem professores que façam doutrinação. À esquerda, é claro.

Mas Sávia Barreto foi ao cerne do problema.

Ela denunciou os patrocinadores da palestra, no caso, o direitista jornal Diário do Povo e a Pintos – magazine da cidade.

Como o jornalismo do Piauí conta com alguns profissionais como é o caso de Sávia Barreto, há esperanças…

Pintos e Diário do Povo patrocinam palestra de deputada em Teresina associando feminismo à perversão

Foto: Sávia BarretoSávia Barreto
Sávia Barreto
Foto: Sávia BarretoSávia Barreto
Sávia Barreto



Uma das maiores empresas no ramo de roupa, calçados e eletrodomésticos do estado, a Pintos, e o jornal Diário do Povo, com linha editorial de direita e cujo dono concorreu ao Governo do Estado pelo partido do presidente Jair Bolsonaro, são os patrocinadores de uma palestra da professora de História e deputada estadual eleita pelo PSL em Santa Catarina, Ana Caroline Capagnolo, que deve ocorrer no próximo dia 23 de março em Teresina, no auditório do Metropolitan Hotel, no Centro da capital. A palestra chama-se: “Feminismo: subversão e perversão”, com taxa de inscrição de R$ 25.

O tradicional colégio de classe média em Teresina, Objetivo, que teve o nome divulgado em folders que circularam pelas redes sociais e grupos de Whatsapp como patrocinador do evento, procurou esta colunista para informar que não tem qualquer relação com a palestra. Segundo a empresa, através de sua assessoria de marketing, a escola faz parte de uma rede nacional que não pode associar a imagem a eventos. Questionado se acreditam que tiveram a marca associada a fim de prejudica-los, a assessoria respondeu que sim e que já está rastreando para saber quem supostamente teria feito uso indevido da logomarca da empresa. O Objetivo informou ainda que 60% das colaboradoras da empresa são mulheres.

Um dos lados positivos de estarmos numa democracia é a possibilidade de convivermos num ambiente de ideias plurais. Empresas – ou melhor, seus proprietários – podem posicionar-se politicamente sem sofrer quaisquer restrições do Estado e isso é ótimo. Mas o público… esse pode e tem todo o direito de deixar de consumir onde os valores daquele estabelecimento se chocam com os ideais pessoais. Por isso, é preciso ter cautela a quem se dá palco, ou melhor, patrocínio. Não parece uma decisão sensata comercialmente associar o nome de uma marca a um conteúdo extremamente polêmico e controverso, como, por exemplo, ofender feministas relacionando-as à perversão.

Até porque, vale lembrar, o Piauí é o estado onde o candidato do Partido dos Trabalhadores para presidente da República, Fernando Haddad, obteve maior vantagem sobre o candidato do Partido Social Liberal, Jair Bolsonaro. Haddad venceu em todas as cidades do estado, com 77,05% dos votos. Ou seja, o estado é minoritário na política pela corrente conservadora, mesmo que admita-se ter significativas raízes conservadoras em pautas morais – especialmente pela maioria de sua população católica.

Além disso, quando se sabe que o Piauí é um dos estados com a maior taxa de feminicídios do país e que as várias correntes do feminismo trabalharam justamente para permitir a criação de leis mais duras contra a violência sofrida pelas mulheres e ainda em prol de políticas públicas que permitissem às mulheres receberem salários iguais aos dos homens e a votar e serem votadas, parece contraproducente que empresas não ajudem, por exemplo, com patrocínios de campanhas para esclarecer sobre os direitos das mulheres, preferindo, por outro lado, adotar caminhos ideológicos segregadores ao invés de agregadores.

Para quem não lembra, a palestrante Ana Caroline é a deputada alvo de uma ação ajuizada pelo Ministério Público de Santa Catarina para garantir o direito dos estudantes de escolas públicas e particulares do Estado à liberdade de aprender. Isso porque Ana Caroline Capagnolo, publicou no final do ano passado, em suas redes sociais, um pedido para que os alunos filmem condutas de professores, que segundo ela, fazem doutrinação partidária. Na ação, o MP considera a iniciativa da deputada eleita “um serviço ilegal de controle político-ideológico da atividade docente”.

Se algumas tantas mulheres que consomem os produtos da Pintos ou compram o jornal Diário do Povo que são feministas e não gostarem da associação da empresa com o patrocínio a uma exposição cujo argumento principal as ofendem, podem com toda justiça fazer um boicote e parar de investir seu dinheiro nos tais estabelecimentos. Essa é a lógica capitalista.