Erundina: “Eu me casei com a política e até hoje estou nessa, porque o sonho não envelhece”

A ex-prefeita da capital está perto de completar 86 anos e fala sobre sua relação com a política e a nova fase na chapa com Guilherme Boulos

Foto: Jovem PanLuiza Erundina (PSOL)
Luiza Erundina (PSOL)

Perto de completar 86 anos de idade, Luiza Erundina chegou a anunciar que não disputaria mais cargos eletivos, mas mudou de ideia com o convite para ser vice de Guilherme Boulos na candidatura do PSOL à prefeitura de São Paulo. Tornou-se uma peça central na campanha.

A bordo de seu “Cata-Voto”, uma espécie de Papa Móvel, onde a deputada se protege do coronavírus por uma cúpula de acrílico, ela percorreu numerosos bairros da periferia para conversar com os eleitores e pedir votos.

“Os sonhos não envelhecem”, diz a candidata, que enfrentou muito preconceito ao eleger-se prefeita de São Paulo em 1988 e, agora, vê seu colega de chapa ser associado ao radicalismo por adversários.“Como eles não tem muita coisa a dizer sobre o Boulos, apelam para essas falácias. Dizem que ele é radical, vai tomar a casa dos outros. Na minha época, foi pior. Imagina, uma mulher, nordestina e pobre, no comando da cidade mais rica do País… Só faltou eu ser negra para completar o combo da exclusão. A reação foi feroz. Chegaram a mandar cartas com fezes para a prefeitura, e não foi só uma vez não”.

Em seu sexto mandato na Câmara dos Deputados, Erundina não poupa elogios ao jovem colega de chapa.“Boulos é uma liderança que veio para ficar, e não apenas em São Paulo. É uma liderança para o País”, afirma.

“Na escassez de quadros políticos com uma visão mais global, mais sistêmica, mais política no sentido pleno do termo, ele é um desses. Não sei se tem mais outro, não”, destaca Erundina.

Confira na íntegra a entrevista concedida à Carta Capital:

CartaCapital: Nos debates, Covas costuma associar Boulos ao radicalismo. Como descontruir essa visão?

Luiza Erundina: Vamos mostrar quem é Boulos, ele não apareceu na política agora. Ainda muito jovem, ele fez uma opção radical na vida dele, que foi largar uma família de classe média alta, seus pais são médicos, bastante conhecidos, com um padrão de vida de muita qualidade, para conviver com os sem-teto e ajudar a organizar esse movimento. Mesmo sem ter o poder da caneta, Boulos conseguiu viabilizar a construção de 23 mil unidades habitacionais, por meio de sua luta no MTST. É uma demonstração prática que ele tem sensibilidade social, foi formado desde jovem na relação com o povo, com a consciência de que esse povo não tem garantia de seus direitos de cidadania, direitos sociais, direitos humanos.

CC: Por que é tão importante ter sensibilidade social para governar?

LE: Veja o que acontece com a população periférica agora. Uma pesquisa recente revelou que 1 milhão de famílias paulistanas têm renda de menos de meio salário mínimo. Veja o sofrimento dessas pessoas, que são as principais vítimas da pandemia. O maior número de mortes por coronavírus se deu exatamente nessa população pobre e periférica. Boulos é uma pessoa testada da luta do povo, com reais compromissos na luta pelos direitos sociais, pelos direitos humanos.

Esse radicalismo que querem associar a ele é preconceito, é o único “defeito” que eles têm para apontar. Boulos não é radical, é uma pessoa clara nos seus propósitos, concreta nos seus compromissos, com sólida formação intelectual. Repare: ele tem dois cursos na USP e está absolutamente dedicado a população mais pobre, não só de São Paulo, mas do Brasil, porque o movimento está espalhado pelo País todo. É professor, lecionou em escolas públicas, em cursos de alfabetização para jovens e adultos da periferia da cidade. Isso há muito tempo, não é de hoje.

CC: É possível virar o jogo no segundo turno?

LE: Sem dúvida. Boulos tem carisma, preparo, vontade de mudar a realidade social. Um jovem de 38 anos, com essa formação, com essa experiência de vida, não pode ser diferente a frente do governo de uma cidade do porte de São Paulo. Estou muito confiante. Temos uma militância aguerrida, que fez a diferença, pois praticamente não tínhamos tempo algum na televisão. Falar por 17 segundos não provoca alguma mudança na percepção dos eleitores. Mesmo assim, a campanha seguiu forte.

Passamos para o segundo turno, e não por uma margem estreita. Agora, teremos o mesmo tempo na tevê para falar à população, dez minutos por dia. Podemos apresentar a nossa proposta, que é muito melhor para a cidade, além de contar com um apoio social muito mais amplo que a desse prefeito, que fica preso ao governador João Doria, à direita, ao bolsonarismo. O povo já sofreu demais por conta desses governos atrasados, conservadores. E o tucanato já está passando além da paciência do povo.

CC: Covas também tem insistido em dizer que Boulos não tem experiência administrativa.

LE: Quando assumi a prefeitura, eu também não tinha experiência administrativa, mas tinha uma equipe de altíssimo padrão. Paulo Freire na Educação, Paul Singer no Planejamento, Eduardo Jorge na Saúde, Marilena Chauí na Cultura, Lúcio Gregori nos Transportes, Paulo Sandroni na Economia. Enfim, tínhamos um ministério dos sonhos, que nenhum outro governo brasileiro teve.

Era uma equipe muito qualificada e tínhamos um governo descentralizado. Ou seja, eu delegava pra valer. Não ficava interferindo nas políticas específicas de secretários tão capacitados. Atuava como uma condutora, que unificava a ação de governo na direção que havia sido estabelecida, de um governo democrático, com efetiva participação popular. Invertemos prioridades, investimos durante os quatro anos mais de 50% do orçamento em políticas sociais, de educação, de saúde, de saneamento básico, de moradia popular. Deixamos mais de 150 mil pessoas com seus problemas habitacionais resolvidos, por meio de mutirões de construção, que reduziram os custos das obras em 40%. Muitas das políticas que criamos à época ainda são consideradas de referência para muitos governos, e não apenas os da esquerda.

CC: Como lidar com o preconceito que existe em setores da sociedade contra os sem teto?

LE: Já estamos desconstruindo essa visão preconceituosa. Como eles não tem muita coisa a dizer sobre o Boulos, apelam para essas falácias. Dizem que ele é radical, vai tomar a casa dos outros. Na minha época, foi pior. Imagina, uma mulher, nordestina e pobre, no comando da cidade mais rica do País… Só faltou eu ser negra para completar o combo da exclusão. A reação foi feroz. Chegaram a mandar cartas com fezes para a prefeitura, e não foi só uma vez não. Mas é possível vencer esse preconceito e seguir em frente.

CC: A senhora acredita que o Boulos emerge, nessas eleições, como um novo líder do campo progressista?

LE: Sem dúvida. Boulos é uma liderança que veio para ficar, e não apenas em São Paulo. É uma liderança para o País. Na escassez de quadros políticos com uma visão mais global, mais sistêmica, mais política no sentido pleno do termo, ele é um desses. Não sei se tem mais outro, não. E o melhor: Boulos não tem aquela arrogância dos líderes. É uma pessoa modesta, simples, que convive fraternalmente com todos. É um homem do povo, empoderado pela sua formação e pelo seu compromisso com o povo. Mas eu não acredito que ele vai só marcar posição nessa eleição, não. Se Deus quiser e o povo ajudar, ele vai vencer e vamos fazer um governo à altura de São Paulo, das expectativas dos paulistanos.

CC: De certa forma, houve uma nacionalização do debate eleitoral. A senhora acredita que o resultado das eleições municipais terá influência em 2022?

LE: Em muitas cidades, e particularmente em São Paulo, isso é um fato. Tanto que Bolsonaro e outros políticos com pretensões de disputar as eleições presidenciais em 2022 apadrinharam candidatos em São Paulo, no Rio de Janeiro e em várias outras capitais. De certa forma, as eleições municipais alteram a correlação de forças no Brasil.  A nossa campanha, mesmo, está repercutindo no País inteiro. Vejo muita gente de outras cidades, de outros estados, acompanhando a disputa paulistana. O pessoal está interessado, recebo muitas perguntas.  “Como está a campanha? Qual é a perspectiva em São Paulo?”

Fizemos uma campanha criativa, inovadora, alegre. Por alguns momentos, as pessoas puderam sair das cinzas que estão colocadas no ambiente, com esse sentimento de perda, de mais de 160 mil mortos em uma pandemia que poderia ter sido minimizada grandemente, sem falar das consequências que virão depois, com desemprego em massa. Nesse contexto, nossa campanha trouxe esperança, fazendo as pessoas de novo acreditarem na política, como um meio de mudar a realidade, isso não é pouca coisa.

CC: A senhora faz parte do grupo de risco do coronavírus. Mesmo assim, empenhou-se na campanha, percorreu numerosos bairros a bordo do seu “Cata Voto”. De onde vem tanta energia?

LE: É um sonho que eu tenho. Sou nordestina, nasci na Paraíba em uma região de seca brava, em uma família de dez filhos. A cada seca que vinha, meu pai levava a gente para algum lugar desse país, nas mesmas condições que Graciliano Ramos descreve no livro Vidas Secas, é aquilo lá. Tem um ditado do Nordeste que diz: filho de pobre, quando não morre no primeiro ano de vida, é forte e dura muito. Sou uma pessoa forjada no sofrimento, na pobreza, na dor, nas perdas de irmãos por subnutrição. Tomei consciência muito precocemente das desigualdades, das injustiças sociais. Graças à generosidade de uma tia, que me acolheu em São Paulo, tive a oportunidade de estudar. Queria fazer o curso de medicina, mas as condições não permitiram. Depois de nove anos sem estudar, iniciei a faculdade de Serviço Social e já me meti na política.

Como assistente social, fui trabalhar com os camponeses do Nordeste. Acabei expulsa de lá pela ditadura, porque me juntei à luta dos camponeses pela reforma agrária. Voltei para São Paulo, fiz concurso e entrei na prefeitura. Fui trabalhar nas favelas e nos cortiços. Aqui, como lá, a terra e a renda não eram divididas de forma justa. Então, eu me casei com a política e até hoje estou nessa, porque o sonho não envelhece. Na verdade, o sonho não cabe em uma vida, ele vai para a geração seguinte. Talvez não o mesmo sonho, mas esse compromisso de mudar a realidade. A história se constrói dessa forma. A velhice não é doença, não é defeito. A velhice é um estágio de vida, no qual você tem a oportunidade de viver plenamente aquilo que aprendeu ao longo dos anos. Por isso, eu tenho essa energia e pretendo lutar até o fim.