Diretora da série fala das impressões sobre a mulher Elize Matsunaga

Eliza Capai falou sobre as filmagens, o machismo no caso e as impressões sobre a mulher que matou e esquartejou o marido

Foto: Redes sociaisEliza Capai, diretora de “Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime”
Eliza Capai, diretora de “Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime”


Fórum- A estreia da série “Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime”, no último dia 8 de julho, na Netflix, tem causado discussões acaloradas, sobretudo nas redes. Internautas, críticos, formadores de opinião entre tantos outros tomam partido sobre a mulher que cumpre pena em Tremembé, após confessar ter matado e esquartejado o marido, o milionário Mário Yoki Matsunaga, em 2012.


Ao caminhar sobre uma linha tênue, de onde poderia cair na tentação de pender para um dos lados, a documentarista Eliza Capai, autora de “#Resistência”, de 2017, e “Espero tua (Re)volta”, de 2019, os dois sobre o movimento estudantil no Brasil – filmes onde curiosamente ela assume uma posição –, conseguiu a proeza rara de se manter no centro dos acontecimentos sem se envolver.

Com a mesma firmeza jornalística com que realizou a série de quatro episódios, onde o espectador não desgruda os olhos enquanto não chega ao fim, Eliza respondeu às perguntas da Fórum sobre machismo, relacionamento tóxico, porte de armas e outros fatores que envolveram o caso.

Além disso, ao final, ela também conta suas impressões sobre sua personagem principal. Leia a seguir:

Revista Fórum – Como você chegou à história da Elize Matsunaga e o que te levou a ter vontade de fazer a série?

Eliza Capai – Na verdade, essa história chegou até mim. Eu estava trabalhando dentro de um centro de detenção no Espírito Santo, com homens que aguardavam julgamento por feminicídio e pela lei Maria da Penha. Estava ainda no processo do lançamento do “Espero Tua (Re)volta”, que a Fórum acompanhou bem, e nesse momento eu recebi um convite do Gustavo Mello, produtor executivo da Boutique Filmes, para dirigir a série. Eu achei muito interessante a oportunidade de falar não apenas com as vítimas, como eu venho fazendo em geral no meu trabalho como documentarista, mas também com algozes de violências.

Revista Fórum – Na última segunda-feira (12), o nome de Eliza Matsunaga amanheceu nos TT’s por conta do seu documentário. Como sempre nas redes, muita gente criticando e muita gente elogiando, sobretudo mulheres. Uma delas escreveu o seguinte: “Pra mim, Elize Matsunaga esquartejou o marido sozinha sim, mas se ela precisasse de ajuda, eu estaria lá”. Até que ponto você acha que sua série pode vir a ser interpretada como uma forma de justificar o crime?

Eliza Capai – Tenho acompanhado os debates nas redes, que estão bem acalorados. Alguns me deixam feliz: gosto de ver as pessoas usando a série para discutirem relações tóxicas, machismo no noticiário, o próprio sistema penal, que são temas que a gente precisa debater enquanto sociedade. São temas que nos ajudam a entender por que este país é tão violento, por que acontecem tantos crimes no Brasil e tantos dentro de casa. O caso da Elize é uma inversão porque é um crime que acontece dentro de casa, onde geralmente é o homem que mata a mulher. Já os comentários que falam sobre justificar o crime me espantam. Esse crime não se pode justificar. O nosso esforço na série foi sempre colocar os dois lados – há um equilíbrio muito grande entre defesa e acusação. Ver defesas da violência é algo muito duro. 

Revista Fórum – A série é muito criteriosa no espaço que dá para defesa e acusação. Sob este ponto de vista é um excelente trabalho jornalístico. Você como mulher não se inclinou, em momento algum, a acreditar que ela fez o que fez apenas por ser vítima de um relacionamento tóxico?

Eliza Capai – Quando eu comecei a série eu estava trabalhando dentro de um centro de detenção com homens que aguardavam julgamento por violência contra a mulher. Eu estava dando uma oficina de vídeo dentro do edital Rumos, do Itaú Cultural, e nosso objetivo enquanto oficina de vídeo era trazer reflexões sobre protagonismo e sobre a curva dramática, partindo dos filmes e refletindo na vida deles. Mas eu também tinha um interesse pessoal em entender o algoz. Eu não tinha a intenção de julgar esses homens. Eu não sinto que cabe a mim como documentarista julgar as pessoas. Cabe escutar, ouvir vozes diferentes. Como você pontua, ouve uma preocupação grande em dar espaços semelhantes a defesa e acusação e a editar todas as entrevistas de forma respeitosa, para que cada pessoa se reconhecesse no que ela mesma disse. E acho que conseguimos isso. Acho que há uma confusão entre ser mulher e ser feminista, e defender mulher. O meu feminismo é a luta por uma sociedade mais igualitária. E mais igualitária não tem nada a ver com ser revanchista, é inclusive o oposto disso. Eu tentei sempre olhar com empatia para os entrevistados. Uma das mais desafiadoras entrevistas foi com o Flavio amigo do Marcos – foi catártico, pois era a primeira vez que ele falava para uma câmera sobre esse grande trauma na vida dele. Foi um grande desafio editar ali para que ele se sentisse reconhecido nos sentimentos dele. Acho que vale ressaltar, que as mesmas pessoas podem ser vítimas ou algozes, dependendo do momento de suas vidas e do seu ponto de vista. O que a gente tenta mostrar é que a situação da Elize é mais complexa do que parece. Ela cometeu um crime bárbaro e injustificável que vai ficar ecoando para sempre nas pessoas envolvidas e em suas próximas gerações. Mas ninguém que comete crimes na nossa sociedade é apenas o crime que cometeu. E, se queremos uma sociedade com menos crimes, e esse é um objetivo meu enquanto documentarista, a gente precisa entender como as pessoas chegam a cometer crimes. Não para justificá-los, mas para entender como a gente muda a própria dinâmica da sociedade. Como a gente passa a ter adultos mais saudáveis, que consigam por exemplo sair de relações tóxicas antes de matar ou antes de morrer. Para saber fazer isso a gente precisa escutar.

Revista Fórum – A série mostra o tanto que a Justiça brasileira é machista ou, pelo menos, foi no caso em si. Você acha que isso colaborou para a dosimetria da pena ou é apenas mais um detalhe relevante a ser abordado?

Eliza Capai – Não diria que houve essa tentativa de mostrar que a justiça é machista. A gente mostrou o julgamento. E o simples observar isso está fazendo o público ver o quanto a justiça brasileira é machista. Infelizmente ela é, no presente. A série fala de um tempo já passado, mas se observarmos os casos que se desenrolam neste momento, isso segue ocorrendo. A recepção do público é de um olhar crítico para essa situação. Em outro tempo, talvez isso pudesse não ter sido notado.

Revista Fórum – A série deixa claro em vários momentos que tanto Elize quanto o marido eram excêntricos, expressão usada inclusive por uma das pessoas entrevistadas. A quantidade de armas pela casa, a cena da cobra comendo o rato, as caçadas, o corte dos animais e a consequente receita de cordeiro apontam para tal. Um crime, seja de que lado, era um risco iminente naquela casa?

Eliza Capai – Não tenho a menor ideia se o crime era iminente na casa e acho que casais excêntricos podem ser muito saudáveis. Mas é comprovado que o porte de armas em casa aumenta a periculosidade das situações. A própria Elize coloca isso dizendo que uma briga que poderia ser só um bate-boca, pode se transformar numa morte. Eu acho que ter cobras e hobbies excêntricos é uma coisa, já ter arma em casa é algo que todas as pessoas que prezam e têm respeito pela vida, que desejam continuar a ter seus entes amados vivos, deveriam repensar essa presença no lar.

Revista Fórum – Você conviveu com a personagem, perguntou, deve ter conversado muito, enfim, qual a sua impressão? O que te surpreendeu nela?

Eliza Capai – O que mais me surpreendeu nela foi que ela gosta muito de ler. Elize fala muito na dificuldade destes últimos anos na prisão, mas também como ela tem sobrevivido lá dentro por meio dos livros, os de história principalmente. E achei superinteressante isso, conversamos bastante sobre os livros que ela estava lendo.

Revista Fórum – Há um personagem dentre todos, sobretudo homens muito machistas, que pareceu ser um tanto mais sensato, que é um dos amigos do Marcos Matsunaga, o Flávio. Ele serviu, de certa forma, como um ponto de equilíbrio da sua narrativa ou foi só impressão?

Eliza Capai – Foi uma das entrevistas mais fortes do documentário, trouxe um olhar muito humano e muito sensato sobre a relação dos dois (Elize e Marcos), e sobre os ecos que o crime deixou na vida da família, principalmente das filhas do Marcos. E mesmo com a dor e trauma terrível que ele sofreu, ele conseguia empatizar com a situação e com a própria Elize. Fiquei surpresa. Aquela entrevista me deu um senso de responsabilidade, que eu já tinha, mas ficou ainda mais latente, de como contar essa história de uma forma muito respeitosa com as vítimas do crime.

Revista Fórum – A Elize Matsunaga tem atualmente um caso amoroso com uma mulher trans no presídio de Tremembé. Por que isso ficou de fora da série? 

Eliza Capai – A gente fez uma série de uma mulher que teve sua vida devassada, principalmente no que concerne à sua vida sexual. E estamos falando de um caso que utilizou a mesma estrutura do machismo, usada em casos de feminicídio, que é vasculhar o passado da vítima para buscar uma justificativa, em geral relacionada com o sexual, que justifique (entre muitas aspas) aquele crime. Essa mesma estrutura de defesa machista foi aplicada contra o Marcos. Vasculharam o passado dele para buscar uma justificativa para que ele fosse morto. Seja a vítima homem ou mulher, é um mecanismo muito cruel. E queríamos deixar claro na série como esse sensacionalismo permeou o caso. E se queríamos fazer isso como crítica, não podíamos cair nesse mesmo lugar. 

Com quem Elize se deita ou não hoje não nos ajuda nada a entender por que ela cometeu um crime, por que se comete crimes, quais as consequências disso e como se muda a sociedade.

Eu pessoalmente não consigo entender como o jornalismo gasta energia e tempo para vasculhar a vida de celebridades, seja do mundo criminal ou artístico, falando com quem a pessoa dorme. Se nos preocupássemos menos com quem o outro dorme e mais com nossas próprias vidas afetivas, tentando deixá-las mais saudáveis e gostosas, o mundo seria um lugar bem mais interessante.