Bolsonaro muda o estilo e começa a fazer política como gente grande

Esta mudança de rumo tem a ver com certa reclusão após o anúncio da contaminação por Covid19

Foto: O GloboPresidente Jair Bolsonaro faz pronunciamento enlouquecido
Presidente Jair Bolsonaro 

 


Por Rudá Ricci, cientista político, diretor-geral do Instituto Cultiva em Minas Gerais

Bolsonaro está alterando seu modo de fazer política. Esta mudança de rumo tem a ver com certa reclusão após o anúncio da contaminação por Covid19. A reclusão parece ser um freio de arrumação no seu estilo. Foi assim nas eleições.
Jair é um rebelde. Desde o exército, quando quase foi expulso. Como deputado era da turma do fundão, do baixíssimo clero. Não conseguia fazer campanha nas instalações das FFAA. Tudo registrado. Acabou adotando o estilo histriônico, uma mistura de Datena com Bolinha (aquele apresentador de programas de auditório que usava as camisas mais chamativas de toda 25 de Março).

Este estilo faz sentido como parlamentar porque o descola - o nome disso em marketing é "posicionamento" - do conjunto de parlamentares. Ajuda um pouco em eleição, mas como governante, tem vida curta. Não funciona totalmente em eleição porque é preciso dizer o que se quer fazer e não só aparecer. De certa maneira, Bolsonaro falou para agrupamentos específicos, empregando os algoritmos ao estilo Cambridge Analytics. Mas, teve que fugir dos debates para não frustrar.
No governo, só fez cair. Seu estilo amalucado atrai fanáticos, mas, em meio à mais profunda crise sanitária dos últimos 100 anos, tem que ir além do personagem que dá cloroquina para emas.

Percebendo o que parece ser um certo fôlego com a ajuda emergencial de 600 reais, partiu para se antecipar à crise social que, segundo o IBGE, já atinge 40,5 milhões de brasileiros que estão sem emprego. O DIEESE aponta 70 milhões em situação precária. E é só o começo. 

Já expliquei aqui que a antecipação à um ataque ou situação crítica se chama em política de "vacina": você acaba anulando um ataque futuro. É o que Bolsonaro parece estar fazendo. Está adotando o figurino que FHC e Lula adotaram, usando chapéu de couro e se atirando no Nordeste. Não tem muito o que perder: trata-se da região que o rejeita. Se conseguir melhor algum índice, já terá melhorado seu desempenho político. Seria a "gordura" para enfrentar o deserto áspero da crise social que começou agora e deve atingir seu ápice nas eleições municipais.

A situação parece confortável na medida em que a esquerda e a oposição ao bolsonarismo parecem andar para o lado.

Perderam todo protagonismo, se jogam na preparação das eleições municipais e parecem ter desistido do enfrentamento direto. Assim, o cenário está propício para Bolsonaro alterar seu estilo: ao invés de uma briga por dia (orientação dos "engenheiros do caos"), procura ocupar espaços vazios ou até minados, criando a gordura que poderá ser queimada no próximo semestre, mantendo-o competitivo.

Que fique claro: parece ser uma boa percepção política do momento. Um momento em que Congresso Nacional e STF parecem ter arrefecido a ofensiva contra o bolsonarismo e a oposição se recolheu às eleições municipais.