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Autismo: Amom Mandel quer ser o primeiro prefeito declaradamente autista em Manaus

Segundo colocado nas pesquisas eleitorais, Mandel foi eleito vereador aos 19 e deputado federal, aos 21 anos.

Foto: Reprodução/XAmom Mendel quer ser o primeiro prefeito autista numa metrópole
Amom Mandel quer ser o primeiro prefeito autista numa metrópole

Amom Mendel Lins Filho nasceu no Recife em 2001, mas foi mesmo no Amazonas, aonde chegou aos cinco anos de idade, terra natal de sua mãe, a juíza Elza Vitória de Sá Peixoto Pereira de Mello, em que ele cresceu. Em Manaus, Amom coleciona feitos impressionantes: foi eleito o vereador mais jovem da história da capital amazonense, aos 19 anos.

Em 2022, foi o momento de dar um novo passo em sua carreira política e desta forma, foi eleito Deputado Federal pelo Amazonas, sendo o candidato mais votado no estado e com a maior votação proporcional de todo o Brasil, com 14,5% dos votos contabilizados.

Um fenômeno eleitoral desta abrangência não passaria incólume pelos becos mais imorais da política brasileira e, ao aparecer bem cotado nas pesquisas para prefeito de uma metrópole de 2 milhões de habitantes, Amom foi atacado por sua condição autista. Diagnosticado desde os 14 anos, Mendel argumentou que isto não é um obstáculo para o desempenho político.

“Não só é possível [que Manaus seja administrada por uma pessoa autista] como está na hora do Brasil provar isso. Eu tenho certeza que ser autista não me diminui na minha capacidade, em relação a qualquer outra pessoa. Pelo contrário. Obviamente que nem todo autista é igual. Tem autistas que têm deficiências na fala, que têm deficiências no aprendizado. As pessoas têm muito preconceito hoje com que é autista, no Brasil. Eu quero quebrar isso”, disse ele em entrevista ao Estado de São Paulo.

No cotidiano, algumas nuances vêm à tona. Em entrevista ao Radar Veja, Amom Mendel revelou que tem dificuldade com sons muito estridentes e que utiliza um redutor de ruído auricular e um fone de ouvido durante as sessões da Câmara para se desvencilhar de ânimos mais exaltados. No Parlamento, o jovem deputado se senta mais ao lado para não ser pego de frente pelo som alto. Ele se utilizou da terapia e da estratégia denominada “masking”, para “esconder” determinados comportamentos considerados atípicos, o que exige um gasto exorbitante de energia.

Amom acredita que o outro lado do autismo, o hiperfoco, é um aliado voraz em sua jornada política. Desta maneira, o parlamentar já esteve diante de documentos e temas de interesse durante 12 horas sem cansar.

De acordo com a pesquisa do mês de abril divulgada pelo Paraná Pesquisas, Amom aparece com 25,9% das intenções de voto para a prefeitura de Manaus, atrás somente de David Almeida, com 29,3%.

Brasil

Em 2008, a ONU instituiu o 2 de abril como o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. O estudo “Retratos do Autismo no Brasil em 2023” publicado a partir da parceria entre a Genial Care e a Tismoo.me levantou, a partir da coleta de dados quantitativos que o Brasil pode ter até 6 milhões de pessoas com Transtorno do Espectro Autista no Brasil, o que representa 13,8% da população. Estes são números altos ao se levar em conta que, de acordo com a ONU, 1% da população mundial está no espectro do autismo – os números já estão defasadas e constam de uma década atrás. 65% das pessoas se identifica como gênero feminino, e a maioria elas está na faixa etária entre 2 e 34 anos.

O que é o Transtorno do Espectro Autista?

Com estimativas tão altas quanto ao número da população brasileira que pode estar no espectro autista, o pensarpiauí procurou a psicóloga clínica Andressa Barros. Ela, que atende pessoas adultas enquadradas no TEA afirma que "o transtorno recebe o nome de espectro por englobar diversas características que diversas pessoas podem apresentar ou não". E que a discussão ainda é extremamente estigmatizada no Brasil por falta de pesquisas e dados. 

"O autismo atualmente é dividido em três níveis. No primeiro, a pessoa precisa de apoio, mas não tanto; no nível dois exige apoio substancial; e no nível três exige apoio muito substancial. Porém, com tratamentos adequados, psicoterapia, com tratamento fonoaudilógico. Em níveis mais leves, porém, muitas vezes sequer é perceptível", avaliou. 

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