Alta do leite atinge 57,4%, e empata com a taxa de rejeição a Bolsonaro

O leite longa vida já é vendido a R$ 10 em alguns mercados do país, transformando o produto em "item de luxo"

Foto: DivulgaçãoAlta do leite
Alta do leite

Por Leonardo Sakamoto, jornalista, no Facebook

O preço do leite longa vida subiu 57,42%, desde o início do ano, e 22,27%, no último mês, segundo o IPCA-15, divulgado pelo IBGE na quarta (27). Com isso, puxou para cima a inflação dos mais pobres, que gastam boa parte dos seus recursos em alimentação, em um momento em que a inflação deu uma trégua para outras classes sociais. A notícia é um pepino para a campanha de Jair Bolsonaro - aliás o pepino também disparou, com alta de 15,31% em um mês.

O presidente vem tentando reduzir a larga vantagem do ex-presidente Lula entre quem ganha até dois salários mínimos. Para tanto, patrocinou a PEC da Compra de Votos, com a liberação de recursos para o aumento do Auxílio Brasil, mas apenas entre agosto e o final do ano. De acordo com a pesquisa XP/Ipespe, divulgada nesta segunda (25), o petista vence o candidato do PL por 51% a 28% nesse grupo social.

E enquanto a rejeição a Lula é de 43%, Bolsonaro marca 15 pontos a mais: 58% - ironicamente, a mesma taxa da alta do leite. A margem de erro do levantamento é de 3,2 pontos. Os números são semelhantes aos da pesquisa BTG/FSB, que veio à luz no mesmo dia: Lula tem 42% de rejeição e Bolsonaro, 58%. Margem de erro, dois pontos.

A divulgação do IPCA-15, a prévia da inflação de julho, nesta quarta (27), trouxe um alívio para motoristas profissionais, entregadores e principalmente a classe média, com a redução dos preços nos combustíveis. Por conta disso, o índice fechou em 0,13%. Mas se considerarmos apenas os alimentos e bebidas, a inflação acelerou 1,16%.

O leite longa vida já é vendido a R$ 10 em alguns mercados do país, transformando o produto em "item de luxo". Mais do que isso, em moeda de troca.

Leite em pó distribuído gratuitamente pela Prefeitura de São Paulo para famílias de estudantes pobres aparece sendo vendido em grupos no Facebook, segundo reportagem de Henrique Santiago, no UOL. Há também quem tente trocar pacotes de leite por arroz e feijão.

A alta do leite conta com fatores sazonais e climáticos (estamos na entressafra de inverno e a estiagem veio mais dura, o que prejudicou a qualidade das pastagens, reduzindo a oferta de leite). Mas também há o impacto da inflação nos custos de produção, que vão da alimentação das vacas, passando pelo custo de medicamentos e fertilizantes até o combustível usado na produção, processamento e transporte do produto.

É difícil prever o impacto eleitoral do aumento dos benefícios sociais pelo governo federal em um espaço curto de tempo - no caso do auxílio emergencial, ele demorou meses para decantar na opinião pública. E como esta coluna vem frisando, mesmo que a inflação dê uma trégua, a persistência dos preços dos alimentos em um patamar tão alto como o atual reduz o potencial eleitoral do Auxílio Brasil a R$ 600.

Não significa, contudo, que Bolsonaro não consiga reduzir alguns pontos na distância para Lula com ele, principalmente nas regiões Nordeste e Norte e nas periferias das cidades.

O governo federal negou propostas do Congresso para garantir R$ 600 aos brasileiros mais vulneráveis no ano passado, quando a fome estava escalando. Negou em nome das contas públicas. Agora, corre para pagar esse valor a tempo de transformá-lo em votos atropelando exatamente as contas públicas.

A fome dos mais pobres, do qual a falta de leite é um dos elementos mais simbólicos, tornou-se no Brasil de 2022 um ativo eleitoral relevante. Resta saber se os famintos vão cair no golpe.

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