Advogada aponta Bolsonaro e Prevent Senior como sócios de esquema da morte

É o que afirma o depoimento de Bruna Morato, que representa 12 médicos que trabalhavam para a empresa

Foto: Tv SenadoAdvogada diz que Prevent e médicos do 'gabinete paralelo' fizeram 'pacto' por cloroquina
Advogada diz que Prevent e médicos do 'gabinete paralelo' fizeram 'pacto' por cloroquina


Por Leonardo Sakamoto, jornalista, no Facebook

A Prevent Senior e o governo Bolsonaro foram sócios de um esquema da morte. É isso o que reforça o depoimento da advogada Bruna Morato, que representa 12 médicos que trabalhavam para a empresa, à CPI da Covid, nesta terça (28).

Ela apontou que o plano de saúde, acusado de usar seres humanos como cobaias em experimentos não autorizados e de alterar prontuários e atestados de óbitos de pacientes para retirar a covid-19 como causa, foi uma peça fundamental na política do governo brasileiro para tentar convencer a população a voltar à normalidade mesmo com a mortalidade trazida pela pandemia.

Afinal, os comprimidos de remédios ineficazes para covid-19, como cloroquina, ivermectina e azitromicina, protegeriam a todos. Uma mentira mortal.

Essa política, segundo Morato, se alinhava a interesses do Ministério da Economia, que precisava de uma justificativa "científica" a fim de evitar o fechamento de atividades e impedir uma retração do PIB e do emprego. Buscou-se construir a hidroxicloroquina como essa tábua de salvação.

O esquema contou com a intermediação do chamado Gabinete Paralelo do Ministério da Saúde, encabeçado por negacionistas como os médicos Nise Yamaguchi, Paolo Zanotto e Anthony Wong. Este último, inclusive, faleceu de covid apesar do uso do "tratamento precoce". De acordo com as denúncias, teve seu prontuário manipulado pela Prevent Senior para evitar danos à imagem desses medicamentos.

Bolsonaro e os ministros da Saúde Eduardo Pazuello e Marcelo Queiroga sempre afirmaram que não poderiam ir contra a autonomia dos médicos em receitar hidroxicloroquina e ivermectina. Mas o plano de saúde fez isso por eles. Segundo Bruna Morato, os médicos eram obrigados a prescrever o "kit covid". Algumas vezes, a prescrição já chegava pronta de cima.

A empresa também é alvo de investigações no Ministério Público e na Polícia Civil por conta das denúncias.


Técnicas abomináveis do plano de saúde foram úteis à narrativa de Bolsonaro

A Prevent Senior, com seus experimentos manipulados e técnicas que quase poderiam ser adotados por Josef Mengele, médico-carrasco do nazismo, acabou garantindo justificativa para o uso desses remédios em larga escala. Tanto que Bolsonaro e seus filhos usaram os dados manipulados sobre a eficácia desses remédios para empurrar pessoas às ruas.

E, de certa forma, ainda usam. Seu discurso na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas surpreendeu por defender a cloroquina como saída para a covid-19. Disse que a História ainda lhe dará razão. Na verdade, se ele tiver o mesmo destino de líderes que brincaram de Deus, a história lhe levará à cadeia.

Bolsonaro tem sido o principal garoto-propaganda da cloroquina. O presidente, que é médico formado pela Universidade do WhatsApp, não demonstrou que se importa se brasileiros morreram com a sua receita, apenas se voltaram às ruas enganados pela promessa do tratamento precoce, barato e rápido. Para ele, vidas continuam um detalhe na longa estrada de sua reeleição.

E não foi a única vez que brasileiros foram feitos de cobaias de "kit covid" sem a sua anuência. Em mais de uma ocasião, o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), reclamou que o governo Bolsonaro fez isso com os manauaras usando o aplicativo TrateCov, que empurrava o medicamento, ao invés de mandar oxigênio à cidade.

Caso não tivesse sabotado as medidas de isolamento social, promovido remédios inúteis, combatido o uso de máscaras e negado contratos de compra de vacinas no ano passado, a pandemia seria mais curta, não teríamos 600 mil mortes e a economia teria voltado a um (quase) normal muito antes, com menos desemprego, menos fome, menos pobreza.