A esquerda diante do ato de Cid Gomes

O autor indaga: se eu for contra as milícias tenho que apoiar o que o Cid fez?

Foto: Metro 1Cid Gomes
Cid Gomes

Por André Coelho, no facebook

Vocês têm que estar de sacanagem comigo! Então, pelo que estou entendendo, se eu for contra as milícias e a favor de uma reação generalizada contra elas, eu tenho que apoiar o que o Cid fez? Eu tenho que aplaudir aquele exato ato, feito daquela exata forma? Tenho que achar que um Senador da República dirigindo uma retroescavadeira para dentro de um prédio cheio de milicianos armados é o jeito certo de combater a milícia e dar uma resposta à sua ameaça, e não um ato teatral desnecessário de hipermasculinidade num ambiente em que macheza política de ocasião rende mais holofote que política de inteligência, investigação e desmontagem de redes milicianas?

Então, se eu for contra aquele exato ato, feito daquela exata forma, eu estarei sendo parte de uma esquerda cirandeira e ingênua, incapaz de compreender a brutalidade do quadro atual e de reagir com a radicalidade correspondente?

Espera aí. Eram trabalhadores superexplorados entrando de retroescavadeira na fábrica para tomar o processo produtivo para si? Eram camponeses despossuídos entrando de retroescavadeira no latifúndio para tomar para si o direito de existir e trabalhar na terra? Eram manifestantes anti-rentismo entrando de retroescavadeira na sede do Itaú numa rejeição simbólica do capitalismo financeiro? Eram eleitores pobres, carentes de voz e indignados com uma política que os trata como invisíveis, entrando de retroescavadeira no Congresso Nacional, no pontapé inicial de retomada de uma democracia radical? Eram cidadãos ciosos da República entrando de retroescavadeira num encontro nazi-fascista, numa sede da Universal, numa filial da Globo? Se for, contem comigo 100%. Apoio, defendo, compartilho, convido, participo, dou até dinheiro pras retroescavadeiras. Mas um dos Ferreira Gomes num surto de Rambo, aí, desculpa, mas vocês vão ter que aplaudir sozinhos.

Por último: Sim, o problema das milícias é gravíssimo e exige uma resposta firme e dura, à altura da ameaça. Mas eu achei que nós, da esquerda, éramos os caras das medidas eficazes mas lentas, difíceis de explicar à população exatamente porque não são nem teatrais nem imediatistas. Desmilitarizar a polícia, construir um plano de carreira para policiais, treinar e equipar melhor os esquadrões, investir em inteligência, integrar as polícias; evitar a brutalidade policialesca, o terrorismo punitivista, o abuso de abordagem, a confusão entre punição e extermínio, o tratamento do criminoso como inimigo; apostar em políticas sociais de educação, de lazer, de renda e de emprego, reforçar as associações de bairro e os movimentos sociais e populares dentro das áreas de risco ou dominadas, dar subsídios à vida cultural local, favorecer o pequeno negócio de bairro, recuperar a paisagem da periferia, urbanizar de forma democrática e incluir na vida da cidade, construir saídas de escolha e de resistência fora da adesão ou submissão ao crime organizado etc.

Achei que apostávamos nessas coisas não porque nos faltava estômago para a violência animalesca, mas porque sabíamos desde há muito tempo que a violência animalesca não funciona, que ela se combina com estereótipos de preconceito e exclusão, só atinge os mais pobres e segrega e extermina mais rápido os membros de grupos já perseguidos, não desmonta redes estruturais, não chega aos cabeças poderosos, não desmonta os tentáculos do crime com a política e com o judiciário, favorece e reforça a narrativa colonial, militarista e ditatorial latino-americana e des-sensibiliza a população para a vigilância, a crueldade e a morte, tornando-a despreparada para a política, para a cidadania e para a solidariedade. Que sabíamos que o discurso que elege a cada vez um novo inimigo para ser eliminado e coloca mais lenha na fornalha do direito penal é sempre - SEMPRE - uma arma que acaba se voltando contra os pobres, pretos e putas alegando defender os direitos dos pobres, pretos e putas.

Mas de repente somos nós propondo combater um fenômeno complexo como a milícia com porrada, tiro e bomba... substituindo todo o conhecimento sociológico e a sabedoria política acumulada na luta de classes, na luta decolonial e na luta anti-racista pela tentação fácil de montar numa retroescavadeira... Tá bom, então. Vão lá. Não deu certo contra o tráfico de drogas, contra o tráfico de armas, contra a corrupção, contra assaltos e homicídios e contra o terrorismo... Mas quem sabe contra a milícia, né? Quem sabe dessa vez o porrete não resolve... Quem sabe se a gente só calibrar a mira do porrete para quebrar os crânios certos...

Francamente, gente. Francamente.

OBS: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do pensarpiaui.