Doutor em Antropologia

Arnaldo Eugênio

Doutor em Antropologia

Uma crise de gestão

Foto: Carta CapitalCoronavírus
Coronavírus

Antropologicamente, a pandemia de COVID-19 permite-nos observar o nível de alteridade – ou seja, a qualidade ou estado do que é outro ou do que é diferente –, sendo um dos princípios fundamentais a convicção de que o homem na sua vertente social tem uma relação de interação e dependência com o outro: colocar-se no lugar do outro.

Sociopoliticamente, para além das perspectivas apocalípticas e fatalistas, a pandemia do novo coronavírus tem provocado milhares de mortes e diversos transtornos pelo mundo. Além disso, existe, também, a possibilidade de desnudar abusos, charlatanismos, farsas, mentiras, falta de estratégias sanitárias, sociais e de estruturas hospitalares etc.

Através das mídias sociais e dos meios de comunicação estamos sendo impelidos e informados por uma onda de pânico, que misturam informações com narrativas salvacionistas, fake news, discursos fascistas, falsas receitas de cura e até racismo estrutural – p.ex. pouco se fala dos efeitos da pandemia de COVID-19 no Continente Africano (43 países, com mais de 1.700 casos confirmados). É o mesmo racismo que, no Brasil, ignora as periferias, as favelas e as comunidades quilombolas.

No Brasil, a realidade da pandemia do COVID-19, além de dizimar vidas humanas por status e idosos, de gerar o medo e o isolamento social, de despertar em muitas pessoas o oportunismo (político e econômico) e de revelar noutras um profundo sentimento de humanidade, tem servido, também, para expor a inabilidade de gestão dos arautos de um rei que está nu (Hans Christian Andersen, 1837) e testado negativo para a presidência e/ou estadista.

Em meio ao pânico social surgiram as falsas notícias, os pseudocientistas, a estocagem de alimentos, as falas políticas desconexas, os roubos de insumos hospitalares,  as declarações parciais de empresários, o descompasso entre as medidas de saúde e de economia, que resultam em mais desespero social do que em estímulo à conscientização social.

Em alguns casos, os governos estaduais e os municipais, decretaram “estado de calamidade”, antes mesmo da comprovação da existência de casos locais de COVID-19, para utilizarem o erário sem comprometimento com as metas da Lei Responsabilidade Fiscal.

Economicamente, as declarações de alguns empresários têm mais de oportunismo do que preocupação com os efeitos econômicos do COVID-19 sobre a classe trabalhadora. Eles minimizam as mortes de brasileiros, pensando somente na mais-valia: “o número de mortes é irrisório"; “os prejuízos econômicos serão o maior custo da pandemia para o país”; “lockdown insano” etc.

No Brasil, a pandemia do COVID-19 tende a ampliar os efeitos do “PIB-zinho” e da lógica da política econômica neoliberal. Segundo cálculos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), o país tem hoje quase 12 milhões de desempregados e 38 milhões de pessoas estão na informalidade. O descompasso entre as medidas de saúde – como a quarentena sanitária – e de economia – como a Medida Provisória nº 927 – a depender da duração e impacto da pandemia, o país poderá acrescentar mais 8 milhões de desempregados.

Em parte, temos o resultado de uma inabilidade em gestão de crise por parte dos arautos de um rei que está nu, longe de qualquer saudosismo petista ou apelo à classe lavajatense. Pois, não foi a COVID-19 que instaurou o caos na economia do país, mas a corrupção, a inépcia no gerenciamento de crise, a falta de modelo administrativo nacional, os desgovernos e a ausência de um plano de Estado, que reduziram o país às intrigas político-partidárias, decadência política e ao modelo econômico neoliberal, que ataca os direitos trabalhistas.

OBS: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do pensarpiaui.

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