Jornalista

Odorico Carvalho

Jornalista

Um papagaio deixou profundas lembranças carinhosas, por que nós,seres humanos, geramos ódio e ressentimento?

Foto: Google ImagensDando exemplo a humanos
Dando exemplo a humanos

            Depois da história de Sultão, ocorrida na minha infância no interior de Bocaina e já contada em outro texto, deparei-me de novo comigo mesmo nessa relação conflituosa com animais domésticos.  Já casado e morando em Picos, minhas menininhas, Sâmia e Janice, viviam a me pressionar pela aquisição de um desses bichos. Um cão? Um gato? Davam várias opções e eu sempre dizia não e explicava que esses animais poderiam trazer doenças para dentro de casa ou seus pelos poderiam causar alergias, asma, etc. Elas fingiam que aceitavam meus argumentos, mas em poucos dias voltavam ao assunto.

            Um dia, ao chegar em casa no fim da tarde, lá estavam elas me aguardando no portão. Logo que desci do carro, cada uma me agarrou pela mão e, excitadas, diziam:

            - Pai, diga que deixa a gente ficar com ele, por favor, diga, diga.

            E me levaram para uma área que havia ao lado da cozinha e lá estava, numa tábua improvisada e pendurada na parede, um papagaio novinho, meio acabrunhado, as penas ainda em crescimento, com ar de assustado, certamente sentido a dor de ter sido arrancado do ninho e separado da mãe. Olhei para minha esposa, Gracinha, com um semblante de reprovação e ela deu de ombros como a dizer: o que eu poderia fazer com elas me tirando o juízo 24 horas por dia? E as meninas pulavam em minha volta com grande algazarra, enquanto gritavam:

            - Deixa pai, deixa. O nome dele é Zico. Deixa, deixa!

            De repente, todos os meus argumentos perderam o sentido ao ver o brilho nos olhos delas, a alegria genuína que se percebia no ar. Eu não poderia estragar isso com ponderações que, por tantas vezes, não as convenceram no passado.

            - Tá certo, podem ficar com ele, falei contrariado.  

            E elas fizeram aquela festa a minha volta, pulavam e dançavam e entremeavam tudo isso com abraços e beijos.         

            As meninas adotaram Zico como um novo membro da família e passavam horas em volta dele, tagarelando, ensinando palavras, testando alimentos para definir aqueles de que Zico mais gostava. E rapidamente ele ganhou peso, penas e uma voz forte, irritante, gasguita, mas que as meninas adoravam.

            Zico amava acordar bem cedo, por volta de cinco da manhã, e ai se dedicava a trocar ideias com as aves livres que voavam pelo bairro. Acho que, às vezes, havia algum tipo de desentendimento, pois iniciavam altercações intermináveis, cada uma gritando mais alto. Nestes dias, eu, que tinha chegado dos shows cansado e precisando dormir, abria a porta do quarto e dizia:

            - Gracinha, torce o pescoço desse papagaio, joga ele na panela! Assim não dá!

E Gracinha tentava acalmá-lo colocando frutas na sua tábua e conversando com ele de forma civilizada.

Zico tinha fortes pendores artísticos e os exercitava sem nenhuma dó. Cantar era seu forte (ou seu fraco, penso eu) e sempre que eu pegava o violão e começava a ensaiar alguma música, ele já impostava a voz e me seguia fazendo vocais desafinados, sem nenhuma lógica musical. Eu ficava irritadíssimo, fechava a porta da cozinha, mas a voz do bicho tinha uma potência de cantor lírico, vencendo qualquer obstáculo.

E, assim, o tempo foi passando. A amizade entre Zico e as meninas se aprofundou de forma quase inexplicável. Era fácil perceber a alegria do bicho quando as elas chagavam da escola e iam direto falar com ele. Ele se transtornava, arrulhava, gritava, falava algumas palavras ininteligíveis e revirava olhos piscando de forma estranha, fechando as pálpebras na vertical.

            Chegou o momento em que as meninas tiveram que ir estudar em Fortaleza. Cada despedida, um chororô. Antes de ir, faziam uma lista de recomendações para a mãe, de como tratar Zico, como alimentá-lo, os cuidados com a limpeza da tábua, etc. E iam até ele com palavras e gestos de carinho que o bicho parecia entender. E entendia, acho eu, pois nos dias seguintes ele ficava sorumbático, parecia entrar em depressão.

            Diante do aspecto desolado de Zico, algumas vezes Gracinha ligava para as meninas e levava o telefone sem fio perto dele. E quando ele ouvia a voz delas, entrava em transe. Arrepiava as penas, pendurava-se nos cantos da tábua e exercitava o que ele tinha de mais forte, as cordas vocais. E melhorava da melancolia a olhos vistos. E eu quase ficava com ciúmes quando elas, chegando de férias às cinco da manhã, nos abraçavam rapidamente no portão, largavam as malas ali mesmo e corriam para tirar o sossego de Zico.

            A gente não cortava as asas dele e, de vez em quando, Zico dava umas fugidas pelas redondezas, mas sempre no fim da tarde a gente ouvia sua voz e estava tudo bem: Zico voltara. Um dia, porém, ele não voltou. No segundo dia, também não. No terceiro, bateu o desespero em Gracinha e seus ecos chegaram a Fortaleza, onde as meninas também entraram em crise. E tocaram a fazer telefonemas daqui para lá e de lá para cá, com os quais traçavam estratégias de buscas, discutiam possíveis razões do sumiço, tremiam nas bases só em imaginar que aquilo fosse definitivo.

            No quarto dia, já com pouquíssimas esperanças, Gracinha muniu-se de coragem e saiu pelas ruas do bairro em buscas de Zico. Batia em portas, perguntava e saia cabisbaixo pelas inúmeras negativas. Por fim, num ato que alguns chamariam de tresloucado, ela saiu a gritar pelas ruas. Com as mãos em concha, improvisava uma espécie de alto-falante e mandava a todo pulmão:

- Zicooo, Zicoo, Zicoo.

            Em seguida, com a mesma concha em torno do ouvido, ela tentava ampliar e captar alguma resposta vinda das casas ao redor.  Nada, nadinha. E ela continuou assim por muitas vezes. Quem visse aquela cena, pensaria: coitada, perdeu o juízo. Até que, numa última tentativa, ela ouviu uma voz distante, fraca, gritar:

            - Gracinha, Gracinha?           

            Em estado de euforia, Gracinha amiudou os chamados, enquanto fazia a sintonia fina no ouvido para melhor captar as respostas que iam ficando cada vez mais fortes na medida em que ela chegava perto da casa que abrigara Zico. A dona disse que ele chegara há uns três dias, ela dera comida, ele foi ficando, mas sempre chamando por Gracinha, Marilda, Eli. Parecia desorientado sem saber como voltar. Gracinha agradeceu e voltou para casa em estado de graça e foi direto ligar para as meninas que, aliviadas e eufóricas, não se cansavam de ouvir o blábláblá de Zico, certamente a contar sua aventura. Naquela noite ninguém dormiu.

            O fato de não cortarmos suas asas tinha como justificativa permitir que o bicho pudesse se defender no caso de ataque de predadores, gatos, gaviões ou ainda, o pior deles: o homem. Zico poderia voar e escapar com facilidade. Mas agora não dava mais: cortamos-lhe as asas bem curtinhas e ele ficou confinado ao exíguo espaço da sua tábua, indefeso, uma maldade, sem dúvidas, mas necessária.

            E esse foi o nosso grande erro. Uma tarde, quando chegamos em casa, não ouvimos nenhuma barulho. Um pressentimento ruim nos bateu no peito e corremos para ver Zico e seu lar estava vazio. Investigamos todo o muro em volta da casa e nada. Não havia penas pelo chão, nenhum sinal de luta, nada. A conclusão lógica e dolorosa: Zico fora raptado e como o malfazejo que faz isso não pede resgate, desta vez seria para sempre. Zico se fora.

            Uma profunda consternação nos atingiu em cheio. Tristeza profunda até em mim, logo eu um desafeto de Zico. E não tínhamos coragem de ligar para as meninas para dar a infausta notícia. Eu, covarde, emudeci. Gracinha, guerreira, ligou e contou. Foram muitos meses para que pudéssemos superar a tragédia.

            Outro dia, tanto tempo já passado, estava vendo uma das fitas de videocassete onde gravei o crescimento de minhas filhas e de meus dois filhos, Junior e Clint, e, de repente, aparece Zico fazendo papagaice na sua tábua, pilheriando e feliz da vida. Levei um baque. Não estava esperando isso. Dei-me conta que em quase todas as fitas feitas nas ocasiões especiais da nossa família, Zico aparece com destaque, sempre brilhando com seus trejeitos e marotices.

            E hoje, eu, homem feito e já muito desfeito pelo tempo, me pego aqui pensando em Zico. Por onde andará essa criatura? Será que foi contrabandeado para a França e hoje fala francês? Ou estará na Alemanha comendo o pão que o diabo amassou para aprender essa língua complicada cheia de consoantes e sons estranhos? Será que ainda lembra-se de nós? Será que ainda chama por Gracinha, Eliete, Marilda? Ou será que já entregou a alma a Deus? Sim, pois eu afirmo: aquele bicho tinha mais alma e sentimento de que muito ser humano que conheço e se é verdade que os bichos têm alma, Zico há de estar num bom lugar.

            Certo é que fico aqui encafifado: como pode um ser tão insignificante, com cérebro diminuto e que mal consegue balbuciar uma dezena de palavras, ser capaz de se fazer amar e de deixar lembranças tão profundas no coração de tantas pessoas? Se ele pôde, por que nós, seres humanos, com todos os recursos que temos, em grande parte só somos capazes de gerar ódio, ressentimento e dor?

OBS: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do pensarpiaui.

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