Economista, Auditor Fiscal da Paraíba e Poeta

Acilino Madeira

Economista, Auditor Fiscal da Paraíba e Poeta

Interpretando este Brasil racista, machista e separatista

Foto: PensarPiauí

Pensadores

 

Nos anos 1930, a literatura interpretativa do Brasil ganhou corpo com Casa Grande & Senzala (1933) e Raízes do Brasil (1936). No primeiro clássico da sociologia brasileira, Gilberto Freyre aponta para a desejabilidade de viragem dos estudos raciais (antropologia física preconceituosa) para os estudos culturais (antropologia cultura). Nesta viragem o mestre pernambucano coloca o elemento negro, sobretudo, como também protagonista da história brasileira.

No segundo clássico, Sergio Buarque de Holanda vai ao encontro de um Brasil profundo, ibérico e semeado de hábitos ditos cordiais.

Não obstante, o mito da democracia racial freyriano com a cordialidade do brasileiro deram conta da interpretação romantizada tupiniquim. Para um apanhado histórico de nossa herança colonial, uma década depois (1942), em Formação do Brasil Contemporâneo, o historiador Caio Prado Junior nos apresenta uma obra de interpretação, cujo objeto seria o nosso sentido histórico. Numa metodologia marxista (materialismo histórico) com resultado de superação, enfatiza a inabilidade do Brasil em mudar o sentido histórico: sempre e sempre uma grande feitoria.

Vários outros cientistas sociais se debruçaram sobre o tema (interpretação do Brasil) e produziram grandes obras no decorrer do século XX. É posto se destacar Celso Furtado, Florestan Fernandes, Milton Santos, Josué de Castro, Raymundo Faoro, Paulo Freire e outros mais.

A literatura sobre as interpretações do Brasil é vasta, muito vasta. Baseado nesta literatura, como entender o que se passa no país de agora? Um Brasil sem bem-estar social, pelo menos mínimo, para todos. Vale aqui lembrar Ariano Suassuna, sobre a sua visão entre o Brasil real e o Brasil oficial: muita distância. Será que por este viés é valido dizer que nunca passaremos de uma grande feitoria ou de uma grande fazenda produtora de commodities, sempre negando o desenvolvimentismo em retorno ao modelo agroexportador dos velhos coronéis e patenteados da Guarda Nacional.

Pelos caminhos da cidadania no Brasil, de José Murilo de Carvalho, percebe-se ainda a inversão da pirâmide dos direitos formam a cidadania (civis, políticos e sociais) por liberdades cerceadas pelo autoritarismo dos donos do poder (Faoro) e pela violência nos dias atuais.

Mesmo depois da redemocratização do país (pós-1984/1985) até o momento, o Brasil continua dividido e sem nenhum sentido viável de coletividade. Vivemos os piores momentos da pandemia do Covid-19 e a ladainha continua a mesma. Um país racista, machista e separatista. O pior é ter uma elite governante, hoje bolsonarista, que não consegue entender que a posição de destaque do Brasil no mundo, em grande parte, se dá pela sua diversidade. Diversidade ambiental, étnica, cultural, política e econômica.

Somos um povo mestiço. A maior população negra fora do continente africano. A nossa matriz étnica é africana. Mais de 60% da população brasileira é negra e mulata. Somos diversos porque acolhemos todos os credos e todas as etnias.  Depois das intervenções dos irmãos Vilas Boas, de Rondon e da demarcação das terras indígenas nosso conceito subiu, pela desejabilidade de melhores dias para o que sobrou de nossa herança ameríndia.

O Brasil de agora está atordoado por um querer de mudança baseado no ódio, no conservadorismo de uma elite que se acha bem branquinha e hegemônica. Na verdade, não podemos nos achar branco, preto ou amarelo isoladamente. Somos miscigenados.

Nenhum país se desenvolve na base do preconceito e da pregação da violência e da discórdia. A Índia vem se desenvolvendo seguindo os princípios da não violência. Assim como Portugal e uma infinidade de países com diplomacia avessa a bravatas armamentista. No momento, o que se vê é a esperança maldita de retorno do Brasil à escuridão dos dias passados de falta de educação, preconceitos diversos, cegueira política e violência extremada. E o governo Bolsonaro aprofunda mais a crise.

OBS: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do pensarpiaui.

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