Doutor em Antropologia

Arnaldo Eugênio

Doutor em Antropologia

Estamos num governo do averso, diante de um tolo que não tem prazer no entendimento

Foto: Esmael MoraisO averso
O averso

Em geral, quando o povo elege um governante, politicamente, espera dele, principalmente num momento de crise, uma postura coerente com a altura do cargo de líder, de chefe de estado, de administrador, de comandante, de estadista, de presidente, de soberano etc. Assim, deve-se exigir desse homem médio - cuja conduta sempre servirá de exemplo ético e de base moral para os demais comportamentos sociais – o bom senso, a probidade, a retidão, a prudência e a responsabilidade social.

O verdadeiro líder, diferente do populista, é aquele capaz de enfrentar os desafios com altivez sem disse-me-disse ou discursos vazios, que colocam o povo no engano e em perigo. Politicamente, um líder democrático respeita e permite a participação dos cidadãos na tomada de decisões, cujas características são: o autoconhecimento, a proatividade e a habilidade em comunicação.

Assim, somente um governo do averso faz “um passeio público no domingo” ou minimiza a gravidade do vírus indicando “vodca com sal” em plena quarentena mundial da pandemia de COVID-19, menosprezando todas as recomendações tecnocientíficas, onde o isolamento social é a regra vital. Platão (428/427- 348/347 a.C.) argumentava em “A República” que o regente precisava ser educado com a razão, descrevendo o seu ideal de “rei filósofo”.

Durante uma pandemia mundial, apenas um desgoverno impõe a própria vontade em detrimento à democracia, nega à opinião pública, desdenha dos pobres e ignora as recomendações sanitárias, atraindo a idolatria da pequena burguesia de cidades (pequenas e grandes) e outros analfabetos políticos, que estão preocupados somente com os próprios interesses individuais.

Assim, o egoísmo e a mesquinhez de poucos custarão a vida preciosa de milhares, em troca de migalhas do vil metal. Pois, durante uma pandemia de COVID-19, os benefícios públicos devem nos parecer mais amplamente justo do que os homens médios se preocuparem, exclusivamente, com seus interesses privados.

Somente um governo do averso, sem "virtude" e "sentimento moral", é prejudicial e explorador da dor do povo: nega-lhe a solidariedade; incentiva ações contrárias ao isolamento social numa crise pandêmica; faz filantropia com a graça alheia; utiliza a parceria público-privado para desviar recursos públicos; distribui cestas básicas de alimentos por critérios alheios à fome; se diz cristão, mas exclui os pobres; substitui medidas preventivas de saúde coletiva por interesses de pequenos burgueses.

Um rei assim não é Rei nem Judas. Um governo desse nível é desgoverno, trata-se da "artificialidade" da virtude do homem injusto. Um governo do averso é inimigo do povo, carregando consigo a desgraça, o infortúnio - razões adversas ao foco e aos fatos -, não entende que a pobreza é adversa à condição humana.

Um governo do averso não aceita ser confrontado nem desmentido. Por exemplo, enquanto o COVID-19 solapa os sistemas de saúde dos países mais estruturados do mundo e draga milhares de vidas, um governo do averso contraria a Organização Mundial de Saúde, negando os fatos e os conhecimentos tecnocientíficos, para se sustentar numa insustentável estupidez do ser, que governa pelos interesses egoístas e se rebela contra a sensatez humana.

Quando se tem um governo do averso, estar-se diante de um tolo que não tem prazer no entendimento, mas sim em expor os seus pensamentos deturpados sobre a realidade. Para um governo do averso o pobre é sinônimo de desprezo, a desonra não lhe traz a vergonha, a ética não é vista como virtude, o mal substitui o bem e a vida tem menos valor do que o ouro dos tolos.

OBS: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do pensarpiaui.

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