Sociólogo, Professor aposentado da UFPI

Antonio José Medeiros

Sociólogo, Professor aposentado da UFPI

2020: ano difícil para o PT

O ano de 2020 tem sido cruel com o PT. Marcado pela pandemia do coronavírus, para os petistas, o ano também registra a perda de importantes nomes do Partido que faleceram, embora nem todos de covid-19. O PT do Piauí está de luto pela professora Ida, de Campo Maior; pelo deputado Federal, Assis Carvalho; pelo prefeito Antônio Nonato Lima, de São José do Divino, entre outros e, agora, por Manoel do Morro que faleceu ontem.

O professor Antônio José Medeiros, dono deste espaço, escreveu o artigo a seguir e o pensarpiaui aproveita e publica também o texto de outro professor, Marcelino Keliton. Os dois tratam do petista Manoel do Morro, que deixou o PT órfão.   

Foto: FacebookManoel do Morro e Wellington Dias
Manoel do Morro e Wellington Dias

“Seu” MANOEL DO MORRO, DO PT E DO MOVIMENTO

Por Antônio José Medeiros

Faleceu “Seu” Manoel do Morro, amigo e companheiro do PT de Esperantina. Só agora fiquei sabendo de seu nome de registro civil: Manoel Luiz Pereira e sua idade precisa: 85 anos.

Conheci Seu Manoel na fundação do PT em Esperantina; lá se vão 40 anos. Trabalhador rural, pois continuava fazendo roça, embora já morasse na cidade. Participava do Sindicato de Trabalhadores Rurais e das Comunidades de Basse da Igreja. O PT foi seu novo engajamento, que assumiu com toda força, convicção e compromisso. 

Com o apoio dos centros de assessoria (CEPES e CEPAC), na época, ao lado do sindicalismo rural, houve uma retomada do sindicalismo urbano e uma forte atuação para a organização de associações de bairros. E esse foi o novo campo de militância ao qual Seu Manoel se dedicou e onde se destacou. Além da associação de seu bairro (Morro da Chapadinha), ajudou a organizar associações nos outros bairros de Esperantina e em cidades da região. Foi um dos fundadores da FAMCC – Federação de Associações de Moradores e Conselhos Comunitários. Participou de eventos estaduais e nacionais do movimento popular de bairros. Lembro-me que estava exercendo o mandato de deputado federal em Brasília, no primeiro semestre de 2007, e lá encontrei seu Manoel em um desses eventos. 

Era o que ele chama de MOVIMENTO. E até o fim de sua vida sempre associou a política à organização e representação das classes populares. 

Vejo agora que em 1980 seu Manoel tinha 45 anos. Não sei qual seu nível de escolaridade. Mas ele é um exemplo de uma das mais belas iniciativas que aconteceram no Brasil, buscando marcar a presença popular no fortalecimento da sociedade civil. Seu Manoel é uma liderança popular autêntica, formada na luta e no debate em cursos com material didático adequado. Era capaz de acompanhar e analisar criticamente a conjuntura política. Falava com propriedade sobre as políticas públicas urbanas. E era um “orador nato”.

Seu Manoel permaneceu sempre leal ao seu partido querido – o PT. Mas era crítico a certos encaminhamentos e ao comportamento de lideranças locais e estaduais. Por sua história e integridade, sempre foi respeitado. Teve o reconhecimento em homenagens merecidas. Tinha consciência de que o movimento de bairros está enfrentando uma crise, por cooptação pelos Prefeituras ou pela falta de formação e compromisso de lideranças. Mas continuou apostando que o MOVIMENTO se renovará e as bases voltarão a ser mais ativas.

Conversei muito com ele em 2018, quando ele apoiou Haddad, Wellington, eu, Flora, Marcelo e... Jesus Rodrigues. E me impressionava sua lucidez, sua disposição. Sabia que ele estava perto dos 80 (de fato, tinha 83 anos), mas continuava andando em sua bicicleta, inclusive em visitas às comunidades rurais.

Seu Manoel do Morro, companheiro, amigo, fico triste com sua morte. Você continuará presente. E com certeza, onde você estiver, merece estar bem. Pois nesta vida combateu o bom combate. Você foi um guerreiro e um “intelectual orgânico” das classes populares.

Foto: Marcelino KelitonMonark

O homem da Monark

Por Marcelino Keliton, professor 

Uma luz se apaga. Antes, há de continuar a iluminar muitas gerações.

Devagar em sua monark, provavelmente o bem material mais notório em sua passada pela luta partidária, o homem sábio fez muitos seguidores.

Simples, desde cedo acreditou na luta coletiva feita pelos mais fracos. 

Mesmo sozinho em sua monark, diferente de seus discípulos que conseguiram êxito financeiro para seguir a vida em luxuosos veículos automotores, este homem não cansou.

Praticamente 40 anos em defesa dos trabalhadores e trabalhadoras de nosso Piauí. Figura ilustre, pois com sua sabedoria soube unir trabalho, união e serviço prestado aos mais carentes.

O homem da monark, que sempre dizia "oh meu menino" quando parava para descansar sob uma sombra de uma carnaúba ou de um babaçu, hoje nos deixa. Vai ao encontro do mais humilde dos homens que a Terra já viu.

Por aqui sua monark irá descansar. Enquanto isso os discípulos que vieram depois da criação da estrela vermelha e tiveram mais oportunidades/reconhecimentos não vão dar o devido valor aos ensinamentos que o homem da monark nos deixou. Se não deram até hoje, não darão mais. A vida chegou ao fim, sua história não.

Altivamente, os mais humildes, como o homem da monark sempre foi, irá reconhecer em memória seu grande valor para o nascimento e revolução dos movimentos sociais para que um dia viesse a termos uma constelação de representatividade dentro das comunidades, sejam elas rurais ou urbanas.

Descanse em Paz seu Manoel do Morro, o homem da Monark.

Foto: Marcelino KelitonManoel do Morro
Manoel do Morro

OBS: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do pensarpiaui.

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