Donizeti Nogueira, é um mineiro, radicado em Tocantins, tendo  iniciado sua militância no movimento da juventude de igreja nos anos 70. Desde 1983 é filiado ao Partido dos Trabalhadores. É o primeiro suplente da senadora Kátia Abreu.

Nogueira escreveu em 02 de janeiro e hoje, dois grandes artigos sobre o PT, publicados no site Brasil 247. Ele faz uma análise do Partido, alguns questionamentos e proposições.

Não adota a tese da famigerada autocritica mesmo levantando situações que exigem avaliação do Partido. Tem muita sensatez no texto de Donizeti, merece reflexão. Vamos a eles:

O PT precisa se ver de fora para dentro

02/01/2019

O resultado eleitoral de 2018 delegou ao PT autoridade e lhe impôs grandes responsabilidades. Autoridade da qual o PT não tem o direito de abrir mão ou subestimar. Responsabilidades para quais o PT tem o dever de estar preparado à altura para corresponder.

O PT precisa fazer uma profunda e criteriosa reflexão, não para o autoflagelamento tão cobrado pela imprensa golpista e pelos os nossos adversários e inimigos, mas para compreender a extensão do antipetismo. Para compreender que além da defesa intransigente dos direitos e da democracia, ambos em risco na atual conjuntura, precisa, ainda, empunhar com força algumas das suas antigas bandeiras (direito a educação e saúde públicas e de qualidade, a mais e melhores empregos, etc). É preciso, sobretudo, fazer tremular com vigor e encantamento, novas bandeiras que sejam capazes de dialogar e encantar os corações e mentes das camadas populares e com força suficiente movê-las a embalar novos sonhos e despertar novas esperanças.

Mas como fazer isso? Isso começa com o PT, seus dirigentes e militantes se despindo de qualquer vaidade e compreendendo que as perguntas ainda não foram todas feitas e todas as repostas não serão encontradas só a partir do seu olhar para dentro.

Quando nasceu, o PT bebeu numa rica fonte onde estavam depositadas as memórias das lutas passadas e fervilhavam os sonhos, os anseios e a esperança de um país maior e melhor para todos. Foi em um contexto de muita heterogeneidade, onde se encontraram intelectuais, militantes políticos anistiados dos diversos grupos que combateram a ditadura militar, o movimento sindical, os movimentos populares como de educação e saúde, religiosos como as CEBs – Comunidades Eclesiais de Bases – e ativistas de diversas pautas identitárias.

Foi a partir da soma das vontades e de muitas bandeiras nascida do seio do povo, que o PT se fez como a mais extraordinária das ferramentas de vocalização e execução do projeto de uma nação soberana e inclusiva, social e ambientalmente sustentável.

Agora, após, o exercício de seus 13 anos no governo do Brasil, interrompido de forma abrupta por um golpe jurídico, político e midiático, o PT encontra-se fortalecido por um grande legado de inclusão social, defesa e fortalecimento da nossa soberania e reconhecendo os seus erros.

Novamente, o partido precisa ir ao encontro dessa fonte, compreendendo que já se passaram 40 anos desde a sua fundação e que o mundo mudou, com uma grande e profunda revolução tecnoeletrônica e na versatilização dos meios de comunicação.

O planeta diminui de tamanho, as pessoas têm mais acesso aos fatos e ocorrências no mundo. Surgiram grandes variações e mudanças referentes aos valores políticos, sociais, econômicos e culturais e, ainda, radicais mudanças nas relações de trabalho, de produção e no perfil e caráter da luta classe. Ou seja, os problemas são velhos, mas a forma de resolvê-los ou, enfrentá-los não são mais as mesmas e se tornaram mais complexas e difíceis.

Por isso, o PT terá que ir buscar uma séria, respeitosa e horizontalizada interlocução com todos, aqueles e aquelas que, mesmo contrariados com o partido, para criar um necessário e audacioso projeto de desenvolvimento de matriz inclusiva, humanitária e de prosperidade.

Apesar da violenta cruzada persecutória impetrada para sua dizimação, o PT sobreviveu e, ainda, mantém um forte apoio popular. Nas eleições presidenciais, mais de 47 milhões de eleitores votaram em nosso projeto, mesmo percebendo as suas fragilidades. O Partido dos Trabalhadores elegeu 57 deputados federais, a maior bancada na Câmara dos Deputados, quatro governadores e 6 senadores, além de inúmeros deputados estaduais.

Essa vitória eleitoral o habilita para cumprir um papel muito preponderante na defesa do Estado laico, da soberania nacional, dos direitos, da liberdade e da democracia. Assim, o PT deve se opor à tentativa de implantação de um estado fundamentalista, minimalista, antinacionalista, entreguista, com fortes evidencias fascistas, que vem sendo arquitetado pelo presidente eleito.

Considerando o fato de as pessoas terem deixado comodidade de seus espaços individuais para se exporem na defesa da candidatura de Fernando Haddad, o PT não deve agora se voltar para dentro, envolvendo-se em suas disputas internas, quando a disputa a ser feita é no conjunto da sociedade.

Para o enfretamento a que está chamado a fazer o PT tem uma grande oportunidade de, por um lado, reencontrar com os atores políticos, intelectuais, culturais, religiosos e sociais que ao longo de sua trajetória, por algum motivo, se distanciaram e, por outro lado, a oportunidade de ampliar a sua base social com novos e importantes atores dos mais diversos setores da vida nacional. Setores que engrossaram as fileiras da resistência durante golpe que afastou a presidenta Dilma Rousseff e que agora, nas eleições de 2018, fizeram corajosamente o enfrentamento contra o atraso que representava o projeto de nosso adversário.

O PT precisa ler corretamente o desenrolar da conjuntura nacional e internacional, para arquitetar com precisão os cenários que se desenvolverão, pelo menos, de curto e médio prazo, desenvolvendo um conjunto de ações e uma narrativa que encontre ressonância no seio das camadas populares, que compõem majoritariamente a população brasileira. Para isso, o PT precisa se ver de fora para dentro*.

Como nos ensinou o mestre Paulo, “como educador, reconhecer-se como educando”. Por isso, é hora de, enquanto partido, o PT assumir o seu papel de educando das massas populares. É extremamente necessário que se recorra, se não às massas como um todo, mas, ao menos, chegar a elas através de suas múltiplas referências coletivas e individuais históricas ou emergentes.

É preciso fazer isso, sob pena de se estar perdendo o espaço criado pelo desenrolar dos últimos acontecimentos, para conseguir um vigoroso crescimento e energização do partido, que este momento proporciona e de cumprir o seu papel histórico de organizador dos discriminados da agenda decisória do país (o orçamento) e dos desprotegidos pelo aparelho de estado que é bancado através da peleja cotidiana de muito suor e sacrifícios destes.

*Naturalmente, não foram só as minhas limitações para tratar do tema, mas a extensão e complexidade dele que não permitiram a apresentação de conclusões mais claras. Por isso, continuarei em um próximo artigo a tratar desta temática sobre o que compreendo ser o PT se ver de fora para dentro.

O PT precisa se ver de fora para dentro II

09/01/2019

Certa vez, o combativo dirigente e ex-deputado federal petista, José Genoíno, disse que o PT é constituído pelo Estado Petista, composto por seus milhares de dirigente e militantes, sempre presentes às reuniões e às atividades organizativas e de divulgação do partido; e, pela Sociedade Petista, composta por milhões de pessoas que na época das eleições aparecem de todos os lados, compram bottons, bandeiras, material de campanha e envermelham as ruas e praças, numa coreografia sincronizada que impulsiona os resultados construindo as vitórias do partido. Esses, embora petistas e tenham uma grande empatia com o partido, não participam de reuniões, não vivem o partido no seu dia-a-dia. Terminada as eleições ou grandes embates, elas voltam para casa.

Me pergunto: o PT sabe o que pensam essas pessoas? Sabe como elas se organizam? Sabe por que elas aparecem apenas nestes momentos e depois se recolhem? Sabe qual a visão delas sobre esquerda e direita? São muitas as indagações, para quais eu não tenho respostas. Mas que o PT precisa ter.

O PT necessita olhar para esse contingente, conhecer visão de mundo dessas pessoas e que missão elas lhe atribuem e se atribuem. Se ver de fora para dentro a partir do olhar desses milhões de petistas que também sonham, se alimentam de esperanças, que vivem ou sobrevivem e se organizam em torno da associação de moradores, da igreja, do time de futebol da escola de samba, da quadrilha junina, etc.

O PT precisa envolver esse contingente na elaboração das pautas do partido para que elas se enxerguem como participantes e beneficiárias a ponto de estarem comprometidas.  Este poderá ser o caminho para que o PT compreenda e se relacione com uma sociedade tão complexa como a brasileira, com sua multiplicidade de raças, credos e diversidade regional e tamanhas desigualdades sociais e, para ao final, ser reconhecido como porta voz dos seus interesses e vontades, alimentador de suas esperanças e realizador de seus sonhos.

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DESCRIÇÃO: Ex- governador Olívio Dutra.

É claro que não tenho respostas para todos estas perguntas e nem a receita para a resolução dos problemas. Mas, ouso dizer que para se colocar a alturas dos desafios impostos pelo processo deflagrado pelos populistas de extrema direita, o PT precisa superar a insuficiente elaboração teórica, romper com o “ser governo apenas republicano”, recuperar e assumir, de forma contundente, o seu papel ideológico e programático de partido de esquerda. O momento é propício para isso, uma vez que, quem assume o governo do país assume escancaradamente a disposição de acabar com a esquerda.

O PT precisa simplificar a sua narrativa ideológica, radicalizando a polarização entre esquerda e direita, apresentando as diferenças ideológicas e programáticas, mas sem cair no erro de se tornar populista. Aí poderá começar a recuperar a importância da política na vida das pessoas, o que pode não ser uma tarefa fácil, pois estamos vindo de longo processo de desconstrução agudo da política.

O sociólogo Eric Fassin afirma que se os povos não souberem a importância da política em suas vidas, esses reduzirão a percepção de necessidade de uma nova alternativa econômica e política para superação dos seus problemas a uma mera necessidade de alternância governos, que tanto faz ser de esquerda ou direita.

O PT tem que reafirmar que é de esquerda. A esquerda que humaniza as relações e socializa as oportunidades entre as pessoas. A esquerda que inclui os pobres no orçamento (Minha Casa Minha Vida, Luz Para Todos), amplia direitos (as cotas, o Mais Médicos, Bolsa Família), que cuida da juventude (PROUNI, ENEM, FIES sem avalista), investe no desenvolvimento cientifico e tecnológico (Ciências sem Fronteiras e o PROSUB), que fortalece as instituições e que impõe com firmeza a nossa soberania frentes a todos as outras nações.

Também é fundamental reforçar a diferença da direita cruel, que retira os direitos, diminui o papel do estado como fomentador do desenvolvimento, distribuidor da renda e provedor de necessidades. Que é contra a direita lesa pátria, que entrega as nossas riquezas, construídas com os esforços e muitos sacrifícios de cada homem e cada mulher, por exemplo, o pré-sal.

Que é contra a direita vira-lata, que se recusa a exercer papel soberano de sujeito perante os outros povos, para ser subserviente a esquizofrenia imperialista belicista norte-americana.

Para trilhar o seu retorno, o PT precisa ser percebido não apenas pela retórica de esquerda, mas, sobretudo, pela prática de combate ao individualismo e defesa da solidariedade. Como um partido ideológico e programático, precisa de um novo programa com uma matriz de desenvolvimento que esteja focada no capital natural e tecnológico que o país possui e no seu enorme capital social.

É urgente que apresente ao povo brasileiro um programa que proponha o fortalecimento e o fomento do empreendedorismo solidário, associativo, comunitário e da economia criativa, como estratégia de distribuição da riqueza e de ascensão social e econômica da população brasileira.

Por fim, termino afirmando, com o que pretendo discorrer em um próximo artigo, o que até pode parecer estranho, é que o PT para se ver de fora para dentro, precisará promover uma ruptura não dele com ele mesmo, como já propuseram alguns, muito menos com seu passado como propuseram outros, mas uma ruptura com algumas decisões recentes, com algumas formas de se perceber e com os métodos de se organizar e comunicar.

 

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