Vaticano excomunga padre e igreja do DF por ligação a grupo cismático
Decisão envolve a Capela Santo Atanásio, ligada à Fraternidade Sacerdotal São Pio X, e reflete desdobramentos de decreto do Vaticano sobre o grupo
A Arquidiocese de Brasília declarou a excomunhão do padre Françoá Costa e da comunidade da Capela Santo Atanásio, na Ceilândia (DF), por adesão à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX). A arquidiocese orientou os fiéis a não frequentarem o local, enquanto o sacerdote contesta a decisão e sustenta que a comunidade permanece em comunhão com a Igreja.
O que aconteceu
A Arquidiocese de Brasília anunciou a excomunhão do padre Françoá Costa e da comunidade vinculada à Capela Santo Atanásio, localizada na Ceilândia (DF). Em nota canônica publicada na última sexta-feira (10/7), a arquidiocese informou que a medida foi adotada em razão da adesão do sacerdote à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), grupo que vive um impasse com o Vaticano.
Segundo o documento, os fiéis devem evitar participar das atividades promovidas pela capela para não incorrerem no crime de cisma, caracterizado pela ruptura da unidade com a Igreja, e na consequente pena de excomunhão. A arquidiocese afirma que todas as celebrações realizadas no local, incluindo missas, confissões e casamentos, passaram a ser consideradas ilegítimas por não ocorrerem em comunhão com o Papa nem com o arcebispo metropolitano de Brasília.
A nota também declara que os leigos que aderirem formalmente à FSSPX, compartilhando sua posição de ruptura e frequentando regularmente ou exclusivamente suas atividades, são igualmente considerados cismáticos e excomungados.
De acordo com a arquidiocese, o padre Françoá Costa comunicou de forma reservada ao bispo diocesano de Anápolis (GO), em 5 de abril de 2025, sua adesão à FSSPX. A própria página oficial da Capela Santo Atanásio informa que a comunidade é vinculada à fraternidade, fato apontado como fundamento para a declaração de cisma.
Em resposta ao Metrópoles, o padre afirmou que recebeu a decisão "com muita paz". Segundo ele, a comunidade já se considerava abrangida pelo decreto emitido pelo Vaticano e entende que o cardeal de Brasília apenas tornou pública uma determinação que já existia.
O sacerdote, no entanto, contestou a validade jurídica da punição. Com base nos cânones 751, 1323 e 1324 do Código de Direito Canônico, afirmou que a comunidade não é cismática nem excomungada. Também sustentou que, pelo princípio da "jurisdição de suplência", os sacramentos celebrados na capela, como confissões e casamentos, permanecem válidos e lícitos.
Françoá Costa acrescentou que a comunidade manterá sua oposição ao Concílio Vaticano II e ao que classifica como modernismo na Igreja. Segundo ele, não haverá reconciliação caso isso implique aceitar o Concílio Vaticano II e a missa promulgada pelo papa Paulo VI.
A decisão da Arquidiocese de Brasília decorre de um decreto publicado em 2 de julho pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, no Vaticano, que aplicou a excomunhão latae sententiae à Fraternidade Sacerdotal São Pio X.
Segundo o Vaticano, a medida foi motivada pela ordenação episcopal considerada ilícita realizada pelo bispo Alfonso de Galarreta, que consagrou quatro novos bispos sem autorização expressa do papa Leão XIV. Também foram atingidos pela excomunhão os novos bispos Pascal Schreiber, Michael Goldade, Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier, além do bispo Bernard Fellay, que participou da cerimônia como co-consagrante. A pena é reservada à Sé Apostólica, cabendo exclusivamente ao Papa revogá-la.
A Santa Sé informou ainda que todos os ministros da FSSPX devem ser considerados oficialmente em cisma e alertou que sacerdotes da fraternidade administram sacramentos de forma ilícita. Para a Igreja Católica, as confissões e os casamentos celebrados por esses padres são inválidos.
Em resposta, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X divulgou o manifesto "Sanções inválidas e sacramentos válidos". O grupo rejeita a acusação de cisma e afirma que a simples desobediência ao Papa não caracteriza ruptura com a Igreja. Segundo a fraternidade, seus sacerdotes continuam rezando pelo Pontífice em todas as missas e mantêm respeito à autoridade papal.
A FSSPX argumenta que, conforme o Direito Canônico, a excomunhão automática não pode ser aplicada a quem age em um estado de necessidade, motivado, segundo a entidade, pela atual crise de fé e de moral na Igreja. Com base nesse entendimento, sustenta que seus membros não estão excomungados e que os sacramentos celebrados permanecem válidos.
Por fim, a fraternidade afirma que o principal impasse com o Vaticano é doutrinário, relacionado à rejeição das reformas do Concílio Vaticano II. Como exemplo, cita que sacerdotes interessados em deixar a FSSPX precisam assinar um documento aceitando formalmente o Concílio. Apesar do conflito, a instituição orienta seus fiéis a não alimentarem ressentimentos contra as autoridades de Roma e a continuarem rezando pelo Papa.
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