Tesla, Coca-Cola, Nestlé e eBay alertam para prejuízos e pressionam Trump contra tarifas sobre produtos brasileiros
Empresas afirmam que tarifas contra o Brasil prejudicam a economia dos Estados Unidos
Gigantes da economia norte-americana, como Tesla, Coca-Cola, Nestlé e eBay, pediram oficialmente ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) que desista da aplicação de novas tarifas sobre produtos importados do Brasil. As manifestações foram protocoladas em 1º de julho, último dia da consulta pública realizada no âmbito da investigação conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos.
Ao menos 365 manifestações de empresas, entidades empresariais e cidadãos foram encaminhadas ao USTR contestando o chamado tarifaço contra o Brasil. Na avaliação das corporações, as medidas propostas pelo governo do presidente Donald Trump não afetariam apenas exportadores brasileiros, mas também provocariam impactos diretos sobre a economia dos próprios Estados Unidos, elevando custos de produção, pressionando a inflação e comprometendo cadeias globais de suprimentos.
As manifestações antecedem as audiências públicas iniciadas nesta segunda-feira (6), nas quais o USTR discute a adoção de tarifas adicionais de 12,5% e 25% sobre diversos produtos brasileiros. A decisão definitiva está prevista para 15 de julho.
Empresas afirmam que tarifas contra o Brasil prejudicam a economia dos Estados Unidos
A Coca-Cola solicitou ao USTR a manutenção da isenção tarifária atualmente concedida aos insumos derivados da laranja importados do Brasil e pediu tratamento semelhante para o limão utilizado na fabricação de bebidas da companhia.
Segundo a empresa, a adoção de novas tarifas poderá provocar interrupções nas cadeias de abastecimento, aumentar os custos industriais e afetar toda a indústria americana de alimentos e bebidas. A companhia defendeu que qualquer medida comercial seja "direcionada e operacionalmente viável", evitando impactos desnecessários sobre empresas instaladas nos Estados Unidos.
Dados da plataforma ComexStat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, mostram que os Estados Unidos são atualmente o maior comprador de suco de laranja congelado brasileiro, tendo importado cerca de US$ 139 milhões do produto em 2026.
Tesla diz que indústria americana ainda depende de insumos brasileiros
A Tesla também manifestou preocupação com a proposta do governo americano.
Em sua manifestação, a montadora destacou que investiu bilhões de dólares para construir uma cadeia de fornecimento integrada nos Estados Unidos, mas reconheceu que determinados componentes e matérias-primas estratégicos ainda não podem ser obtidos internamente em quantidade e qualidade suficientes para manter a competitividade da indústria americana.
A empresa defendeu que eventuais medidas comerciais sejam cuidadosamente calibradas, levando em consideração a realidade das cadeias globais de suprimentos. Segundo a fabricante de veículos elétricos, tarifas generalizadas poderão atingir trabalhadores, consumidores e empresas norte-americanas antes que o mercado consiga substituir esses insumos.
Nestlé pede ampliação da lista de produtos isentos
A Nestlé solicitou ao USTR que amplie a lista de produtos brasileiros livres das novas tarifas.
Entre os itens incluídos no pedido estão o café instantâneo não aromatizado e o colágeno bovino, ambos exportados pelo Brasil.
A multinacional argumenta que o café em grão não pode ser cultivado comercialmente em grande escala no território continental dos Estados Unidos e lembra que o Brasil lidera o mercado mundial de exportação de colágeno bovino, tornando difícil a substituição desses produtos por fornecedores domésticos.
eBay alerta para impactos sobre pequenos comerciantes americanos
O eBay apresentou uma manifestação de treze páginas solicitando isenção para produtos usados de origem brasileira vendidos em sua plataforma.
Segundo a empresa, a cobrança das novas tarifas poderá tornar inviável a importação de itens de baixo valor, já que os custos alfandegários poderão superar o preço das próprias mercadorias.
A companhia também argumentou que taxar produtos de segunda mão não produzirá qualquer efeito sobre fabricantes brasileiros, uma vez que esses bens já foram comercializados anteriormente. Na avaliação da plataforma, a medida apenas reduziria as opções disponíveis aos consumidores americanos e prejudicaria pequenos revendedores dos Estados Unidos.
Como funciona o tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil
O USTR propôs uma barreira tarifária dividida em duas frentes distintas.
A primeira prevê uma tarifa adicional de 12,5%, baseada na alegação de que o Brasil e outros países não estariam combatendo adequadamente a circulação de produtos produzidos com trabalho forçado.
Já a segunda estabelece uma sobretaxa de 25%, sob o argumento de que o governo brasileiro adota práticas consideradas restritivas ao comércio com empresas americanas.
Entre os pontos citados pelo órgão estão questões relacionadas ao comércio digital, sistemas de pagamento eletrônico — incluindo o Pix —, propriedade intelectual, tarifas preferenciais, acesso ao mercado de etanol, combate à corrupção e políticas ambientais relacionadas ao desmatamento ilegal.
Governo Lula contesta investigação dos Estados Unidos
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu às conclusões da investigação.
Por meio do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, o Itamaraty enviou uma manifestação oficial ao USTR classificando as conclusões do órgão como "errôneas", "arbitrárias" e incompatíveis com as evidências apresentadas pelo Brasil durante a investigação.
O documento também sustenta que a utilização da Seção 301 para impor sanções comerciais unilaterais viola as normas da Organização Mundial do Comércio (OMC), que prevê mecanismos próprios para solução de disputas antes da adoção de medidas retaliatórias.
Flávio Bolsonaro tenta convencer Washington a adiar tarifas contra o Brasil
Em meio ao aumento da tensão diplomática entre Brasília e Washington, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) viajou aos Estados Unidos para participar das audiências públicas promovidas pelo USTR.
Além da participação prevista na sessão, o parlamentar protocolou um documento de 86 páginas solicitando o adiamento da aplicação das tarifas por 180 dias, a retirada do Pix da investigação comercial e a abertura de negociações bilaterais entre os dois países.
Durante agenda em Washington, Flávio Bolsonaro afirmou que as novas tarifas poderiam prejudicar tanto empresas brasileiras quanto norte-americanas e argumentou que a medida acabaria favorecendo politicamente o presidente Lula.
Debate político amplia repercussão do tarifaço
A atuação do senador ocorre em um cenário de forte polarização política.
Críticos apontam que integrantes da família Bolsonaro defenderam anteriormente o aumento da pressão exercida pelos Estados Unidos sobre o governo brasileiro. Após o anúncio das tarifas, o presidente Lula passou a associar essa articulação política à adoção das medidas comerciais.
Por outro lado, Flávio Bolsonaro afirma que busca evitar prejuízos econômicos aos dois países e defende que eventuais negociações sejam realizadas antes da entrada em vigor das tarifas.
Caso o tarifaço seja implementado antes das eleições presidenciais brasileiras, o episódio tende a ganhar ainda maior dimensão política, podendo influenciar o debate público sobre relações internacionais, comércio exterior e soberania nacional durante a campanha eleitoral.
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