Ratinho processa Erika Hilton por chamá-lo de… rato
Processo reacende debate sobre liberdade de expressão, transfobia e a ironia de um personagem midiático que agora rejeita o símbolo que o consagrou
Carlos Massa, o Ratinho, construiu um personagem público durante décadas em torno da imagem do próprio apelido — e agora tenta transformar em caso de Justiça o uso político da mesma metáfora. A decisão do apresentador de processar a deputada federal Erika Hilton por injúria, calúnia e difamação reacendeu o debate sobre liberdade de crítica, transfobia e o que muitos classificam como uma evidente contradição.
A ação tramita na 7ª Vara Criminal de Brasília e foi revelada pelo jornalista Gabriel Vaquer, do F5/Folha de S.Paulo. No processo, Carlos Massa afirma que teve sua honra atingida ao ser chamado por Erika de “somente um rato”, em reação a declarações do apresentador contra a parlamentar.
Mas a controvérsia vai além do embate judicial. Há um componente simbólico impossível de ignorar: Ratinho fez do apelido um império midiático. Durante décadas, o apresentador adotou o nome artístico inspirado no animal, utilizou caricaturas de ratos em cenários, vinhetas e na identidade do programa, transformando a figura em marca comercial e ativo de audiência. Agora, quando o símbolo retorna em forma de crítica política, o comunicador recorre aos tribunais.
De ícone popular a vítima do próprio personagem?
O processo revela um paradoxo: o homem que sempre explorou a irreverência do codinome “Ratinho” parece se sentir ofendido quando o símbolo é devolvido em contexto político. Para adversários e apoiadores de Erika Hilton, há um evidente duplo padrão.
A fala da deputada ocorreu após declarações de Carlos Massa questionando a legitimidade de Erika para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara. O apresentador afirmou que uma mulher trans não deveria ocupar o posto e fez comentários amplamente criticados como transfóbicos.
“Tem tanta mulher, por que vai dar para uma trans?”, disse Ratinho em seu programa, ao sustentar que Erika não seria “mulher de verdade”.
A reação veio nas redes:
“Eu sou e sempre serei uma mulher. Este apresentador é, e sempre será, um rato”, escreveu Erika Hilton.
A resposta virou munição para o processo movido pelo apresentador — e também para acusações de hipocrisia.
Processo contra Erika Hilton amplia desgaste de Ratinho
A ofensiva judicial ocorre enquanto o próprio Ratinho enfrenta questionamentos mais graves. A deputada acionou a Justiça por transfobia, pediu indenização de R$ 10 milhões e solicitou ao Ministério das Comunicações suspensão temporária do programa do SBT.
Além disso, o Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul ingressou com ação civil pública contra o apresentador, sustentando que houve discurso de ódio e desumanização da identidade de gênero.
O caso transformou um embate verbal em disputa política e jurídica de grandes proporções.
Quando o “rato” incomoda
O episódio levanta uma pergunta incômoda: por que o apelido que sempre serviu como marketing agora vira ofensa imperdoável?
A reação de Carlos Massa expõe seletividade. Ao longo da carreira, Ratinho construiu fama em programas marcados por ataques, humilhações públicas e linguagem agressiva. Agora, ao ser alvo de ironia política, reivindica proteção penal.
Há quem veja nisso mais do que uma disputa judicial: um símbolo do comportamento de figuras públicas que naturalizam o ataque, mas não toleram a resposta.
No centro do caso, permanece a ironia difícil de ignorar: um apresentador que transformou “rato” em marca registrada decidiu ir à Justiça porque alguém o chamou justamente de rato.
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