Política

Porto de Galinhas e Balneário Camboriú: agressão física e palanque político

O debate deixou de ser sobre justiça e segurança e passou a ser apenas mais um capítulo da exploração política do medo


Reprodução Porto de Galinhas e Balneário Camboriú: agressão física e palanque político
Balneário Camboriú e Porto de Galinhas

O casal agredido em Porto de Galinhas transformou um episódio de violência em discurso político, usando Balneário Camboriú como vitrine simbólica do bolsonarismo. A narrativa passou a estigmatizar o Nordeste e associar segurança a alinhamento ideológico, ignorando que Santa Catarina também registra casos graves de violência.

O QUE ACONTECEU 

O casal de turistas de Mato Grosso envolvido na confusão com comerciantes em Porto de Galinhas decidiu encerrar o ano em Balneário Camboriú, cidade que se consolidou, nos últimos anos, como vitrine simbólica do bolsonarismo no Sul do país. A mudança de destino, após o episódio registrado em 27 de dezembro, foi rapidamente convertida em narrativa política nas redes sociais, deslocando o foco da agressão para uma leitura ideológica conveniente.

Johnny Andrade e Cleiton Zanatta haviam planejado o réveillon no Nordeste, mas passaram a tratar a ida a Santa Catarina como um gesto de “reparação”. Johnny foi o mais agredido na confusão, e o casal acabou acolhido por entidades do setor turístico de Balneário Camboriú, com hospedagem custeada por associações locais. O gesto de solidariedade, legítimo em si, foi transformado em espetáculo e contraponto simbólico a Porto de Galinhas, alimentando um discurso que opõe regiões do país a partir de rótulos políticos.

Em entrevistas e publicações, Balneário Camboriú passou a ser apresentada como espaço de “acolhimento e segurança”, enquanto Porto de Galinhas foi associada a hostilidade e abandono. O subtexto político não demorou a aparecer. O casal passou a atribuir aos moradores do destino pernambucano o estigma de “petistas”, evocando resultados eleitorais como explicação implícita para o episódio de violência. A generalização, além de intelectualmente pobre, serve apenas para inflamar divisões e reforçar preconceitos regionais.

Cleiton Zanatta é seguidor declarado de Jair Bolsonaro e Michelle Bolsonaro, o que ajuda a entender a rapidez com que um conflito localizado foi convertido em palanque ideológico. O problema não está na orientação política do casal, mas no uso de um episódio traumático para sustentar uma narrativa simplista, quase publicitária, que vende a ideia de uma “cidade mais segura do Brasil” em oposição a regiões supostamente dominadas por adversários políticos.

Esse discurso ignora deliberadamente a realidade. Santa Catarina também convive com violência grave e recorrente. Nos últimos dias, quatro jovens de Minas Gerais desapareceram na Grande Florianópolis em circunstâncias que levantam suspeitas de envolvimento do crime organizado. Houve ataques a tiros no Litoral Norte, confusões violentas em Itapema, episódios de embriaguez ao volante, agressões, esfaqueamentos em áreas turísticas e cenas de caos que mobilizaram forças de segurança e equipes de emergência. Nada disso cabe na narrativa idealizada vendida nas redes.

Violência não é exclusividade de território, partido ou região. É um problema estrutural do Brasil, atravessado por desigualdade, falhas de políticas públicas e ausência do Estado em diferentes níveis. Transformar dor em propaganda política não contribui para a responsabilização dos agressores nem para a prevenção de novos episódios. Ao contrário, alimenta xenofobia, reforça estigmas e banaliza conflitos reais.

Também é legítimo questionar os interesses por trás da exposição midiática do caso: busca por visibilidade, ganhos financeiros indiretos ou simples alinhamento a uma narrativa pronta, que encontra eco em bolhas ideológicas bem organizadas nas redes sociais.

Solidariedade não pode virar palanque. Dor não pode virar marketing. Quando isso acontece, o debate deixa de ser sobre justiça e segurança e passa a ser apenas mais um capítulo da exploração política do medo.

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