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Passou a eleição! Boulos falou: “esquerda não deve se mover ao centro”

“Podemos nos tornar uma mistura de Irã com México”, disse ele


Valor Econômico Passou a eleição! Boulos falou: “esquerda não deve se mover ao centro”
Guilherme Boulos

Após ser derrotado por Ricardo Nunes (MDB) na eleição para a Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos (PSOL) fez uma avaliação incisiva do cenário político brasileiro em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo. Conversando na casa de praia de sua irmã em Boiçucanga, litoral norte de São Paulo, o deputado manifestou frustração com o resultado das eleições municipais e advertiu sobre o risco de um “ciclo de 20 anos de extrema direita no poder” caso a esquerda não se posicione com firmeza. "Se a esquerda virar centro agora, será um suicídio histórico", afirmou ele, referindo-se à pressão interna para suavizar o discurso e adotar uma linha mais conciliadora.

Segundo Boulos, a derrota em São Paulo reflete uma movimentação mais ampla de forças políticas e econômicas em torno de uma “americanização” do cenário brasileiro. Ele ressaltou que até setores do PT têm se rendido a essa visão de centro-direita. “Alguns estão caindo nesse canto de sereia. Estão errados. A extrema direita está ganhando a disputa cultural por W.O.”, disse ele, apontando a influência de figuras como Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, que consolidam uma nova base ideológica.

“Eu perdi a eleição para um consórcio em torno de 2026” Para Boulos, sua derrota foi, em essência, para uma aliança de forças comprometidas em construir um “bolsonarismo moderado” como opção competitiva para as eleições presidenciais de 2026. Ele relatou sentir o peso dessa coalizão em ataques que chamou de “sem precedentes”, incluindo a divulgação de um laudo falso que o acusava de uso de drogas, feito por Pablo Marçal, outro candidato da direita. Segundo Boulos, Marçal criou um ambiente político favorável ao seu adversário ao ponto de “normalizar” Ricardo Nunes. “Era tão bizarro e ofensivo que ele normalizou o Ricardo Nunes”, disse.

Durante a campanha, Boulos reconheceu a força das redes sociais na mobilização do eleitorado conservador e criticou a ausência de regulamentação das grandes plataformas. “Precisamos debater a importância da regulamentação das redes para a democracia brasileira”, defendeu.

A defesa da esquerda e o papel de Lula em 2026 

Boulos enxerga o ex-presidente Lula como um pilar contra o avanço da extrema direita. “O Lula é o que separa o Brasil do abismo do fundamentalismo e da extrema direita. Quem achou que o bolsonarismo acabaria com a vitória do Lula em 2022 fez uma leitura apressada”, declarou. Segundo ele, o fenômeno da extrema direita possui uma base robusta na sociedade, e ignorá-lo seria um erro estratégico.

Para o deputado, a esquerda deve resistir ao “sonho” de uma política brasileira polarizada entre centro e direita, onde não há espaço para pautas progressistas. Ele considera essa “americanização” uma ilusão. “A esquerda virar centro é aceitar o jogo da extrema direita. E, se não sairmos dessa defensiva, essa hegemonia se consolidará.”

Debate de valores e luta por uma “sociedade de direitos” 

Boulos defendeu que a esquerda precisa ocupar espaços na disputa de valores culturais e ideológicos, terreno que a extrema direita tem aproveitado de forma eficaz. Ele enfatizou a importância de um discurso que dialogue diretamente com os anseios populares por prosperidade e acesso a direitos básicos, como educação e saúde de qualidade. “É preciso dizer que defendemos uma sociedade de direitos contra esse modelo de cada um por si.”

Ele observou também que a visão sobre a pobreza mudou nas periferias urbanas. “Há um fenômeno de mudança de identidade nas classes populares, que se veem agora como ‘empreendedores’. Essas pessoas querem melhorar de vida, e precisamos dialogar com esse desejo”, explicou Boulos. Para ele, a extrema direita conseguiu consolidar uma narrativa que associa a esquerda a uma ameaça comunista, e por isso é necessário disputar a sociedade com um novo enfoque. “A praça pública hoje é tanto virtual quanto presencial. Temos que disputar em ambos os espaços”, defendeu, referindo-se ao engajamento da esquerda nas redes sociais e nas ruas.

Alerta final: “Podemos nos tornar uma mistura de Irã com México” 

No encerramento, Boulos fez um alerta sobre o futuro do país: “Se não enfrentarmos esses riscos agora, o Brasil pode se tornar uma mistura de Irã com México, marcada pelo fundamentalismo e pela presença do crime organizado e das milícias na política.” Ele concluiu que a esquerda precisa, mais do que nunca, disputar ideias e esperanças na sociedade para evitar essa trajetória.

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