Política

Os caminhos que levaram Ciro Nogueira a Daniel Vorcaro

Esses caminhos foram pavimentados por interesses compartilhados, movimentos coordenados e um ambiente político que se mostrava receptivo a articulações de alto risco


Imagem montada com recurso de IA Os caminhos que levaram Ciro Nogueira a Daniel Vorcaro
Os caminhos que levaram Ciro Nogueira a Daniel Vorcaro

A trajetória que conectou o senador Ciro Nogueira (PP-PI) ao banqueiro Daniel Vorcaro, sócio majoritário do Banco Master, revela uma articulação contínua, silenciosa e politicamente lucrativa que atravessou Brasília nos últimos dois anos. À medida que o Banco Master buscava alternativas para escapar de sua crescente fragilidade financeira, parlamentares influentes e dirigentes partidários abriram portas, aproximaram interesses e criaram pontes que hoje estão no centro das investigações da Operação Zero Compliance.

A dinâmica começou ainda em 2023, quando o Master intensificou sua presença política em Brasília. O ponto de partida foi Flávia Peres — ex-mulher de José Roberto Arruda, ex-ministra do governo Bolsonaro e atualmente casada com Augusto Lima, sócio do Banco Master. Foi ela quem apresentou Ciro Nogueira ao núcleo de controle do banco, aproximando-o diretamente de Daniel Vorcaro. A partir dali, abriu-se um caminho no qual interesses privados e articulações partidárias se tornaram indistinguíveis.

No final do ano passado, Vorcaro buscava desesperadamente um comprador para o Master. Encontrou no sistema político do Distrito Federal o terreno fértil que precisava. A aproximação entre o Banco de Brasília (BRB) — controlado pelo governo Ibaneis Rocha (MDB) — e o Banco Master ocorreu com empenho pessoal de duas figuras-chave: Antônio Rueda, presidente do União Brasil, e Ciro Nogueira, presidente do Progressistas. Ambos são peças indispensáveis para as ambições eleitorais de Ibaneis em 2026: o governador quer disputar uma vaga no Senado e depende do apoio de PP e União Brasil para garantir musculatura política no Distrito Federal, onde pretende lançar Celina Leão (PP) como candidata ao governo.

Esse alinhamento abriu caminho para que Vorcaro fosse recebido no BRB. A influência dos dirigentes partidários foi determinante: o banco estatal passou a negociar a compra do Master, operação que acabou barrada pelo Banco Central. Paralelamente, no início de 2025, o BRB liberou R$ 12 bilhões ao Master em uma operação que hoje é apontada pela Polícia Federal como fraudulenta — baseada em carteiras de crédito falsificadas, sem lastro e com a única finalidade de financiar o banco privado com recursos públicos. O movimento levou à prisão de Vorcaro e de diretores do Master.

Mas a atuação de Ciro Nogueira não se restringiu aos bastidores. Em agosto de 2024, ele fez uma defesa aberta dos interesses do Master ao tentar inserir, em uma PEC alheia ao tema, uma proposta para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por conta. A mudança favoreceria diretamente o banco, que teria mais facilidade para captar recursos via CDBs — seu principal produto comercial. A iniciativa, vista como extemporânea por senadores, foi rejeitada. Ironicamente, com a liquidação do Master decretada ontem, caberá agora ao mesmo FGC desembolsar R$ 41 bilhões para socorrer investidores.

Enquanto articulava nos bastidores, Vorcaro se aproximava da elite política de Brasília. Em fevereiro deste ano, um dia após a eleição de Hugo Motta (Republicanos-PB) para a presidência da Câmara, o banqueiro estava na festa de celebração, cercado por parlamentares e dirigentes partidários. Semanas depois, no Carnaval do Rio de Janeiro, patrocinou um camarote exclusivo na Sapucaí, onde estiveram presentes Ciro Nogueira, Antônio Rueda, Isnaldo Bulhões (MDB-AL) e outros políticos. Era o ápice de uma estratégia que tentava combinar prestígio político, acesso institucional e a busca incessante por um comprador para o Master — movimento que, nos bastidores, já enfrentava ceticismo sobre a real solidez das carteiras do banco.

Os caminhos de Ciro e Vorcaro, portanto, não se cruzaram por acaso. Foram pavimentados por interesses compartilhados, movimentos coordenados e um ambiente político que se mostrava receptivo a articulações de alto risco. Agora, com a queda do Banco Master e a prisão de seu controlador, essa rede de relações passa a ser reconstituída pela Polícia Federal. E tudo indica que o fio que liga o senador do Piauí ao banqueiro mineiro ainda tem muitos nós a serem desatados.

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