O que está por trás do ataque de Trump ao Pix
EUA investigam Brasil por bloqueio ao WhatsApp Pay e favorecimento ao Pix, sistema de pagamentos do Banco Central
O Departamento de Comércio dos Estados Unidos (USTR) abriu uma investigação formal contra o Brasil, focando nas restrições impostas pelo Banco Central (BC) à operação do WhatsApp Pay e na ascensão do Pix, sistema de pagamentos instantâneos que tem transformado o mercado financeiro brasileiro. A apuração, baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 – a mesma utilizada em disputas comerciais com a China –, levanta questionamentos sobre a concorrência leal e a soberania regulatória do Brasil.
O ponto central da investigação é a suspensão imediata do WhatsApp Pay em 2020, logo após seu lançamento em junho daquele ano. O serviço de pagamentos da Meta, controlada pelo bilionário Mark Zuckerberg (também dono do Facebook e Instagram), chegou ao Brasil meses antes do cronograma inicial do Pix, mas foi barrado pelo BC e pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). A justificativa oficial do Banco Central à época foi a preocupação com "danos irreparáveis ao sistema brasileiro de pagamentos, notadamente em relação à competição, eficiência e privacidade", negando qualquer intenção de proteger seu próprio sistema.
No entanto, a liberação do WhatsApp Pay foi lenta e progressiva: somente em novembro de 2020 foi permitido de forma restrita, o envio de dinheiro entre pessoas físicas foi autorizado em março de 2021, e os pagamentos a estabelecimentos comerciais só foram liberados em março de 2023, quase três anos após o lançamento original. Paralelamente, diante da movimentação da Meta, o Banco Central antecipou o lançamento do Pix, que inicialmente estava previsto para novembro, mas foi efetivado em agosto de 2020.
Analistas avaliam que tanto o Pix quanto o WhatsApp Pay operam com base em "economias de rede", um modelo que favorece o pioneirismo no mercado ao conectar consumidores e fornecedores. A tese da investigação norte-americana é que a atuação do Banco Central desequilibrou o ambiente concorrencial, privilegiando o Pix em detrimento do WhatsApp Pay.
Reações Políticas e Econômicas
O líder do PT na Câmara dos Deputados, Lindbergh Farias (RJ), acusou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de tentar "acabar com o Pix" para proteger os interesses de operadoras de cartão de crédito norte-americanas, como Visa e Mastercard. Em declaração nas redes sociais, Lindbergh classificou a ofensiva como uma tentativa de sabotagem às conquistas do povo brasileiro, criticando os "golpistas traidores" e defendendo a soberania do Brasil. Ele também ressaltou que o Pix foi criado por servidores do Banco Central, e não pelo governo Bolsonaro, como o ex-presidente costumava se gabar.
O advogado Luciano Timm, ex-titular da Secretaria Nacional do Consumidor e atual diretor da Associação Brasileira de Liberdade Econômica, avalia que a postura do Banco Central "abriu flanco para o ataque americano" ao atuar como um participante direto do mercado. Embora reconheça o sucesso do Pix em termos de adesão, Timm questiona os limites da atuação da autoridade monetária em um cenário de concorrência.
O Impacto do Pix no Mercado de Cartões
A investigação do USTR e as declarações políticas evidenciam uma disputa mais ampla pelo bilionário mercado de pagamentos digitais. O sucesso estrondoso do Pix no Brasil, que hoje responde por mais de 40% de todos os pagamentos no país, tem reduzido drasticamente o uso de cartões de crédito e débito, afetando diretamente as receitas de operadoras internacionais como Visa e Mastercard.
Dados da Payments and Commerce Market Intelligence (PCMI) mostram que o setor de cartões brasileiro já se conformou com a perda de participação de mercado para o Pix. A Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) prevê que os cartões de débito terão crescimento mínimo em 2024. A Visa, em seu relatório de lucros, revelou que o volume de pagamentos com cartões de débito com a bandeira da empresa vem caindo desde fevereiro de 2024.
O artigo da PCMI indica que o Pix "continuará a reduzir as receitas de intercâmbio dos bancos e competir com o setor de cartões", não apenas "roubando" transações, mas também permitindo o desenvolvimento de novas soluções integradas ao sistema. Com juros anuais de até 450% em cartões de crédito, o Pix oferece uma alternativa gratuita e mais barata para os consumidores, o que impacta diretamente os rendimentos dos bancos.
A resposta das gigantes de cartão, segundo a PCMI, é tentar competir diretamente com os sistemas de pagamentos instantâneos, principalmente na arena transfronteiriça, e defender sua posição no mercado de clientes de alta renda para fidelizá-los.
A investigação dos EUA, que também abrange questões de propriedade intelectual e barreiras a outras empresas de tecnologia americanas, além de tarifas e políticas comerciais, indica uma escalada na tensão comercial entre os dois países. O cenário sugere que a ofensiva norte-americana busca reequilibrar o jogo no setor de pagamentos digitais, mesmo que à custa da soberania regulatória brasileira.
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