O nome é Guilherme Derrite.Você já ouviu falar, mas sabe realmente quem ele é?
Guilherme Derrite está em todos os noticiários e é o homem que trabalha para minar a Polícia Federal
Você que acompanha a imprensa brasileira nos últimos dias certamente tem se deparado com um nome que talvez ainda não fizesse parte do seu radar: Guilherme Derrite, deputado federal e relator do PL Antifacção. Presente em praticamente todo o noticiário recente, ele ganhou protagonismo num dos debates mais sensíveis do país. Para que o leitor compreenda quem é, de onde veio e o que representa na política de segurança pública brasileira, o pensarpiauí preparou um perfil detalhado do parlamentar.
Guilherme Derrite, o capitão da Rota que virou peça-chave da extrema direita na segurança pública
Guilherme Cortês Derrite, 41 anos, nasceu em Sorocaba (SP) e construiu sua carreira pública a partir de um símbolo de força e letalidade: a Polícia Militar de São Paulo, especialmente a Rota — a tropa mais violenta e temida do país. Ao longo de 18 anos de serviço, tornou-se conhecido não por feitos de inteligência policial, mas pela quantidade de mortes acumuladas em seu histórico. A ponto de a própria corporação tê-lo removido da unidade por “matar demais”, segundo sua própria versão e a de colegas de farda.
A trajetória na polícia: a cultura da morte como marca
Derrite ingressou na PMESP ainda jovem e ascendeu ao posto de capitão. Foi na Rota, entretanto, que seu nome ganhou projeção. Envolveu-se, em curto intervalo, em sete ocorrências com 17 mortos — número não oficial, mas amplamente reconhecido nos bastidores da segurança pública paulista.
Sua visão de polícia apareceu de forma explícita num podcast, antes de ingressar na política, quando declarou ser “vergonhoso um policial ter mais de cinco anos de carreira e não ter matado pelo menos três pessoas”. A frase circulou com enorme repercussão e ajudou a consolidar a imagem de um agente da lei que transformava letalidade em discurso político.
Ascensão eleitoral e entrada no bolsonarismo
Em 2018, surfando a onda bolsonarista e a retórica do “bandido bom é bandido morto”, Derrite se elegeu deputado federal por São Paulo com 82.015 votos. Quatro anos depois, mais do que dobrou sua votação: 239.772 votos o colocaram entre os mais votados do país, no maior colégio eleitoral da federação.
Com a posse de Tarcísio de Freitas no governo paulista, em 2023, foi convidado a comandar a Secretaria de Segurança Pública. Aceitou sem hesitar — era a oportunidade de aplicar, no plano institucional, a lógica que o projetara politicamente.
Operações “Escudo” e “Verão”: a política da carnificina
À frente da Segurança Pública, Derrite comandou pessoalmente duas operações na Baixada Santista — “Escudo” (2023) e “Verão” (2024). Os resultados foram devastadores: 84 mortos em comunidades pobres, em cenários marcados por denúncias de execuções sumárias, tortura e disparos aleatórios.
Entre as vítimas havia dona de casa, criança de quatro anos, jovem cego, cadeirante e adolescentes que sequer estavam envolvidos com o crime. Um carro de família foi metralhado por engano. Moradores relataram invasões, agressões e tiros a esmo em bairros periféricos.
A resposta de Derrite era sempre a mesma: sua prioridade eram os policiais. Já Tarcísio chegou a ironizar as críticas dizendo que quem discordasse “podia reclamar na ONU”.
A explosão da “Carbono Oculto”: o PCC na Faria Lima e a exposição da incompetência
Em agosto de 2024, a Polícia Federal desencadeou a “Carbono Oculto”, maior operação da história contra o crime organizado. Revelou-se uma estrutura financeira de proporções bilionárias operada pelo PCC no coração da Faria Lima, movimentando R$ 52 bilhões por meio de fintechs e fundos de investimento.
Era o tipo de crime que exige inteligência, monitoramento e investigação de alta complexidade — mas nada disso foi feito pelas polícias subordinadas a Derrite. A facção comandava postos de gasolina, usinas de etanol, empresas de transporte, redes de padarias, construtoras, iates, fazendas e contratos públicos, tudo sob as barbas do governo paulista.
O caso expôs publicamente a contradição: enquanto Derrite conduzia operações hiperletais nas periferias, o crime organizado expandia seu poder econômico no centro financeiro mais rico do país. O discurso de “linha dura” mostrava-se, diante dos fatos, inócuo ou conivente.
O retorno à Câmara e o ataque às atribuições da Polícia Federal
Quando o governo Lula apresentou o PL Antifacção, buscando enfim criar um marco legal unificado para enfrentar o crime organizado, parte do centrão e a extrema direita viram a chance de trazer Derrite de volta a Brasília. Ele pediu exoneração da Secretaria de Segurança e reassumiu o mandato para assumir a relatoria do projeto.
Seu primeiro movimento foi: retirar da Polícia Federal praticamente todas as competências relacionadas ao combate ao crime organizado. Pela proposta, a PF só poderia atuar mediante solicitação prévia dos governadores — justamente os chefes das polícias estaduais que tantas vezes são capturadas politicamente.
Num cenário como São Paulo, sob Tarcísio de Freitas, a lógica da “Carbono Oculto” revela onde esse modelo levaria: nenhuma ação contra estruturas sofisticadas do crime que se infiltram no mercado financeiro, na política local e nos contratos públicos.
O círculo político: o jantar com Eduardo Cunha
Em busca de blindagem política após a repercussão negativa, Derrite se aproximou de figuras centrais do submundo do poder em Brasília. Em 12 de novembro, jantou com Eduardo Cunha ao lado de Arthur Lira, ex-presidente da Câmara.
Cunha, considerado símbolo da corrupção brasileira, foi condenado em processos que somam mais de US$ 7 milhões em propinas, cumpriu quase cinco anos de prisão e teve papel decisivo no impeachment de Dilma Rousseff. Hoje opera como articulador nos bastidores.
É com ele — e não com especialistas em segurança, inteligência ou combate ao crime organizado — que Derrite discute o futuro da legislação que deveria enfrentar as facções.
Vácuo de inteligência
A trajetória de Guilherme Derrite sintetiza uma das contradições mais profundas da política de segurança pública da extrema direita: uma retórica agressiva, centrada na violência estatal contra pobres, enquanto o crime organizado se sofisticou, enraizou-se nas estruturas econômicas e se beneficiou do vácuo de inteligência.
De capitão da Rota conhecido pela letalidade a secretário de segurança envolvido em operações com dezenas de mortos, Derrite agora tenta redesenhar, no Congresso, o marco legal que regulará o combate às facções. Sua proposta inicial, entretanto, mira menos nas organizações criminosas e mais na Polícia Federal — a mesma que expôs, como nunca, a incapacidade do modelo “linha dura” de enfrentar o crime real.
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